LEITURA - Deformações da verdade
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de maio de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Quando um espelho é colocado diante de outro espelho, aquilo que os olhos vêem parece ambíguo, mas não deixa de ser lógico. Os olhos vêem o reflexo do reflexo. Nesse jogo, a imagem sofre uma espécie de diluição. Mas o que se dilui não é exatamente sua definição, mas seu sentido, seu conteúdo enquanto imagem.
Em seu novo romance ''O Sol se Põe em São Paulo'', o escritor Bernardo de Carvalho utiliza esse jogo para narrar uma história que se parece com um espelho frente a outro espelho. Na verdade corre um risco, pois nesses casos, uma possível diluição do sentido é capaz de reduzir o brilho da própria história.
''O Sol se Põe em São Paulo'' é narrado por um descendente de japoneses que ganha a vida como redator publicitário na cidade de São Paulo. Um sujeito que acalenta o desejo oculto de se tornar escritor. Embora tenha deixado totalmente de lado a cultura de seus antepassados, tem como hábito comer num restaurante japonês do bairro Liberdade.
Certo dia, a proprietária do restaurante, senhora Setsuko, que trocou o Japão pelo Brasil há décadas, diz que está procurando alguém para escrever sua história. Apesar de nunca ter escrito um único livro, o sujeito aceita a tarefa e passa a se encontrar com Setsuko para ouvir sua história.
Sua história, bem como motivo que a levou emigrar para o Brasil, envolve outras três pessoas que, com ela, formam um quadrilátero perturbador. Dois homens e duas mulheres que se relacionam numa relação de dependência doentia. Pessoas que, juntas, caminham para a tragédia. Ao mesmo tempo, pessoas que não conseguem se desvencilhar antes do abismo.
Setsuko conta uma parte de sua história e desaparece no ar. Ao sujeito, que deve escrever o livro, cabe buscar investigar novas informações para montar o quebra-cabeça da história. Em pouco tempo descobre que Setsuko não existe, a senhora japonesa criou uma personagem para poder narrar a realidade os fatos. Descobre que tudo está ligado a um triângulo amoroso de prazer e dor. Tudo se apresenta como um espelho de alguma outra coisa.
O narrador também faz parte desse jogo de espelho. E até mesmo um escritor japonês que começou a escrever a mesma história, décadas atrás, mas optou em não conclui-la, faz parte dos corredores que levam ao espelho fatal. Nesse jogo, a literatura é encarada como uma arte que sobrevive graças a sua capacidade em não ser real, em ser mentira, imaginação. Quando ela passa narrar a verdade, o lado palpável do real, deixar de ser interessante. Comete assim uma espécie de suicídio, abotoa o paletó, dá último suspiro. Ou seja, bate as botas. E o luto, cabe apenas ao leitor, que assume a figura de órfão, de viúvo.
No romance, Bernardo Carvalho cria um grande número de corredores, salas e labirintos onde tudo caminha para uma direção conceitual: qualquer coisa que se conte sobre algo, invariavelmente não corresponde à verdade. Seria apenas uma leitura imaginativa de situações, sentimentos, pessoas e pensamentos. Em resumo, a história de qualquer pessoa é uma sucessão de equívocos. Equívocos que outras pessoas têm como função transformá-los em outra história. Não há domínio algum sobre as percepções e interpretações.
A personagem Setsuko, por exemplo, parte do princípio de que o melhor escritor é aquele não que escreveu nenhum livro. Idéia que se estende a outros personagens, onde o fato de narrar é justamente o gesto de alterar a vida daquele que está presente na narrativa.
Em outras palavras, pode-se dizer que, quando qualquer coisa é narrada, deixa de ser verdade para se tornar mentira. E a única coisa que reluz na ficção é justamente o fato dela não ser real, de corresponder ao outro, não a nós mesmos. Claro que esse jogo de espelhos não é tão simples como parece. O próprio narrador de ''O Sol se Põe em São Paulo'' encontra mais sentido na história do outro do que em sua própria história. Ou seja, a mentira do outro sempre se apresenta como algo mais sedutor do que a nossa própria verdade.
Fragmento de ''O Sol se Põe em São Paulo'', de Bernardo Carvalho
''Não era minha intenção contar uma mentira'', Setsuko se desculpou.
''Mas não é aqui que as mentiras se revelam?'', perguntou o velho, sorrindo, em referência ao bosque em torno do templo.
Ela mal conseguia olhar para ele; manteve o rosto caído durante todo o encontro, os olhos perdidos no chão onde pisava.
''Você só tem a perder com o que vai contar. Vai perder amigos, pessoas que a amam. É uma decisão. Tem que estar pronta para magoar e para se magoar. Contar tem um preço. Tem que estar pronta para perder, o tempo inteiro'', disse o velho.
''Então, por que interrompeu o romance?'', ela perguntou.
O escritor se apoiou com as mãos na bengala e fez uma careta de dor, tentando acertar o prumo. Sofria das mãos. ''Sua amiga me disse bem aqui, neste bosque, que as pessoas só lêem o que não lhes diz respeito diretamente. Querem saber da vida dos outros. Não da delas. Disse que eu a fiz perder todo o interesse pela literatura. Você tem que estar pronta para sofrer com os outros. Eu não conhecia essa gente. Não fazia idéia do sofrimento deles.''
''Nem eu'', murmurou Setsuko.
Serviço:
- Livro ''O Sol se Põe em São Paulo'', de Bernardo Carvalho. Editora Companhia das Letras, 168 páginas, R$ 34,00


