Fumar pode causar uma lista enorme de males e complicações. Isso todo mundo sabe. O que nem todo mundo percebe é que parar de fumar também pode causar uma montanha de males e problemas.
Em seu novo romance, ''Estive em Lisboa e Lembrei de Você'', o escritor mineiro Luiz Ruffato realiza um passeio pela montanha russa de problemas e complicações de um ex-fumante. Utilizando doses calculadas de humor e ironia, revela as desventuras de um homem durante o saudável período de abstinência de nicotina.
Lançado pela editora Companhia das Letras, o livro narra a história de Serginho, um rapaz comum do interior de Minas Gerais que leva uma vida normal até o dia que resolve parar de fumar. A partir desse dia sua vida sofre uma mudança inesperada: casa-se com uma mulher louca, ganha um filho inesperado, perde o emprego e a casa, assiste a morte do pai e da mãe, perde a adorável moto e o futebol de domingo.
Diante do quadro nada agradável, decide partir para Portugal em busca de uma vida melhor. Naquele país da Europa, ouve falar, há trabalho sobrando em cada esquina e dinheiro caindo do céu - e não é necessário nem ao menos saber outro idioma. Serginho troca as frustrações pelo imaginário do imigrante.
Na realidade Luiz Ruffato utiliza a abstinência do cigarro para contar a história de um emigrante brasileiro imerso na ingenuidade. O recorte realizado está justamente entre o momento em que ele abandona o fumo e o instante em que volta a fumar. Esse processo pode ser encarado como representação de um rito de passagem. Nada mais do que a realidade cravando as unhas indiscretas na ingenuidade.
Em solo português, após perambular por toda Lisboa, Serginho consegue emprego como garçom. Em pouco tempo, percebe que as coisas não serão nada fáceis. Mas como a esperança é a última que escorrega e a carne a mais forte, acaba se envolvendo com uma linda goiana que também tenta a sorte no estrangeiro. Uma moça que percorre as ruas da cidade rodando uma bolsinha vermelha.
A ingenuidade do personagem sugere a imagem do clássico bocó que desconhece as maldades do mundo. Sabe que elas existem, mas as considera longínquas, quilômetros e quilômetros de distância. Ruffato focaliza, sem tendências ácidas, o arquétipo da índole simples do homem brasileiro, onde a esperteza e a ingenuidade formam as duas faces de um mesmo povo.
A narrativa desenvolvida por Luiz Ruffato em ''Estive em Lisboa e Lembrei de Você'' mantém as características contemporâneas presente em seus livros mais conhecidos como ''Eles Eram Muitos Cavalos'' e a série ''Inferno Provisório'': ''Mamma, Son Tanto Felice'', ''O Mundo Inimigo'', ''Vista Parcial da Noite'' e ''O Livro das Impossibilidades''. A confluência entre realidade e ficção aparece, desta vez, flertando com os sutis elementos do humor. Como se a desgraça não estivesse perfeita se não houvesse uma breve possibilidade para o riso.


Serviço:
- Estive em Lisboa e Lembrei de Você
Autor - Luiz Ruffato
Editora - Companhia das Letras
Quanto - R$ 29 (90 pág.)


''Encostei no balcão, pedi uma cerveja, um pratinho de azeitona, e desembainhei um questionário, ''Como é que um sujeito chega em Portugal?'', ''De avião, ora pois'', ''Como é que é um avião por dentro?'', ''Apertado'', ''De onde sai o avião?'', ''Do Rio de Janeiro'', ''Quanto tempo demora a ida?'', ''Umas nove horas'', ''E a volta?'', ''Mesma coisa, ora pois'', ''Tem banheiro?'', ''Evidentemente'', ''Dá pra dormir?'', ''Até ronco'', ''Tem comida?'', ''A da TAP é boa'', ''E o país?'', ''O melhor do mundo'', ''Onde um sujeito, que quiser ir, compra a passagem?'', ''Em Juiz de Fora'', ''Quanto custa maiôs ou menos?'', ''Uns mil dólares, dependendo da época'', ''Mil dólares?'', ''Dependendo da época'', ''Que mais que um sujeito, que quiser ir, precisa saber?'', ''Tem que tirar passaporte...'', ''Passaporte?'', ''Um documento universal'', ''Hum...'', ''E tem que trocar o dinheiro?'', ''Onde o sujeito arruma o tal passaporte?'', ''Na Polícia Federal, em Juiz de Fora'', ''E o quê que o senhor falou de dinheiro?'', ''Tem que trocar, levar euro'', ''E se o sujeito nem nunca viu um euro de perto?'' (...)
(Fragmento de ''Estive em Lisboa e Lembrei de Você'' de Luiz Rufatto)

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