A idéia de que uma pequena cidade pode representar o mundo é recorrente na literatura. Como também é recorrente a idéia de que um único homem é capaz de conter toda a humanidade em seus gestos. Em ambos os casos, a vida é uma imensidão que cabe na palma da mão.
O escritor uruguaio Juan Carlos Onetti (1909 - 1994), no romance ''Junta-Cadáveres'', faz dessa imensidão um jogo perigoso. Um jogo onde as regras são segredos escondidos no lado mais escuro dos pensamentos. Um jogo onde cada personagem tem o papel de entender o significado de uma consciência machucada.
Lançado pela Editora Planeta, ''Junta-Cadáveres'' narra a história de Larsen, homem que acalenta como sonho montar o ''prostíbulo ideal'', o lugar perfeito para decantação da consciência. Larsen é um personagem que aparece em vários romance de Onetti, como ''A Vida Breve''. Mais conhecido pelo apelido de Junta-Cadáveres, o sujeito é um colecionador de prostitutas velhas e desprezadas, uma espécie de pai dedicado para as mulheres gastas pela profissão.
Junta, como é mais conhecido, consegue realizar seu sonho quando é convidado a montar um bordel na pequena cidade de Santa Maria - cidade imaginária situada entre o Uruguai e a Argentina, cenário de várias obras de Onetti. Através de uma negociata escusa, consegue o aval dos políticos do lugar. O principal interessado é um vereador farmacêutico que espera dobrar a venda de medicamento com a instalação do prostíbulo na cidade. Ainda há um ''mensalinho'' devidamente negociado, onde uma porcentagem dos lucros deve cair nas mãos dos políticos.
Com tudo legalizado, o bordel inicia suas atividades com sucesso. Mas os problemas começam a aparecer quando a ala conservadora de Santa Maria decide armar, sob o comando do pároco, um movimento terrorista para fechar a casa e expulsar a putas da cidade. Enfim, matéria prima novelística, jogos de poder, armadilhas da moral e hipocrisias enlameadas.
''Junta-Cadáveres'' seria mais um romance típico do universo da literatura sul-americana se não fosse a forma como Juan Carlos Onetti conduz a estrutura narrativa. A obra é narrada por um garoto de dezesseis anos atormentado pela percepção de que não pertence ao mundo em que vive. Completamente deslocado, aposta na dissidência como modo de sobrevivência.
A narrativa de Onetti estraçalha a noção de tempo. Passado, presente e futuro seguem de maneira simultânea. Essa mescla de tempos, acompanhada pela inserção de vozes distintas, faz do livro um romance com sabor labiríntico sem malabarismos linguísticos. Em alguns momentos a narrativa pode sugerir que não possui direção definida a seguir, mas, no contexto geral, tem uma intenção clara: feridas são para toda a vida, criam raízes na consciência até mesmo do deserto de um povoado.
Juan Carlos Onetti é cultuado em seu país como um o maior expoente da literatura uruguaia do século 20. Sua trajetória é a história de alguém que lutou com unhas e dentes para criar uma literatura. Filho de uma dona de casa brasileira, abandonou a escola antes de terminar o ensino médio. Trabalhou em todo tipo de atividade até descobrir seu gosto pela escrita. De maneira autodidata, atuou como jornalista no Uruguai e na Argentina durante décadas. Com a instauração do regime militar em seu país, fixou residência na Espanha, onde permaneceu até morrer, em 1994. Seus últimos anos de vida foram restritos a uma cama de hospital.

Serviço:
- ''Junta-Cadáveres'' de Juan Carlos Onetti, Editora Planeta, tradução de Luis Reys Gil, prefácio de Francisco J. C. Dantas, 320 páginas, R$ 39,90.

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