Atualmente seria considerado um texto constrangedor diante das campanhas e leis anti-fumo. Mas como foi escrito no início da década de 80, possui o álibi de um passado impulsionado pela liberdade. O próprio título, ''Só Para Fumantes'', oferece a chave que dá acesso aos cômodos esfumaçados que percorre.
De autoria do escritor peruano Julio Ramón Ribeyro (1929 - 1994), ''Só Para Fumantes'' é o relato autobiográfico de um inveterado usuário de tabaco. Nasceu da percepção de que o fumo não aparecia de maneira incisiva na literatura mundial, embora a maioria dos escritores fizesse parte da enorme legião dos fumantes. Tornou-se um dos raros textos que abordam o tema com a lucidez, desprendimento e ironia.
Julio Ramón Ribeyro começou a fumar com quinze anos, numa família de fumantes desenfreados. Ao longo dos anos o ato de fumar passou a fazer parte determinante de seu cotidiano. Seu relato, pautado pela extrema sinceridade, oferece a visão de um fumante percorrendo a tentativa de entender o próprio ato de fumar.
Devido ao cigarro, Ribeyro teve vários problemas de saúde, complicações que quase o arrastaram para a morte. Parar de fumar, segundo os médicos, era uma questão crucial. Mesmo assim, jamais abandonou o cigarro. Apesar de viver o conflito entre a lógica da vida e a lógica do fumo, optou por uma visão subjetiva carregada de simbolismo. Com o cigarro aceso, transformou peripécias hospitalares em lições entre o elemento estéreo da fumaça e a certeza do pó das cinzas com boas baforadas de ironia.
Além de título do relato, ''Só Para Fumantes'' também é o nome do primeiro livro de Julio Ramón Ribeyro publicado do Brasil. Lançado pela editora Cosac Naify, é uma boa oportunidade dos leitores brasileiros entrarem em contado com sua literatura. O livro reúne 13 contos daquele que é considerado um dos grandes contistas da literatura latino-americana do século 20. Organizada por Laura Janina Hosiasson, a antologia reúne textos de várias fases do escritor.
A fase mais conhecida de Ribeyro é aquela que retrata o processo de migração das populações peruanas das regiões rurais para as grandes cidades. Um processo que ocorreu em toda a América Latina a partir da década de 50. ''Urubus Sem Penas'' é o conto mais representativo dessa fase, texto que integra diversas antologias latino-americanas.
''Urubus Sem Penas'' narra a trágica história de Sr. Santos e seus dois netos em meio aos perversos dilemas da miséria. Os três residem num pequeno barraco, na periferia da cidade, onde o avô cria porcos para sobreviver. Aos garotos está reservada a tarefa de vagar pela cidade revirando o lixo, procurando comida para os animais.
Nesse cotidiano, para o avô, a alimentação dos porcos está acima de qualquer coisa. Eles precisam ganhar peso para serem vendidos. Os garotos, por outro lado, não necessitam de comida mais do que os animais, precisa apenas conseguir alimento para os bichos. Apesar dos laços de respeito familiar, nasce uma guerra subliminar entre o velho e os garotos. Essa batalha confere ao conto um caráter universal com um final revelador, pontuado por vozes e grunhidos.
Julio Ramón Ribeyro nasceu na cidade de Lima, em 1929. Formado em Direito, publicou seu primeiro livro em 1955, época em que surgia uma nova geração de escritores peruanos como Mario Vargas Llosa, Enrique Congrains Martín, José Maria Arguedas e Sebastián Salazar Bondy. A exemplo de outros autores latino-americanos se transferiu para a Europa, onde percorreu vários países. Atuou como jornalista da agência de notícias France Press durante anos, até assumir o posto de adido cultural peruano na Unesco. Em 1994 foi agraciado com o prêmio Juan Rulfo, pelo conjunto de sua obra. Ironicamente, morreu poucos dias depois, deixando inacabada sua última obra, ''A Tentação do Fracasso''.

Fragmento de ‘Só Para Fumantes’, de Julio Ramón Ribeyro
  ‘‘Que tipo de recompensa eu obtinha do cigarro para ter sucumbido a seu império e me transformado num cervo curvado a seus caprichos? Tratava-se sem dúvida de um vício, se entendermos por vício uma ato repetitivo, progressivo e perniciosos que nos causa prazer. Mas, examinando o assunto mais de perto, eu percebia que o prazer estava excluído do fumo. Refiro-me a um prazer sensorial, ligado a um sentido em particular, como o prazer da gula ou da luxúria. Talvez nos meus primeiros anos de fumante eu tenha sentido um agradável sabor ou aroma no tabaco, mas com o tempo essa sensação tinha minguado, e eu podia até dizer que fumar era para mim desagradável, pois me deixava a boca amarga, a garganta ardendo e o estômago ácido. Se havia prazer, pensei, devia ser mental, como o que a gente obtém do álcool ou de drogas como o ópio, a cocaína ou a morfina. Mas tampouco era o caso, já que fumar não me produzia euforia, nem lucidez, nem estados de êxtase, nem visões sobrenaturais, nem suprimia a dor ou a fadiga. O que o tabaco me dava então, à falta de prazeres sensoriais ou espirituais? Talvez prazeres mais difusos e sutis, difíceis de localizar, de definir e de mensurar, ligados aos efeitos da nicotina no organismo: serenidade, concentração, sociabilidade, adaptação ao nosso meio.’’
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Serviço:
- Só Para Fumantes
Autor - Julio Ramón Ribeyro
Editora - Cosac Naify
Seleção, tradução e posfácio - Laura Janina Hosiasson
Prefácio - Alfredo Bryce Echenique
Páginas - 304
Quanto - R$ 45

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