LEITURA - Desajuste e misericórdia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de janeiro de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Quando um escritor é agraciado com o prêmio Nobel de Literatura, todos os louros recaem sobre a cabeça do autor. Mas quem realmente ganha são os leitores mundo afora. Isso porque editoras, dos mais diferentes países, decidem publicar os livros do agraciado com o prêmio.
Entre os exemplos desse quadro está o da escritora canadense Alice Munro, ganhadora do Nobel de Literatura de 2013. Antes de receber o prêmio, mesmo sendo reconhecida pela qualidade e peculiaridades de sua literatura, tinha um único livro publicado no Brasil, "Felicidade Demais" (Companhia das Letras, 2010).
Após receber o Nobel, foram lançados outros cinco títulos, "O Amor de uma Boa Mulher" (Companhia das Letras, 2013), "Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento" (Globo, 2013), "Vida Querida" (Companhia das Letras, 2013), "A Vista de Castle Rock" (Globo, 2014) e "Fugitiva" (Globo, 2014). O sexto título, "Amiga de Juventude", foi lançado recentemente pela editora Globo.
"Amiga de Juventude" reúne 10 contos que possuem alguma similaridade, trazem personagens femininas reencontrando amigas do passado. A partir desse reencontro, a vida das mulheres é aberta em panorâmica, partindo dos elementos cotidianos mais básicos para chegar a questões mais elaboradas da existência humana.
As mulheres protagonistas das histórias de Alice Munro, sempre pessoas comuns com algum sentimento de desajuste, estão diante de elementos imediatos como mãe, pai, escola, emprego, filhos, marido, casa, amigas e amantes. A partir desses elementos, os segredos assumem formas amplas, ganhando proporções não imaginadas através da honestidade das personagens consigo mesmas.
Entre os recursos narrativos utilizados por Alice Munro nos contos de "Amigas da Juventude", está a condução paralela. Há os fatos e as lembranças vividas pelas personagens, mas também há os fatos e as lembranças fabricadas pelas personagens. O jogo é simples, há os acontecimentos e há a possibilidade de que as coisas poderiam ter acontecido de maneira diferente. Entre as regras desse jogo, está a possibilidade de que aquilo que poderia ter acontecido representa o que realmente aconteceu. O segredo passa a ser o sentido, e a realidade torna-se o princípio de uma farsa.
Alice Munro é uma contadora de histórias exemplar. Possui a capacidade de conduzir o leitor com os pés na terra para, num momento inesperado, retirar o chão. Parte de um bolo de chocolate para falar como uma mulher não se arrepende de um casamento de um dia para outro. Coisas bobas como um cachecol que não combina com o casaco, pode chegar a coisas reveladoras como admitir que quando o perdão se apresenta fácil demais, ele pode não possuir verdade. Coisas pueris como precisar usar os surrados sapatos da irmã mais velha, pode chegar a reflexões sobre abortos voluntários e involuntários. Tudo trafegando entre a honestidade psicológica e a misericórdia.
Uma das características dos contos de Alice Munro está em partir de um elemento particular em direção a algo mais amplo. Em suas histórias não há recortes limitados, há a vida como um complexo que abarca várias fases da existência íntima (infância, juventude, adulta e velhice) acompanhada das transformações da sociedade, da cultura e da moral.
Nascida em 1931, na cidade de Huron County (região de Ontário), Alice Munro publicou seu primeiro livro com 37 anos, quando ainda atuava como dona de uma livraria. Aos 83 anos de idade, autora de 15 volumes de contos, foi a primeira escritora a se dedicar exclusivamente ao gênero conto a receber o Nobel de Literatura.
Serviço:
"Amiga de Juventude"
Autor Alice Munro
Editora - Globo
Tradução Elton Mesquita
Páginas 304
Quanto R$ 44,90


