Numa bela manhã de sol, um garotinho, filho de diplomatas, brinca na praia de Copacabana. Sob os cuidados da babá, com pá e baldinho, cava túneis e buracos na areia ao som das ondas do mar. A cena seria alegre e lúdica se o garoto, em sua ingênua escavação, não encontrasse algo estranho sob a areia da praia: um corpo.
A cena é descrita pelo escritor carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza nas primeiras páginas de seu novo romance policial, ''Berenice Procura''. Lançado pela Editora Companhia das Letras, a história não é protagonizada pelo delegado Espinosa, personagem principal dos romances anteriores de Garcia-Roza.
No lugar de um detetive investigando um crime, Garcia-Roza coloca uma pessoa comum, entediada com seu trabalho cotidiano. Trata-se de Berenice, uma taxista que passa grande parte de seu tempo rodando pelas ruas do Rio de Janeiro.
Tudo começa quando o garotinho encontra o corpo de um travesti enterrado nas areias da praia de Copacabana, com uma perfuração de faca no tórax. A polícia não dá muita atenção ao caso, mas Berenice, que tem seu ponto de táxi próximo ao local do crime, se vê impelida a desvendar o assassinato.
As únicas testemunhas do crime são Russo, um sem-teto, e Careca, um menino de rua. Ambos presenciaram, de madrugada, um casal caminhando em direção ao mar e, após algum tempo, o retorno somente do homem. Em seguida, Careca aparece morto dentro de um bueiro. Assim, a única testemunha fica sendo Russo que, com receio de ser investigado pela polícia, se isola no interior de galerias pluviais, esgotos e buracos de metrô do bairro de Copacabana.
Para elucidar o caso, Berenice utiliza os meios mais empíricos possíveis. Colhe informações na rua, procura Russo pelos buracos do bairro, e conta com um informante impertinente, o ex-marido, que trabalha como jornalista policial.
Em seu desordenado ímpeto de encontrar o culpado, a taxista descobre que o assassino pode ser uma pessoa próxima. Então deixa completamente de lado a justiça e se contenta apenas com a verdade, algo muito mais complicado do que a própria justiça.
No gênero policial, a veracidade é um elemento que concede sentido ao romance. No caso de ''Berenice Procura'', o autor optou por trabalhar com elementos distantes da realidade palpável, conferindo à história um caráter abertamente inverossímil. Algo que torna o romance sem amarras firmes no chão, muito mais para o imaginativo do que para as configurações de um crime.
Em ''Berenice Procura'' Garcia-Roza retira a atenção do clímax do romance policial, que repousa na elucidação do crime. Opta por apresentar soluções variadas, onde os personagens trabalham no sentido do nebuloso em oposição à clareza. Coloca nas mãos do leitor a derradeira solução do assassinato. O culpado, no caso, nega sua culpa, e os acusadores vagam em suposições.
Garcia-Roza é um autor representativo do gênero policial na literatura brasileira. Professor universitário na área de psicologia, publicou seu primeiro romance, ''Silêncio da Chuva'' (1996), aos 60 anos de idade. O livro recebeu o prêmio Jabuti de 1997. Depois vieram ''Achados e Perdidos'' (1998), ''Vento Sudoeste'' (1999), ''Uma Janela em Copacabana'' (2001) e ''Perseguido'' (2003). ''Achados e Perdidos'' foi transformado em filme por Paulo Halm e José Joffily, com estréia prevista para o primeiro semestre de 2006.
''Berenice Procura'' não pode ser considerado um dos melhores romances do autor. Mas mantém uma característica peculiar de Garcia-Roza, talvez o único autor brasileiro do gênero policial que utiliza sucessivamente uma região geográfica como suporte da história narrada, o bairro carioca de Copacabana.

Serviço:
- Livro ''Berenice Procura'', de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Editora Companhia das Letras, 180 páginas, R$ 29,00.

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