LEITURA - Chuva de corpos em cama árida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de dezembro de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Um garoto com as unhas cravadas na terra. Cavando pedra e pó em busca de ossos, fósseis e restos de vida calcificada pelo tempo. Carcaças de bicho. Resquícios de gente.
Um garoto polindo ossos para construir uma armadura. Costurando restos de bicho e restos de gente para se vestir contra o inimigo. Esperando a guerra protegido dentro de uma armadura de ossos alheios. Um guerreiro inventando suas próprias armas para batalhas que ainda não têm nome.
Um garoto que, após juntar os ossos, abandona o teatro da infância para encobrir graças e desgraças.
Esse garoto é a alma oculta de "Nossos Ossos", novo livro do pernambucano Marcelino Freire que acaba de ser lançado pela editora Record. Após cinco volumes de contos, o escritor publica seu primeiro romance com as mesmas características básicas de suas narrativas curtas agraciadas com o Prêmio Jabuti de 2006.
"Nossos Ossos" narra a história de Heleno, um dramaturgo de 60 anos que, a partir de dois fatos marcantes, executa a tarefa de unir passado e presente numa espécie de acerto de contas com sua própria existência. O primeiro fato, o assassinato do jovem michê pelo qual é apaixonado. O segundo, o diagnóstico de HIV positivo.
Heleno é o típico artista nascido numa família de poucos recursos do interior do Brasil. Vivendo numa pequena cidade do interior de Pernambuco, segue para a capital Recife para se dedicar ao teatro. Ao fundar um grupo alternativo, se apaixona por Carlos, um dos atores da companhia. Juntos, sonham alçar voos maiores na cidade de São Paulo.
Carlos segue primeiro. Heleno segue depois, mas quando pisa em São Paulo, o amado já está nos braços de outro. Então Heleno segue sozinho, construindo sua vida e sua dramaturgia e, ao longo das décadas, torna-se um respeitado e premiado homem de teatro.
Para reparar a dor da perda amorosa, Heleno passa a se relacionar apenas com michês. O prazer físico é levado ao extremo, mas desprovido de intimidade sentimental. Isso até se apaixonar por Cícero, um garoto de programa que vem igualmente do interior de Pernambuco para tentar a vida em São Paulo.
A missão aceita por Heleno é levar o corpo de Cícero até sua cidade natal e entregá-lo aos seus familiares. Na viagem, a bordo de um carro funerário que cruza o país, Heleno realiza seu acerto de contas sentimental com suas origens e escolhas.
"Nossos Ossos" aborda a morte entre dois pólos, a morte de um velho que está próximo de concluir sua existência e a morte de um jovem que está iniciando sua existência. Há a bicha velha se relacionando amorosamente apenas com jovens michês, moleques dispostos a tudo mediante pagamento. Há também a bicha velha realizando uma reflexão elaborada de sua existência a ponto de fundir, num único corpo, o amor primordial com o amor circunstancial. Essa é a alma da narrativa: um garoto cavando a terra em busca de ossos e um velho sepultando os ossos de um garoto que não conheceu a velhice.
Autor de "Angu de Sangue" (Ateliê, 2000), "Balé Ralé (Ateliê, 2003) "Navio Negreiro" (Record, 2005), "Rasif" (Record, 2008) e "Amar é Crime" (Edith, 2012), Marcelino Freire sempre trabalhou a temática homoerótica em suas obras. Em "Nossos Ossos" isso fica mais escancarado e acompanhado de elementos autobiográficos.
O humor mordaz, elemento presente na literatura de Marcelino Freire, dá lugar a algumas docilidades. Mesmo entre ossos, fósseis, farpas e vinganças. A percepção de que toda a chuva de corpos ocorre sobre uma cama seca. A constatação de que após tanto travesseiro árido, o destino torna-se uma fatalidade, uma úmida missão diante do nada.
Serviço:
"Nossos Ossos"
Autor Marcelino Freire
Editora Record
Páginas 128
Quanto R$ 28


