Existem muitas de maneiras de se contar uma história. Talvez centenas ou milhares. Mas duas delas, em destaque, revelam com clareza a competência narrativa de um escritor. Uma delas estaria na ansiedade de se colocar o conteúdo na frente da história narrada. A outra estaria na paciência de se colocar o conteúdo atrás da história.
O escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez aposta na segunda opção em "O Ruído das Coisas ao Cair", seu novo romance lançado pela editora Alfaguara. Para focalizar a experiência de uma geração de colombianos que viveram a infância e a adolescência na violenta década de 1980, aposta acertadamente na paciência de colocar a história na frente do conteúdo. E com um resultado surpreendente.
Considerado um dos grandes expoentes da nova literatura hispano-americana, Juan Gabriel Vásquez nasceu em Bogotá, em 1973. Formando em Direito, viveu por 15 anos na Europa entre Barcelona e Paris. Essa experiência de distanciamento de seu país parece ter conferido à sua literatura uma maneira particular de ler os acontecimentos históricos recentes da América Latina.
"O Ruído das Coisas ao Cair" traz a história de um jovem advogado (Yammara) que costuma jogar sinuca num bar do centro de Bogotá. No lugar conhece um sujeito (Laverde) misterioso e reservado que, segundo dizem, acabou de sair da prisão. Certo dia, os dois estão andando na rua e Laverde é violentamente assassinado numa típica execução criminosa. Ferido pelos disparos, Yammara entra numa profunda depressão. Para sua recuperação abre-se uma porta: desvendar a história de Laverde.
E a história de Laverde é um espelho da história recente da Colômbia, um país que viveu sob o conflito entre dois poderes violentos: o poder de estado (legal) e o poder do narcotráfico (ilegal). Por ter vivido a infância e adolescência nesse período, as lembranças que Yammara tem dessa violência é subjetiva e atrelada a lembranças correlatas, nunca diretas. A maior lembrança, por exemplo, é o desejo, na infância, de visitar o zoológico particular do poderoso narcotraficante Pablo Escobar, algo terrivelmente proibido pela grande maioria dos pais. E a grande façanha se torna justamente ir ao zoológico escondido da família com toda a ingenuidade do mundo.
Piloto de avião, Laverde se casa com uma norte-americana que chega à Colômbia através de um projeto humanitário americano de erradicação da miséria da América Latina. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos consomem cada vez mais cocaína e necessitam que os países latinos forneçam a droga. Para conferir uma vida satisfatória à nova família, Laverde passa a transportar a droga para os Estados Unidos e numa das viagens acaba entrando numa fria.
No jogo apresentado por Juan Gabriel Vásquez entre os gigantes dos poderes em conflito e vida cotidiana de pessoas comuns, reside a beleza do romance. Um jogo devidamente colocado atrás da história narrada. A violência de balas, bombas, atentados e execuções não são o foco narrativo já devidamente ocupado e desgastado pela mídia. O foco está nas consequências dessa violência invisível e silenciosa que destrói relações afetivas, pessoas e famílias.
E "O Ruído das Coisas ao Cair" vai além. Abre a possibilidade de restauração. Apresenta a possibilidade das pessoas reinventarem suas histórias, mesmo que fazendo uso de algum esforço ficcional, para conferir algum sentido aos equívocos gerados tanto pelos poderes constituídos como pelos ilegais. Não há a possibilidade de reação, apena de redenção com a vida perdendo as pessoas e as pessoas se perdendo na vida.
Juan Gabriel Vásquez possui outros dois romances publicados no Brasil, "Os Informantes" (L&PM, 2010) e "História Secreta de Costaguana" (L&PM, 2012). "Os Informantes", primeiro romance de Vásquez, mergulha num tema correlato ao de "O Ruído das Coisas ao Cair". Revela como um ato individual, restrito e particular, pode gerar reações em cadeia capazes de determinar o futuro social de um país. "História Secreta de Costaguana", com a atmosfera das narrativas de Joseph Conrad, narra a trajetória de um sujeito que, fugindo do passado, aporta num desconhecido país caribenho com um fantasma nas costas.

Serviço:
"O Ruído das Coisas ao Cair"
Autor – Juan Gabriel Vásquez
Editora – Alfaguara
Tradução – Ivone C. Benedetti
Páginas – 248
Quanto – R$ 39,90

O primeiro dos hipopótamos, macho da cor das pérolas negras e tonelada e meia de peso, caiu morto em meados de 2009. Fugira dois anos antes do antigo zoológico de Pablo Escobar no cale do Magdalena e, naquele período de liberdade, destruíra plantações, invadira bebedouro de animais, amedrontara os pescadores e chegara a destruir as sementeiras de uma fazenda de gado. Os franco-atiradores que o encontraram dispararam-lhe um tiro na cabeça e outro no coração (com balas de calibre .375, porque a pele do hipopótamo é grossa); posaram com o corpo morto, grande massa escura e rugosa, meteorito recém-caído; e ali, diante das câmeras e dos curiosos, debaixo de uma paineira que os protegia do sol violento, explicaram que o peso do animal não lhes permitiria transportá-lo inteiro e imediatamente começaram a esquartejá-lo. Eu estava em meu apartamento em Bogotá, uns duzentos quilômetros ao sul, quando vi a imagem, pela primeira vez, impressa em meia página de uma revista importante. Soube que o hipopótamo não tinha fugido sozinho: no momento da fuga era acompanhado pela parceira e pela cria – ou aqueles que, na versão sentimental dos jornais menos escrupulosos, eram sua parceira e sua cria -, cujo paradeiro se desconhecia agora e cuja busca tomou de imediato um sabor de tragédia midiática: perseguição de criaturas inocentes por um sistema desalmado. (Fragmento de "O Ruído das Coisas ao Cair" de Juan Gabriel Vásquez)
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