O México é o país mais surrealista do mundo.
Essa afirmação não é um chute no escuro. Ela é levada ao pé da letra pelo escritor mexicano Juan Pablo Villalobos em seu novo romance, "Se Vivêssemos em um Lugar Normal", lançado pela editora Companhia das Letras. Tudo pode acontecer dentro de um contexto social onde só o delírio é capaz de explicar a realidade.
O livro é narrado por um sujeito relembrando de sua infância e adolescência, durante a década de 80, no seio do lar de uma humilde e hilária família mexicana. O pai, um professor, passa a noite diante dos noticiários da televisão soltando os cachorros e xingando tudo que aparece na tela. Principalmente os políticos responsáveis pela situação social de penúria da família. A mãe, uma dona de casa dedicada, passa os dias chorando por todo e qualquer tipo de coisa. Chora porque a gema do ovo é amarela, chora quando abre a geladeira, chora quando os filhos penteiam os cabelos, chora porque a noite é escura, chora pelo fato do dia ser claro, enfim, uma manteiga ao calor do meio-dia.
Os sete filhos passam o tempo se estapeando para ver quem consegue não passar fome. Rezam para que alguns dos irmãos simplesmente desapareçam do mapa para sobrar mais tortillas para saciarem a fome. E de tanto imaginarem uma família menor, as crianças começam a desaparecer pelas situações mais absurdas.
Mas a desagregação familiar não é apenas provocada pela fome. A casa onde residem, situada num bairro periférico chamado Morro Puta Que Pariu, é ameaçada de demolição. Um grande empreendimento imobiliário pretende transformar o lugar num condomínio de classe alta. A tragicomédia não tem fim.
Entre o humor e a ironia, Juan Pablo Villalobos narra na verdade o contexto social, econômico e político da população mexicana. Esse é o grande mérito do romance, tocar em assuntos surrados através de uma ótica inusitada. A realidade é ironizada para ser exibida nua, numa espécie de desacato à realidade.
Caminho semelhante de seu romance anterior, "Festa no Covil" (Companhia das Letras, 2011), traduzido para quinze línguas e que está sendo adaptado para o cinema. A proposta de Villalobos é uma trilogia sobre seu país a partir de uma visão original.
Em "Festa no Covil" o escritor narra a história de um garoto filho de um poderoso narcotraficante. Mesmo vivendo envolto numa violência brutal, o garoto nada vê, nada sente diante de seu desejo de ter um hipopótamo anão como bicho de estimação.
A ironia é o grande instrumento da literatura de Juan Pablo Villalobos. Para narrar determinados temas, prefere falar de elementos periféricas da realidade. Em vez de narrar o fato em si, faz a opção de narrar coisas que acontecem em volta do fato.
As últimas páginas de "Se Vivêssemos em um Lugar Normal" puxam o tapete onde o leitor descansava sua carcaça. Parte do princípio de que a realidade é tão absurda que só um absurdo maior pode dar conta do entendimento da realidade.

Serviço:
"Se Vivêssemos em um Lugar Normal"
Autor – Juan Pablo Villalobos
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Andreia Moroni
Páginas – 160
Quanto – R$ 36,50 e R$ 25,50 (e-book)

Minha mãe vigiava o estado da nação virando as tortillas e controlando os níveis de cólera de meu pai. Mesmo assim só interrompia quando via que ele estava à beira de um colapso, quando meu pai dava de engasgar diante da sucessão de disparates dialéticos que presenciava no jornal. Só aí minha mãe se aproximava para lhe aplicar uns tapinhas certeiros nas costas, aperfeiçoados pela prática cotidiana, até que meu pai cuspisse um pedaço de quesadilla e perdesse aquela coloração arroxeada com o qual adorava nos aterrorizar. Tudo a porra de uma ameaça de morte não comprida. - Tá vendo, calma, você vai ter um treco – minha mãe o repreendia e em seguida tentava nos acalmar do susto e nos tranqüilizar, exercendo a contradição materna. - Deixem ele, isso ajuda a descarregar. Nós o deixávamos, que ele se asfixiasse e descarregasse, porque nesses momentos nos concentrávamos numa luta fraticida pelas quesadillas, uma batalha selvagem pela autoafirmação de individualidade: tentar não morrer de fome. Em cima da mesa era uma estapeação danada, dezesseis mãos, com seus oitenta dedos, em lide para afanar as tortillas. Meus adversários eram meus seis irmãos e meu pai, todos tecnocratas altamente qualificados na estratégia de sobrevivência numa grande família. (Fragmento de "Se Vivêssemos em um Lugar Normal" de Juan Pablo Villalobos)
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