Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Desajustados da revolução
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Pedro Juan Gutiérrez mostra a experiência trágica dos artistas no processo de instalação do regime comunista em Cuba
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Cuba sempre é um assunto de gera calorosas discussões. Seja do lado direito, do lado esquerdo ou do lado do meio. Discussões capazes de incendiarem a própria razão. O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez coloca um pouco mais de combustível nesse fogo em seu novo romance, "Fabián e o Caos".
Lançada pela editora Alfaguara, a obra traz um retrato da primeira década de revolução cubana a partir da perspectiva de dois personagens completamente desajustados, Fabián e Pedro Juan. São dois amigos que vivem a adolescência na década de 1960, anos que marcam o começo da implantação do regime comunista na ilha.
Fabián é um rapaz frágil, introspectivo e refinado. Protegido pela mãe e execrado pelo pai, dedica sua vida à música. Passa grande parte do tempo estudando piano, tocando compositores clássicos com devoção. Procura ser o mais invisível possível pelas ruas e na escola.
Pedro Juan (personagem presente em vários livros de Gutiérrez, seu alter ego) é exatamente o oposto. Um rapaz forte, briguento, tosco e bocudo. Parte para a porrada com qualquer um que esbarrar com ele. Adora se exibir como macho e pensa em uma única coisa na vida: sexo.
Fabián e Pedro estudam juntos na mesma escola e, apesar das diferenças, uma amizade tem início. Uma amizade que ganha maiores proporções quando ambos são reconhecidos como desajustados pela ideologia do governo revolucionário. Fabián, por ser um artista homossexual. Pedro por ser um vagabundo hedonista.
Para corrigir suas condutas consideradas degeneradas, os dois são obrigados a trabalhar pesado num matadouro de porcos. Quem mais sofre é Fabián, que precisa abandonar o grande sentido de sua vida, a música.
Através de uma ficção carregada de elementos biográficos, Gutiérrez demonstra como os artistas viveram uma experiência trágica no processo de instalação do regime comunista em Cuba. E que a miséria política pode assumir proporções muito maiores do que a pobreza material. Pode ser muito mais pobreza familiar e miséria humana.
Juan Pedro Gutiérrez nasceu em 1950. Começou a trabalhar com 11 anos de idade e passou pelos mais diversos ofícios até entrar de cabeça na literatura. Atualmente é considerado um dos autores cubanos mais lidos fora de seu país. Possui sete livros publicados no Brasil. Crítico do regime cubano, mantém a firme a decisão de viver em seu país até os dias de hoje.

Serviço:
"Fabián e o Caos"
Autor – Pedro Juan Gutiérrez
Editora – Alfaguara
Tradução – Paulina Wacht e Ari Roitman
Páginas – 198
Quanto – R$ 44,90

De noite, em casa, humilhação de novo. Agora na presença da mãe: - É um inútil. Quebrou dois vidros de azeitona. Não quero que ele vá mais lá. Ele só dá prejuízo. Que fique em casa brincando de boneca. E olhando ameaçador para Fabián: - Você nunca vai servir para nada. Não conte comigo. Não conte comigo! Nunca! Seu inútil! Deu um soco na mesa, levantou-se furioso e virou as costas. Foi se sentar na sala, sem jantar. Diante desses rompantes do pai por causa de algo que tivesse feito, Fabián aprendeu a se defender: cinismo, frieza, distância, não me interessa o que ele pensa, o que fala nem o que faz. Não tinha outro jeito de se defender dos ataques do pai. Só podia se refugiar na cumplicidade com a mãe e no cinismo. Fazer tudo escondido. Sua vida era um labirinto. Entrava naqueles meandros para se esconder da ditadura do pai. Fugia em silêncio, queria ser invisível para poder fazer o que quisesse. Pouco a pouco tudo se misturava dentro dele: cinismo, sarcasmo, medo, silêncio, solidão, duas caras. Era um mundo pequeno, sórdido, tortuoso. (Fragmento de "Fabián e o Caos", de Pedro Juan Gutiérrez)
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