Alguns escritores, quando começam a publicar seus livros, deixam o próprio nome de batismo para trás. Simplesmente criam um novo nome e abandonam o antigo com gotas de desprezo nos olhos. São impulsionados como serpentes, impelidos a trocarem de pele e seguirem em frente.
Quando começou a publicar seus textos, o escritor russo Aleksei Maksímovitch Piechkóv foi impelido a deixar o velho nome para trás e assumir a pele de Maksim Górki. O nome escolhido, literalmente ''Máximo, o Amargo'', arrastava um passado onde o sofrimento e a pobreza ocupavam lugar de destaque. Um passado escancarado em sua trilogia autobiográfica escrita entre 1914 e 1923.
Considerada a obra mais representativa da literatura de Górki, a trilogia acaba de ganhar sua primeira edição brasileira integral traduzida diretamente do russo. Lançada pela Ediotra Cosac Naify, os volumes ''Infância'', ''Ganhando Meu Pão'' e ''Minhas Universidades'' foram reunidos em caixa intitulada ''Górki''.
Nascido em 1868, Maksim Górki é considerado o criador do ''realismo socialista'', vertente que compreende a literatura produzida ao longo de todo o vendaval da Revolução Russa que se espalhou pelas primeiras décadas do século 20. Distante das vanguardas que colocavam em práticas as mais inovadoras invenções estéticas, Górki utilizava formas tradicionais, tendo como matéria-prima o homem comum que habitava a periferia urbana e rural da Rússia.
Figura contraditória, Górki foi amado e odiado em seu país. Viveu entre a louvação e a perseguição. Em determinados momentos era considerado amigo fiel de Lênin, Trotski e Stalin. Em outras situações, era tratado como inimigo e traidor dos três. Em certos momentos, era aclamado como o escritor mais popular do país. Em outros, viveu no completo e total ostracismo. Até hoje sua trajetória se revela uma história mal contada.
Os três volumes retratam a vida de Maksim Górki (1868 - 1936) da infância até a idade de 22 anos. Mesmo funcionando de maneira independente, os livros possuem caráter de obra única. ''Infância'' tem início quando o pai do escritor morre e a mãe desaparece no mundo. Passando a viver com os avós maternos, o garoto atravessa uma infância no seio de uma família pobre que caminha para a desintegração. A figura da avó, que passa a substituir a mãe, ocupa lugar de destaque na narrativa representando uma espécie de síntese da alma do povo russo.
''Ganhando Meu Pão'' descreve as primeiras experiências de Górki com a sobrevivência provinda do suor do próprio rosto. Começa a trabalhar com doze anos de idade atuando como auxiliar das mais variadas atividades até se tornar padeiro. Esse período coincide com a descoberta dos livros, que passam a exercer papel determinante em sua formação.
''Minhas Universidades'' focaliza o período em que Górki tenta cursar uma faculdade e não consegue. Também marca suas perambulações de emprego em emprego e seu envolvimento com questões políticas e práticas revolucionárias.
Górki enfrentou frequentes crises existenciais. Numa delas tentou colocar um ponto final da própria vida disparando um tiro contra o peito. Fato que poderia render páginas e páginas reflexivas nas mãos de qualquer escritor, nas mãos de Górki merece apenas algumas linhas em sua autobiografia: ''Comprei na feira um revólver de tambor, carregado com quatro cartuchos, e dei um tiro no peito, calculando acertar no coração, mas apenas perfurei o pulmão e, depois de um mês, muito constrangido, sentindo-me um completo imbecil, estava de novo trabalhando na padaria''.
O relato desse episódio é uma espécie de síntese da trilogia. Górki não está interessado em derramar tonéis de lágrimas sobre uma sucessão de sofrimento e miséria. Está interessado em apresentar situações e diálogos cotidianos de gente comum. Uma espécie de retrato daquilo que viveu em sua formação humana inicial em seu primeiro contato com o mundo dos homens. Um mundo que, em sua visão social, deveria ser diferente.

Fragmento de ‘‘Infância’’, de Maksim Górki
  O avô atirou-se sobre ela, jogou-a no chão, agarrou-me e levou-me para o banco. Eu me debatia nas mãos dele, puxava a barba ruiva, mordia os seus dedos. O avô berrava, me apertava e, por fim, me atirou no banco, partindo minha cara. Lembro-me do seu grito selvagem:
  - Amarre! Vou matar!
  Lembro-me do rosto branco da mãe e de seus olhos enormes. Ela corria na frente do bando e dava gritos roucos:
  - Papai, não precisa!... Me devolva...
  O avô me açoitou até eu perder os sentidos e fiquei doente vários dias, deitado de bruços numa cama larga e quente, num quarto pequeno, com uma só janela e uma lamparina votiva vermelha, que nunca apagava, num canto, na frente de um quadro com muitos ícones.
  Os dias de enfermidade foram, para mim, os maiores dias da vida. Durante esse tempo, sem dúvida, cresci muito e experimentei algo extraordinário. Desde então, nasceu em mim uma atenção inquieta em relação às pessoas e, como se tivessem esfolado o meu coração, ele se tornou intoleravelmente sensível a qualquer ofensa e dor, própria ou alheia.


Serviço:
- ''Infância'', de Maksim Górki. Editora Cosac Naify, tradução e prefácio de Rubens Figueiredo, 312 páginas, R$ 39,00.
- ''Ganhando Meu Pão'', de Maksim Górki. Editora Cosac Naify, tradução e prefácio de Boris Schnaiderman, 464 páginas, R$ 45,00.
- ''Minhas Universidades'', de Maksim Górki. Editora Cosac Naify, tradução e prefácio de Rubens Figueiredo, 312 páginas, R$ 39,00.
- ''Caixa Górki'', caixa com os três volumes, R$ 99,00.

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