LEITURA - Com a rotação da Terra nas veias
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de agosto de 2010
Marcos Losnak<br>Especial 
Quando se imaginava que nada de muito interessante poderia aparecer nas livrarias em pleno inverno, o escritor irlandês Colum McCann aparece com um casaco de lã e uma xícara de chocolate quente. Sem fechar portas e janelas, deixa para trás as frias correntes de ar com uma narrativa surpreendente em ''Deixe o Grande Mundo Girar'', romance que acaba de ser lançado pela editora Record.
Em ''Deixe o Grande Mundo Girar'', Colum McCann faz uso de uma estrutura narrativa inovadora, extremamente contemporânea e, ao mesmo tempo, atua como um tradicional contador de histórias. Essas duas qualidades, lado a lado, fazem do romance o retrato do mundo urbano, em especial Nova York da década de 70, a partir de pequenos e reveladores momentos vividos por pessoas comuns.
Colum McCann está realizando sua primeira visita ao Brasil e participa hoje, ao lado do escritor norte-americano William Kennedy, de um dos debates da Flip - Festa Literária de Paraty, evento literário que se encerra amanhã na cidade de Paraty, litoral do Rio de Janeiro.
O romance não narra uma história propriamente dita. Apresenta histórias de vários personagens independentes que, em algum momento, ou em alguma situação, se conectam. A ponte subjetiva de ligação entre eles é um episódio real ocorrido na cidade de Nova York no dia 7 de agosto de 1974.
Nesse dia, o equilibrista francês Philippe Petit realizou uma loucura nunca vista. Desafiando a morte, atravessou o vão entre as duas torres recém-inauguradas do World Trade Center numa corda bamba. Ele havia estendido, secretamente, um cabo de aço no topo das duas torres gêmeas a 400 metros de altura. Tudo sem nenhuma espécie de proteção. Tudo sem nenhum objetivo específico. Nesse dia, a cidade parou por 45 minutos olhando para cima sem entender o que estava acontecendo.
Esse episódio é igualmente tema do filme ''O Equilibrista'', que ganhou o Oscar de 2008 na categoria de documentário. Nas mãos de McCann a loucura do equilibrista entra na ficção como uma alegoria da liberdade, algo que atua como contraponto ao processo dos personagens ficcionais que compõem o romance.
Existe a história de dois jovens irmãos irlandeses que, após a morte da mãe, se mudam para Nova York. Um deles se torna um grande empresário, o outro um padre que abre mão de tudo e de si mesmo para cuidar de prostitutas marginalizadas e velhos abandonados. Existe a história de um grupo de mães que se unem para superar a perda de seus filhos na guerra do Vietnã. Há também a história de mãe e filha, ambas prostitutas, na batalha em criar seus filhos e netos. Enfim, a lista é vasta. Uma coleção de dramas e problemas em busca de solução.
A estrutura narrativa de ''Deixe o Grande Mundo Girar'' não é nenhuma novidade propriamente dita. Raymond Carver já trabalhava nessa direção na década de 70. Nos últimos anos, o roteirista Guillermo Arriaga levou essa mesma estrutura para o cinema.
Colum McCann coloca nas páginas do romance uma galeria de personagens desolados mas que carregam algum tipo de esperança nos olhos. Desenha um mapa das vidas paralelas que correm pelas cidades de maneira discreta e que quase vê ou está interessado. Também desenha os pontos de intersecção que essas vidas conhecem em momentos específicos, pequenos momento que se revelam surpreendentes na íris da existência de cada um.
Numa leitura mais abrangente, a estrutura narrativa utilizada por McCann demonstra que a parte reveladora da vida das pessoas está justamente nesses pontos de intersecção. Um momento em que duas ou mais percepções se cruzam e, como consequência, alguma coisa é alterada em ambos os lados. Coisas pequenas e discretas, mas que fazem com que o mundo seja repensado. Algo como toda e qualquer pessoa trazer, correndo nas veias, a rotação da Terra. Um tipo de movimento que alguns percebem, outros não. E mesmo assim está lá, nos dias quentes, nos dias frios, sob as sombras, sob a luz.
Serviço
''Deixe o Grande Mundo Girar''
Autor - Colum McCann
Editora - Record
Tradução - Maria José Rios Peixoto
Quanto - R$ 52,90 (378 págs.)
Alguns pensavam a princípio que devia ser um truque de luz, algo a ver com o clima, algum jogo de sombras. Outros imaginaram que talvez fosse a pegadinha urbana perfeita. Porém, quanto mais olhavam, mas certeza tinham. Ele estava de pé exatamente na beirada do edifício, sua forma escura contra a manhã cinzenta. Talvez um lavador de janelas. Ou um operário da construção. Ou alguém que iria se jogar.
Lá em cima, a 110 andares de altura, absolutamente parado, um boneco escuro contra o céu nublado. Ao redor dos observadores, a cidade ainda fazia seus barulhos cotidianos. Buzinas de carro. Caminhões de lixo. O zumbido do metrô. Uma embalagem de chocolate jogada fora bateu em um hidrante.
O homem lá no alto permanecia rígido, e, no entanto, seu mistério era móvel.
(Fragmento de ''Deixe o Grande Mundo Girar'' de Colum McCann)


