LEITURA - Com os olhos voltados para o céu
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de março de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Ao longo da história da humanidade a literatura foi uma das linguagens mais utilizada para jornadas espirituais coletivas. Os textos sagrados tornaram-se a base de grande parte das religiões, tanto ocidentais como orientais.
A literatura também foi utilizada em jornadas íntimas e pessoais na tentativa solitária do homem entrar em contado com o divino. Pelas suas características tornou-se a linguagem mais acessível de se comunicar com Deus. Através a oração, a jornada espiritual encontrou caminho seguro nas situações mais adversas.
Muitos escritores, percorrendo esse caminho, fizeram da oração obras literárias. Entre eles está o indiano Rabindranath Tagore (1861 - 1941). Agraciado com o Nobel de Literatura em 1913, escreveu vários livros onde procurava conversar com Deus através de poemas-orações. Utilizando um estilo entre a prosa e a poesia, expressava sua devoção e reflexões.
A Editora Ediouro acaba de publicar uma antologia que reúne dezenas desses poemas místicos selecionados pelo reverendo norte-americano Herbert F. Vetter. Intitulada ''O Coração de Deus'', a obra é uma ode à devoção, seja na tristeza ou na alegria, direcionada a uma entidade divina incomensurável.
A disposição das palavras de Tagore se iguala ao empenho dos fiéis que se ajoelham diante da divindade e se entregam a ela de maneira ampla e irrestrita. Na jornada de reconhecer o divino em cada gesto humano, em cada sentimento, em cada elementos da natureza, utiliza a palavra para superar dores, dúvidas e impasses.
Em alguns momentos, os poemas-orações de ''O Coração de Deus'' parecem redundantes e simplistas, como se o autor deixasse a literatura num segundo plano simplesmente para afirmar e sedimentar sua fé. Em outros momentos demonstram sua intenção em investigar a própria relação com o divino e extrair novos sentidos para dimensão da relação entre os homens e Deus.
Uma das características dos poemas está em deixar completamente em aberto o aspecto religião para acentuar a fé e a espiritualidade. O hinduísmo princípio religioso de Tagore deixa de ser o foco dos versos. O conteúdo de suas palavras remetem à relação entre homem e Deus num amplo leque de devotos de distintas religiões.
Tagore nasceu em Calcutá, em 1861, filho de um rico proprietário de terras. Recebeu uma educação privilegiada, chegando a realizar parte de seus estudos Inglaterra onde entrou em contato com a literatura européia. Com talentos para a música, pintura e literatura criou uma vasta obra envolvendo romances, contos, poesia, ensaios e dramaturgia. Foi militante ativo, ao lado de Ghandi, na libertação da Índia do colonialismo inglês. No final da vida, assumiu o papel de educador fundando uma escola experimental voltada a crianças carentes.
Rabingranth Tagore foi popular no Brasil durante as décadas de 40 e 50, quando vários de seus livros foram traduzidos para o português alguns deles pelo poeta Guilherme de Almeida. Entre eles se destaca ''O Gitanja'li'' (Editora José Olympio, 1950) onde o gênero prosa-poética deixa de se voltar apenas ao divino para se direcionar para a vida num sentido mais amplo, trafegando entre as forças humanas, naturais e divinas. Uma obra simples e cativante, onde os sentimentos são tratados como parte tanto do coração como da mente e do campo sensorial.
Outra obra de Tagore que merece destaque é ''O Casamento'' (Editora Nova Fronteira, 1992). Os contos reunidos nesse livro narram histórias que focalizam dois temas básicos: inferioridade da mulher e a intolerância religiosa. Dois fatores que o incomodavam na tradicional cultura indiana.
Serviço:
- O Coração de Deus, poemas místicos de Rabindranath Tagora, Editora Ediouro, seleção e prefácio de Herbert F. Vetter, tradução de Alberto Pucheu, 100 páginas, R$ 19,00.


