LEITURA - Cotidiano de poeta
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de abril de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Ele figura entre os poetas mais populares da literatura brasileira. Difícil encontrar alguém que nunca passou os olhos nos versos de ''Vou-me embora pra Pasárgada''. Dono de uma escrita simples e desprovida de ataques ranzinzas de linguagem, Manuel Bandeira criou uma obra de diálogo direto com o leitor.
Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu na cidade do Recife, em 1886, mas foi no Rio de Janeiro que passou a maior parte da vida. Seu objetivo era tornar-se arquiteto, mas a tuberculose conferiu novos caminhos para suas atividades. Além de poeta, atuou também como tradutor e jornalista, escrevendo em vários jornais e revistas do país. Desde sua morte, em 1968, seus livros e antologias nunca pararam de ser reeditados.
Quando ninguém imaginava a existência de textos inéditos de Bandeira, surge ''Crônicas Inéditas I'', organizado por Júlio CastaÀon Guimarães e lançado semana passada pela Cosac Naify. O segundo volume, ''Crônicas Inéditas II'', deve chegar às livrarias no final do ano. Também deve aportar nas livrarias, no início de 2009, uma novidade maior: um pequeno livro com poemas de amor inéditos garimpados no espólio de Bandeira por Elvia Bezerra.
''Crônicas Inéditas I'' reúne mais de uma centena de textos escritos por Bandeira entre 1920 e 1931, publicados em jornais e revistas do Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco. Os temas passeiam pela ampla calçada pavimentada pelo cotidiano, mas principalmente traçam um painel da arte em ebulição no país durante a segunda década do século 20.
Antenado, em suas crônicas Bandeira aborda o surgimento de novos artistas das artes brasileiras em sintonia com o resto do mundo. Figuras como Mário de Andrade, Lucio Costa, Villa-Lobos, Lasar Segall, Guiomar Novaes, entre outros, estão entre os criadores iniciantes que Bandeira levanta a bola. Arquitetura e música também são temas que merecem destaques do cronista.
O poeta se revela atento ao cotidiano e suas transformações. O impacto, por exemplo, das primeiras exibições do cinema falado na cidade do Rio de Janeiro, em 1929, onde o impacto é a ''ilusão absoluta'' de que o som sai da boca dos atores: ''A minha surpresa foi grande, porque verifiquei alvoroçado que estamos diante de uma nova fonte de emoção. O cinema falado permite a realização, impossível em outro domínio artístico, de um mundo de coisas novas. Muitas coisas velhas poderão ganhar novo interesse graças aos processos mais adequados do novo meio de expressão artística''.
Mas a crônica mais curiosa do livro é ímpar. Descreve um desfile de miss pelas ruas cariocas. Um evento que parou a cidade para a população se despedir da miss Brasil de 1929, Olga Bergamini, a caminho de um concurso nos Estados Unidos. Mesmo atordoado com tantas beldades, como uma espécie de comportado colunista social, Bandeira não deixa de perceber alguns detalhes irônicos: ''A última parte do préstito é que tinha muito de grotesco. Era o desfile das misses da cidade, todas trazendo a tiracolo a faixa verde-amarela com o nome do bairro em letras douradas: miss Olaria, miss Bangu, miss Bonsucesso, miss Cascadura, miss Jacarepaguá... Esses nomes já têm em si qualquer cousa de implacavelmente suburbano. Mas uma carinha bonita seria capaz de tirar partido ainda dessa mesma desvantagem. Podres misses suburbanas! Eram medonhas: uma tinha os dentes cariados e negros, outra o rosto picado de bexigas, outra pernas esqueléticas. O povo era de uma irreverência cruel para com elas. Ria sem piedade, aplaudia-as com uma ironia que muitas não compreendiam e agradeciam lisonjeadas''.
''Crônicas Inéditas I'' é um prato cheio para os fãs de Manuel Bandeira, pode ser encarado como um painel artístico do país da década de 20 pela ótica do poeta. Vale lembrar que Bandeira não desprezava seu trabalho de cronista. Ele próprio organizou uma antologia de suas crônicas em 1936 com o título ''Crônicas da Província do Brasil''. A obra ganhou uma nova edição no ano passado pela mesma Cosac Naify.
SERVIÇO
- Crônicas Inéditas I
Autor - Manuel Bandeira
Organizador - Júlio CastaÀon Guimarães
Editora - Cosac Naify
Páginas - 464
Quanto - R$ 65
A doença me reduziu à condição de poeta: ora, era arquiteto que eu pretendia ser. A arquitetura me seduzia por tudo o que não é arte nela: geometria, engenharia, higiene, senso prático da vida, o gosto de distribuir. Eu não tinha certeza de vir a construir belos edifícios, estava, porém, seguro de projetar casas cômodas. Uma casa cômoda! Uma casa bem apropriada às necessidades de uma família, o ambiente afetuosamente preciso para essa cousa sempre comovente, que é toda vida humana... Fazer a casa para o amor da gente, isso então me parecia naquele ponto o cúmulo da finalidade artística. Pobres poetas! Um poema pode envolver espiritualmente uma alma no espaço de alguns minutos: a casa envolve-a de todas as maneiras, possui e é possuída, imagem daquilo que mais deseja um coração ciumento: a habitação. Digam o que disserem, a verdade é que não há poema habitável... E depois sempre haveria a esperança da beleza.
Fragmento da crônica Arquitetura Diário Nacional, 16 de agosto de 1930 de Manuel Bandeira que integra o livro Crônicas Inéditas I


