Em algumas situações, a mente pode ser comparada a uma grande casa. Uma enorme residência repleta de salas, quartos, varandas, portas, janelas e corredores. Uma habitação que comporta, de maneira discreta, um sótão e um porão.
Dois cômodos de pouca visitação, sótão e porão, espaços escuros e nebulosos. Lugares que guardam particularidades resguardadas da luz do sol e de ar puro. Em seu terceiro romance, ''As Vozes do Sótão'', o escritor paulista Paulo Rodrigues percorre esses lugares extremamente reservados da mente.
''As Vozes do Sótão'' narra a trajetória do alfaiate Damiano, um homem que se tornou refém da memória da família. Mais do que expor a história do personagem, apresenta seu solitário processo mental atormentado por uma voz imaginária.
Essa voz, que Damiano ouve dentro da cabeça, converte-se em seu principal interlocutor. O outro interlocutor que ele estabelece é um diário em que vive constantemente anotando e apagando o que escreve. Uma espécie de solidão absoluta.
O sótão de Damiano são as lembranças da mãe falecida. Um baú onde guarda pequenos objetos carregados de significados, inchados de passado. Curiosamente, ele não utiliza o constante manuseio desses objetos para preservar a memória, utiliza para eliminá-la. Seu interesse está em lembrar daquilo de que precisa esquecer. Para isso faz uso de diários, vozes interiores e vozes heterônimas.
A estrutura utilizada por Paulo Rodrigues em ''As Vozes do Sótão'' não é simples. Para narrar a trajetória de Damiano, o autor trabalha com duas narrativas paralelas. Uma delas seria a própria voz de Damiano. A outra, a voz de um personagem criado mentalmente por Damiano para falar de si mesmo, para ler suas ações de sentimentos através de outro olhar, através de outra versão das coisas.
Essa estrutura similar a corredores múltiplos, entre sótãos e porões mentais, ajusta-se sem conflito ao próprio enredo. O labirinto mental do personagem se estende à narrativa como um corpo único. Mesmo povoado de elementos esquizofrênicos, verbo e tormento mental permanecem unidos.
Autor de ''À Margem da Linha'' (2001) e ''Redemoinho'' (2004), Paulo Rodrigues revisa em ''As Vozes do Sótão'' o lendário tema da traição imortalizado por Machado de Assis nas figuras de Capitu e Betinho em ''Dom Casmurro''. Com o fantasma da traição mordendo suas entranhas, Damiano abandona uma pequena cidade do interior do Brasil para viver em Montevidéu.
Na cidade uruguaia, cria uma nova identidade com a intenção de sepultar o passado. Seu movimento está em exilar-se de si mesmo, de seu passado. O drama é que, em pouco tempo, com outra mulher, vê novamente o fantasma da traição devorando seu calcanhar. Num processo cíclico, o passado se revela como um chiclete grudado no destino.
Se a mente pode ser comparada a uma casa, ''As Vozes do Sótão'' pode ser descrito como um corredor entre o porão e o sótão. O caminho da umidade à poeira. Ou da lama ao sol.

Serviço
- As Vozes do Sótão
Autor - Paulo Rodrigues
Editora - Cosac Naify
Quanto - R$ 40 (144 pág)

Fragmento de ''As Vozes do Sótão'' de Paulo Rodrigues
Tudo muda constantemente no homem, até mesmo os sentimentos mais fortes e enraizados. O ódio, por exemplo, da mesma forma que se infiltra, um dia se desalinha. Aliás, eu comparo o ódio ao chupim que põe seus ovos para o tico-tico chocar. Ele não faz isso em todos os ninhos, só nos que estão desprotegidos. Ora, se o peito se fortalece e não descuida da vigília, ele se livra do parasita, seja este qual for.
E como é difícil para essa gente que me olha de viés perceber que a vida é como um caleidoscópio no qual as imagens se formam e no momento seguinte se dissolvem. O que vale está além da imagem, e esse valor escondido é uma pedra bruta que ninguém pode mudar. Com tempo e perseverança, é possível lapidá-la; já do contrário não há registro na história. A ação do tempo pode transformar o carvão em diamante, mas não é capaz do inverso.
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