LEITURA - Crime e justiça
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de novembro de 2012
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Um roubo, um machado, uma vingança, um assassinato. Juntos, poderiam render uma típica história policial. Mas se colocados no Afeganistão em plena guerra civil, tudo se transforma. A possível trama policial se converte numa reflexão sobre moral e justiça.
É isso o que acontece em ''Maldito Seja Dostoiévski'', novo romance do afegão Atiq Rahimi lançado pela editora Estação Liberdade. A editora já havia publicado outros três romances (''Terra e Cinza'', ''As Mil Casas do Sonho e do Terror'' e ''Syngué Sabour - Pedra de Paciência'') do escritor que vem chamando atenção por sua ponte literária entre oriente o ocidente.
''Maldito Seja Dostoiévski'' narra a história de um jovem chamado Rassul que, desempregado e sem esperanças, vaga pelas ruas de Cabul pensando na amada durante a guerra civil da década de 90. Leitor assíduo do escritor russo Dostoiévski (1821 - 1881), resolve se vingar da patroa da namorada, uma velha cafetina que a humilha e maltrata.
Planeja um roubo que culmina em morte. Um assassinato semelhante ao cometido pelo personagem de ''Crime e Castigo'', clássica obra de Dostoivéski, com direito a machada e tudo. Após a fuga, descobre que o corpo da vítima desapareceu misteriosamente junto com as provas do crime. Sob o impacto dos acontecimentos, Rassul sofre um trauma emocional e perde a voz.
Grande parte da narrativa de ''Maldito Seja Dostoiévski'' está centrada no tormento vivido pelo personagem abatido pela culpa do crime cometido e pela falta de perspectiva num país devastado pela guerra. Para acentuar ainda mais esse tormento, o autor coloca Rassul mudo, sem a faculdade da fala, sem poder resolver oralmente seus dramas. Um recurso encontrado para aumentar a tensão e a dramaticidade da narrativa.
Esse tormento de Rassul se alonga em demasia para chegar naquilo que realmente interessa: a equação da culpa através da confissão. Só no final do romance o personagem caminha nessa direção para revelar o verdadeiro sentido da obra.
Primeiramente Rassul se entrega à policia, confessando o crime. Mas a polícia, ocupada demais com a guerra e atrocidades, não pode se debruçar sobre um simples assassinato. Em seguida procura o judiciário. Mas para as leis do país matar uma cafetina não é crime, além de não existir o corpo da vítima. Por último procura a justiça religiosa islâmica, que também não vê crime seguindo o preceito do ''olho por olho, dente por dente''.
Esse processo kafkaniano aumenta o tormento de Rassul e sua culpabilidade. E abre uma nova perspectiva: ele deseja ser julgado não apenas para pagar pelo crime, para aliviar o sentimento de culpa, mas para servir como exemplo para a nação. Num país onde as atrocidades da guerra não são julgadas nem condenadas, o julgamento de um simples assassinato poderia se constituir como exemplo, um ponto de partida para a restauração da justiça.
Num primeiro momento pode-se pensar que o interesse de Atiq Rahimi está em expor ao ocidente os impasses morais e éticos de seu país. Olhando com mais atenção, é possível ver que seu interesse também está em misturar oriente e ocidente no que diz respeito aos princípios da justiça e da moral. Isso talvez pela própria trajetória do escritor. Nascido em Cabul em 1962, deixou o Afeganistão na década de 80 e conseguiu asilo político na França, onde vive até hoje.
''Maldito Seja Dostoiévski'' é um beco sem saída com algumas pitadas de esperança.
Serviço:
- ''Maldito Seja Dostoiévski''
Autor - Atiq Rahimi
Editora - Estação Liberdade
Tradução - Marcos Flamínio Peres
Páginas - 280
Quanto - R$ 49,50
Fragmento:
- Você deve reconhecer que fez algo importante: fez justiça.
- A justiça! Mas que justiça? Quem sou eu para decidir sobre a vida e a morte de alguém? Matar é um crime, o mais odioso que um ser humano pode cometer.
- ''Watandâr'', o assassinato é um crime quando a vítima é inocente. Essa mulher merecia ser punida. Havia feito mal à sua família, a seu ''nâmuss''. Ela o havia desonrado. O que você fez foi vingança. Ninguém tem o direito de julgá-lo como assassino.
- Comandante, meu problema não é saber como os outros me julgam; meu problema sou eu. Este sofrimento que me corrói por dentro, com uma chaga, uma chaga aberta, incurável.
- Nesse caso você tem apenas duas soluções: ou amputa seu membro ferido, ou habitua-se à sua dor.
(Fragmento de ''Maldito Seja Dostoiévski'', de Atiq Rahimi)


