LEITURA - Com os olhos cheios de vazio
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de novembro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O isolamento de um homem não ocorre apenas quando seu corpo está territorialmente sozinho. Tudo indica que o isolamento, em seu campo mais amplo, ocorra quando um homem se atira na solidão como um nadador se joga nas águas de um lago profundo.
Mesmo vivendo numa conturbada cidade, trombando com outras pessoas a toda hora e a qualquer momento, esse homem é capaz de levar tal isolamento às últimas consequências. Fazer desse isolamento um procedimento existencial, onde tudo aquilo que está à sua volta torna-se desprovido de sentido, de interesse. Como se o mundo tivesse uma única cor, pálida e opaca.
Nesse restrito espaço do isolamento, germina uma floresta de sentidos de cores variadas. E é justamente nesse lugar que solidão converte-se em imensidão particular. Um espaço onde a morte não se acanha em apresentar-se em suas formas mais delicadas.
Praticamente desconhecido dos leitores, o escritor baiano Mayrant Gallo desenvolveu uma literatura com os pés fincados nesse espaço. O lugar onde a mente cria mistérios que a coletividade não se atreve elucidar. Seu primeiro livro publicado por uma grande editora, ''O Inédito de Kafka'', lançado essa semana pela Cosac & Naify Edições, revela uma obra surpreendente. Contos construídos com narrativas bem elaboradas dentro de uma temática intrincada e recheada se surpresas.
Nascido em Salvador em 1962, Mayrant Gallo morou durante vinte anos na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente é professor de Teoria Literária na Universidade Estadual de Feira de Santana (Bahia), onde reside. Publicou dois únicos livros, de maneira independente, ''Pés Quentes nas Noites Frias'' (contos, 1999) e ''Dia Sim e Sempre'' (poesia, 2000).
''O Inédito de Kafka'' reúne 15 contos que percorrem dois procedimentos literários básicos. De um lado estão as narrativas que retratam a realidade imediata, aquele que se esfrega na cara da vida e deixa suas marcas. Nelas, Gallo faz uso de uma linguagem direta, descritiva e sucinta, próxima da oralidade. De outro lado estão as narrativas mais densas, onde a trajetória dos pensamentos, bem como a interioridade das ações, percorrem campos pouco sondados. Nelas, a linguagem é mais complexa, acompanhando os labirintos mentais e psíquicos percorridos pelas personagens, sempre em busca de algo que nunca é explicitamente definido.
No primeiro procedimento, o conto ''Gravidade'' é exemplar. Narra a história de um garoto que é obrigado a acompanhar a mãe ao dentista. Aproveitando a situação, o garoto exige um refrigerante em troca, um refrigerante que esconde prêmios em suas tampinhas. Nesse processo, ele experimenta pela primeira vez a sensação de ganhar um prêmio, e logo em seguida, a sensação de perdê-lo. Isso enquanto, paralelamente, sua mãe perde os dentes para ganhar uma dentadura.
Em outros contos, esse primeiro procedimento se desenvolve de maneira mais sutil, chegando a incorporar o segundo procedimento. Esse é o caso de contos como ''Água Escoando'', ''Varre Rua'' e ''Jornada de um Menino''. Neles, ao narrar a experiência vivida pelo personagem principal, o autor insere na narrativa a história de outros personagens. Como se a teia a ser composta exigisse um leque maior de linhas cruzadas. Esse recurso é utilizado para revelar, ou talvez evidenciar, a solidão incrustada nas vísceras das personagens.
Grande parte dos personagens dos contos de Mayrant Gallo estão envoltos pelo manto da solidão. Isolados do mundo em que vivem, possuem um modo específico de olharem a realidade. Trazem em volta de si uma carcaça formada pelo tempo. Mesmo que elementos fantásticos entrem em jogo, como uma espécie de aparente salvação, a morte nunca trará a impunidade. Os leitores que apreciam o gênero conto, encontrarão em ''O Inédito de Kafka'' uma experiência instigante.
Serviço:
- ''O Inédito de Kafka'' de Mayrant Gallo, Cosac & Naify Edições, 200 páginas, R$ 29,00.


