Amizade. Irmandade. Há algo nessas duas palavras que envolve uma capacidade peculiar. A capacidade de se perdoar a paixão do próximo. Mesmo cega, a paixão merece perdão independente de suas consequências. Condenar uma paixão, seja na amizade, ou na irmandade, seria o mesmo que condenar uma criança por sorrir.
Em ''A Mansão do Rio'', o escritor norte-americano Pat Conroy percorre essa peculiar capacidade dos laços de amizade que não aceitam condenações. A amizade estaria, ao lado da irmandade, num lugar superior, acima dos instintos primários do homem contemporâneo.
Lançado pela editora Record, ''A Mansão do Rio'' traz a história de Leo, um garoto que já na infância percebe que o mundo estava contra ele, batendo pesado, em chutes e bordoadas. Nascido numa família católica carinhosa e protetora, certo dia, inesperadamente, o muro bate contra a sua cara.
Aos 8 anos de idade, ao chegar em casa, encontra o irmão mais velho, seu herói máximo, morto na banheira com os pulsos cortados. O garoto pira. Começa uma maratona por internações em hospitais psiquiátricos, medicações e terapias. Quando finalmente consegue se estabilizar, com 16 anos, é flagrado pela polícia com uma pacoteira de cocaína. Condenado a prestar uma série de serviços comunitários, passa a ser vigiado de perto por tudo e todos.
Nesse processo, Leo cruza por acaso com uma série de jovens enroscados nos mais variados problemas, dramas e dores. Unidos pelo destino, o grupo desenvolverá uma relação de amizade e irmandade inventada por eles próprios. Numa espécie de aprendizado afetivo, a vida de cada um será contaminada por esse encontro.
Pat Conroy desenha um grupo de amigos o mais heterogêneo possível. Chega próximo de um exagero colossal. No grupo há cristãos e ateus, brancos e negros, santas e safadas, gays e heteros, racistas e libertários, reacionários e liberais, feios e bonitos, ricos e pobres, fracos e fortes, etc. ''A Mansão do Rio'' é a história da amizade desenvolvida nesse grupo através da visão de Leo, o ponto aglutinador. Do final da década de 60 até o início da década de 90, como um retrato da primeira geração que conheceu a diversidade e a aceitou com certa naturalidade.
O autor coloca, num mesmo grupo de amizade, as pessoas mais diferentes possíveis. Todas as contradições e preconceitos lado a lado. Paixões e desesperos. O que parecia ser fadado a se tornar um barril de pólvora de pavio aceso se revela uma experiência ímpar de harmonia. Como cada um traz uma experiência particular de sofrimento, onde o ataque é uma maneira de sobrevivência, só a aceitação da diversidade torna a convivência viável. E são justamente os jovens que resolvem os problemas que os adultos não conseguiram resolver e nem estavam interessados nisso.
Pat Conroy passa a um milímetro da possibilidade de transformar ''A Mansão do Rio'' numa história de superação piegas. Mas teve o bom senso de conduzir uma parte dos personagens para a salvação de seus próprios destinos e outra para a condenação fatal. Uma condenação que faz com que o perdão da paixão do próximo seja insuficiente para a vida. Seria necessário também o perdão da própria paixão.
Pat Conroy possui outros dois romances publicados no Brasil, ''O Príncipe das Marés'' (transformado em filme em 1991), e ''A Última Tempestade'', ambos publicados pela Record. Nascido em 1945, é especialista em arrumar confusões com seus livros. Ao publicar um romance sobre o passado militar de sua família, foi execrado pelo pai publicamente numa campanha pública de difamação. Ao lançar uma novela sobre sua infância e adolescência escolar, foi linchado moralmente por todos antigos colegas de classe.

Serviço:
- A Mansão do Rio
Autor - Pat Conroy
Editora - Record
Tradução - José Roberto O'Shea
Páginas - 588
Quanto - R$ 62,90

Fragmento:
Nada aconteceu por acaso. Aprendi isso com o sofrimento, muito antes de saber que ele era única trilha que levava à sabedoria acertada. Adquiri muito cedo um certo temor pela força das estranhas coincidências. Embora achasse que sempre escolhesse o caminho mais seguro, sentia-me incapaz de evitar as pequenas traições perpetradas pelo destino. Sendo um menino retraído, cresci com medo e com a sensação íntima de que o mundo estava contra mim.
Em l6 junho de 1969, ocorreu uma série de eventos sem qualquer relação em si: descobri que minha mãe tinha sido freira da Ordem do Sagrado Coração; um caminhão de mudança estacionou diante da casa situada do outro lado da rua, em frente à nossa; dois órfãos chegaram ao portão do orfanato São Judas; e o jornal noticiou uma apreensão de drogas na residência dos Bennet. Eu tinha 18 anos e a reputação de ser um tanto lerdo, de maneira que não percebi o abalo em meu destino no momento em que minha história começou a se mover por conta própria.

(Fragmento de ''A Mansão do Rio'' de Pat Conroy)

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