Mar solidão. Mar razão. Mar delírio.
A facilidade com que o homem é capaz de se perder nessas três águas é lendária. No labirinto de ondas, ventos e tempestades, a própria ideia de realidade pode afundar.
O escritor holandês Toime Heijmans desenha o naufrágio da realidade de um navegador em "No Mar", romance lançado pela editora Cosac Naify. Ao mesmo tempo em que revisita os relatos de aventuras marítimas, apresenta o lado nebuloso das navegações solitárias que beiram a insanidade.
Narra a trajetória de Donald, um funcionário exemplar que exerce por duas décadas a mesma função na empresa. Mesmo dedicado ao trabalho, assiste às gerações mais novas galgarem os cargos mais alto. Ansiando vivenciar a verdadeira liberdade, se aventura ao longo de três meses de férias em percorrer, solitariamente, os mares a bordo de um veleiro.
O relato de "No Mar" se concentra nos dois últimos dias da viagem, quando Donald recebe a bordo a filha de sete anos de idade para completar a etapa final, da Dinamarca à Holanda. Percorrendo o Mar do Norte, o navegador precisa permanecer dois dias sem dormir, atento a tudo que acontece para evitar colisões com outros barcos e bancos de areia.
A presença da filha na etapa final da aventura confere uma responsabilidade a mais ao navegador. Como não pode colocar a criança em risco, e deseja que ela viva a experiência de navegar pelo mar, Donald se sente na obrigação de redobrar os cuidados para evitar inesperados infortúnios.
Nos desdobramentos dos cuidados para suprimir os riscos de uma criança num pequeno veleiro em alto mar, a viagem do personagem também se transforma em uma reflexão sobre a paternidade. Um território que, em alguns momentos, entra em conflito com a maternidade. Um conflito onde dois mundos precisam viver em busca de uma esperança de harmonia.
"No Mar" é estruturado a partir de uma narrativa simples e uniforme. E seria mais um relato comum de viagem ficcional se Toine Heijmans não construísse duas reviravoltas que conferem sentido do romance.
A primeira reviravolta aparece quando, durante uma tempestade noturna, a filha que dormia no interior do barco simplesmente desaparece. Tentando lidar com a navegação do barco e o sumiço da criança, Donald experimenta um pânico gigantesco, uma tensão que o leitor acompanha com o coração na mão.
A segunda reviravolta surge quando o navegador está próximo de concluir sua jornada. A imagem é da esposa e mãe da menina esperando no cais a chegada de pai e filha. O drama é que o veleiro não aparece no momento previsto. O atraso se prolonga sem motivo aparente e a tensão retorna a dar contorno à narrativa.
"No Mar" possui segredos que se revelam aos olhos do leitor em momentos exatos, quando os ventos parecem reconquistar a tranquilidade durante a tempestade. Segredos que abandonam os mares da razão e atingem os mares do delírio. Uma demonstração de que o homem que empreende uma aventura diante das forças da natureza, não encontra liberdade. Ele encontra a solidão.
No processo de uma aventura selvagem, o homem que buscava liberdade encontra a escravidão da auto-sobrevivência. O sujeito que buscava o sentido da existência na aventura, encontra a falta de sentido da razão. E tudo fica à deriva no vasto oceano da insanidade.
O personagem de "No Mar" navega a bordo do "Ishmael". O nome do veleiro é uma homenagem ao narrador de "Moby Dick", clássico romance do norte-americano Herman Melville (1819 – 1891). Assim como "Moby Dick", a narrativa de "No Mar" não é o relato de uma aventura marítima de sucesso. O grande inimigo do navegador não está nos desafios práticos da navegação. Muito menos nas forças naturais dos mares, ventos, tempestades e animais marinhos. O grande inimigo está na mente que, diante de desafios adversos, abandona a razão e sucumbe ao delírio.
Mar solidão. Mar razão. Mar delírio. Oceanos humanamente imponderáveis.

Serviço:
"No Mar"
Autor – Toine Haijmans
Editora – Cosac Naify
Tradução – Mariângela Guimarães
Páginas – 160
Quanto – R$ 32,90

A escolha foi minha. Eu queria aventura. Quando lemos aventuras, são histórias de heróis. O homem contra a água. O homem contra a montanha. O homem contra o mundo selvagem. Mas agora que eu mesmo vim parar numa aventura, ela não tem nada de romântico. Faz um frio de rachar. Pessoas normais evitam aventuras – elas têm razão. Quando você escala uma montanha, seu destino está nas mãos da montanha. E a montanha se importa se você cai ou não? Meu destino está nas mãos do mar. E o mar se importa se eu fracassar? Até agora, vi o mar como um aliado, um amigo com quem eu podia unir esforços. Mas o mar não pode ser seu amigo. A água não tem sentimentos nem história. Não faz nada, simplesmente existe. Se te mata, se te afoga, não há nada por trás disso a não ser a sua própria burrice. O mar não é amigo e também não é inimigo. O fato de você estar ali, na água, é o que é. Que todo o seu futuro dependa disso, o seu e o dos outros – a água não pode fazer nada a respeito. Não importa bulhufas para a água. O problema das pessoas é que humanizam tudo. Acham que a água tem um plano. Querem ser mais fortes que a água, quando na verdade é só água: água sem pensamentos, sem segundas intenções. (De "No Mar", de Toine Haijmans)
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