LEITURA - Cicatrizes do futuro
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 06 de outubro de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Parece haver algum momento da existência em que os acontecimentos são capazes de deixar marcas e cicatrizes que só serão visíveis décadas mais tarde. O período da infância (e da adolescência) parece ser o território mais fértil para isso. Um período onde as consequências são sempre adiadas.
Em seu novo romance, "A Mesa da Ralé", o escritor canadense Michael Ondaatje aponta uma lupa para esses acontecimentos grávidos de marcas e cicatrizes do futuro. As revelações não estão atreladas ao clássico argumento do sofrer, mas a um amplo leque de emoções que dão alma aos ossos, músculos e nervos.
Michael, personagem principal da obra, é um garoto de onze anos que deixa o Sri Lanka (antigo Ceilão) para estudar na Inglaterra. Em 1954, ele embarca sozinho num navio para uma viagem de 21 dias.
No navio encontra outros dois garotos, Cassius e Ramadhin, que, como ele, vivem a experiência de estarem pela primeira vez sozinhos, sem a supervisão de nenhum adulto. Os três se encontram no pior lugar do restaurante do navio, uma mesa num canto sem prestígio, distante das mesas dos passageiros importantes, distante da mesa do capitão. Ao lado dos meninos se sentam um leque de figuras adultas sem importância que igualmente viajam de classe econômica.
Os três garotos, sem nenhum adulto para impor ordens ou regras, formam um bando pautado pela total liberdade. Exploram todos os lugares do navio, permitidos e proibidos. Experimentam emoções e sensações inovadoras, improváveis e perigosas.
Na mesa de refeições, nomeada de mesa da ralé, os garotos começam a conviver com figuras diferenciadas. Adultos que tratam crianças de igual para igual. Escancaram naturalmente o mundo dos adultos aos olhos sedentos dos meninos. Uma espécie de irmandade se cria entre os componentes da mesa.
"A Mesa da Ralé" é narrado pelo próprio personagem Michael décadas depois da viagem. Os acontecimentos, experiências, sensações e sentimentos vividos nos 21 dias de viagem deixarão marcas e cicatrizes em todos os envolvidos, em especial nos garotos. Ao aportarem no destino, a infância ficará para trás, devidamente extinta.
A ideia apresentada pelo narrador é de que uma criança torna-se adulta apenas convivendo com adultos: "Estamos aprendendo sobre os adultos simplesmente por estar ao lado deles". Só o contato com o mundo real e complexo dos adultos é capaz de dar a um menino as ferramentas para trocar de mundo. Ou ser expulso da infância, ou ser abarcado pelo mundo adulto sem muita lógica.
A proposta narrativa de Michael Ondaatje está em apontar que as coisas mais interessantes da natureza humana não acontecem na mesa dos importantes, famosos e capitães. As experiências que carregam a grande compreensão do mundo humano estão nas mesas periféricas. A mesa do capitão do navio se revela como falácia: "O que é interessante e relevante acontece em geral em segredo, em lugares onde não há gente poderosa. Nada de valor duradouro ocorre na mesa principal, sustentada por uma retórica que todos conhecem bem. Os que já detêm poder continuam a deslizar ao longo das linhas que previamente traçaram para si." É isso que os três garotos percebem da maneira mais simbólica possível.
Nascido em 1942 na cidade de Colombo, Sri Lanka, Michael Ondaajte ainda na infância foi para a Europa com a família e depois para o Canadá. Naturalizado cidadão canadense em 1962, tornou-se escritor conhecido após a publicação do romance "Paciente Inglês", transformado em filme por Anthony Minghella em 1996. Possui seis romances publicados do Brasil, três deles merecem destaque: "Bandeiras Pálidas" (Companhia das Letras, 2000), "Na Pele de um Leão" (Editora 34, 1998) e "Divisadero" (Companhia das Letras, 2008).
"A Mesa da Ralé" pode ser considerado um romance síntese da literatura desenvolvida por Ondaatje. Não só pelo encontro de personagens individualmente definidos de várias culturas, mas também pelo desenvolvimento da estrutura narrativa. A obra se inicia como narrativa simples e superficial e, ao longo das páginas, ganha complexidade e vastidão. Acima de tudo, lentamente caminha na direção de uma profundidade simples e admirável. O grande jogo está em partir da superfície para revelar a profundidade sem grandes sustos. Faz lembrar que a profundidade não está nas coisas, mas naquilo que alguém é capaz de ver nas coisas.
Serviço:
"A Mesa da Ralé"
Autor Michael Ondaatje
Editora Companhia das Letras
Tradução Jorio Dauster
Páginas 288
Quanto R$ 43 e R$ 30 (e-book)


