Quando jovens, os escritores argentinos Jorge Luis Borges (1899 - 1986) e Adolfo Bioy Casares (1914 - 1999) eram fissurados pela literatura de Anton Tchekhov Para eles, a única opção para um aspirante a ficcionista era imitar a maneira de escrever do escritor russo
Os dois levaram a ideia tão a sério que, em 1945, editaram para publicação um dos romances de Tchekhov intitulado ''Estranha Confissão'' Segundo a lenda, Borges e Casares não tiveram pudores em interferirem no texto, em colocarem vinte dedos nas palavras Teriam efetuado alguns cortes aqui e acrescentado alguma coisa ali Enfim, não deixaram Tchekhov sozinho
Essa suposta ''versão'' realizada por Borges e Casares de ''Estranha Confissão'' foi publicada no Brasil em 2003 pela editora Planeta e uma nova edição chega às livrarias nas próximas semanas A obra foi escrita em 1884, quando Tchekhov (1860 - 1904) tinha apenas 24 anos Publicada originalmente na forma de folhetim em jornais russos, foi resgatada em forma de livro em 1933 É apontada por alguns pesquisadores como uma das provas de que o escritor teria sido o precursor do romance policial de fundo psicológico
''Estranha Confissão'' possui duas narrativas, uma no interior da outra, uma interligada a outra A primeira delas apresenta a história de um jornalista que recebe a visita de um velho na redação do periódico onde trabalha Ele traz nas mãos o manuscrito de um romance chamado ''Um Drama na Caça'' que deseja publicar no jornal na forma de folhetim Faz questão de frisar que se trata de uma história real, presenciada por ele no passado
A segunda narrativa é o texto ''Um Drama na Caça'' que o jornalista apresenta ao leitor Revela a história de Petrovitch, um juiz de atua numa pequena cidade russa A região é o ocupada pelas terras do conde Karnieiev, um homem que vive para beber, comer e se divertir com a mulheres
Petrovitch e Karnieiev vivem uma amizade regida por festas etílicas e devassas Num desses encontros, eles conhecem uma jovem camponesa que mora na região e se encantam com sua beleza Mas, para espanto dos dois, a moça escolhe os braços de um velho viúvo e se casa com ele
O grande desafio dos dois amigos é seduzir a jovem, transformá-la em amantes de ambos No meio desse jogo, ela é misteriosamente assassinada Um crime onde as pistas deixadas pelo culpado são mínimas
Anton Tchekhov apresenta inicialmente todos os episódios que precedem o crime Revela o perfil psicológico de cada personagem que posteriormente estarão sob suspeita do assassinato O crime torna-se a fatal consequência da narrativa Ele acontece apenas na reta final do romance
Tchekhov coloca, nos olhos do leitor, todas as informações necessárias para solucionar o caso, realizar o papel de detetive e descobrir o culpado Na maioria dos romances policiais existe um crime nas primeiras páginas Nas páginas restantes se propaga a tentativa de encontrar o criminoso Esse modelo é invertido em ''Estranha Confissão'', o assassinato aparece apenas no final do romance, após as tempestades morais dos personagens
Na narrativa de Tchekhov, a função de detetive cai sobre o primeiro leitor da história, o jornalista que recebe os originais do velho Aquele que seria o foco principal, encontrar o assassino, torna-se secundário e sugere que o papel de investigador também estaria, na realidade, nas mãos do leitor que acompanha a narrativa
Serviço:
- Estranha Confissão
Autor - Anton Tchekhov
Editora - Planeta
Tradução - Bernardo Ajzenberg
Páginas - 248
Quanto - Preço não definido
- Gosto de seu relato Mas seria preciso fazer algumas correções importantes
- O que o senhor acha necessário mudar?
- O sentido, a fisionomia geral do romance Aí estão todos os ingredientes do romance policial: um crime, as provas, o processo e, além disso, como brinde, quinze anos de trabalhos forçados para um personagem; mas falta o principal
- O quê?
- Não se descobre o verdadeiro culpado
Kamytchov abriu os olhos com espanto e se levantou
- Francamente, não entendo - disse após um breve silêncio - Se o senhor não considera culpado um homem que mata sua mulher atroz e estrangula um detento que pode acusá-lo, não sei a quem se pode considerar culpado Naturalmente, o criminoso é sempre um produto da sociedade e é ela que deve ser considerada culpada
(Fragmento de 'Estranha Confissão', de Anton Tchekhov)

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