LEITURA - Chiclete de gato para camundongos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Um dos livros queridinhos dos franceses. Sem muita explicação, ocupou lugar de destaque na estante de várias gerações de jovens franceses. Maluco. Futurista. Pirado. Triste. Pra cima. Surrealista. Apaixonado. Crítico. Irônico. Delirante. Comporta uma vasta gama de definições e impressões.
"A Espuma dos Dias" foi o romance que mais sobreviveu no meio do caos literário do escritor francês Boris Vian (1920 1959). Transformado em filme recentemente por Michel Gondry, a obra acaba de ganhar a primeira edição brasileira lançada pela editora Cosac Naify.
"A Espuma dos Dias" é uma história maluca com uma narrativa delirante. Geralmente chamado de romance surrealista, o romance possui fortes alicerces na razão, principalmente no contexto histórico e cultural no qual foi concebido. Escrito em 1946 (logo após o fim da Segunda Guerra Mundial), não ganhou nenhuma atenção quando publicado. Uma década depois, devidamente resgatado por jovens leitores, se transformou em ícone cult.
Em síntese, a obra é um romance sobre o amor e a morte. Inicialmente devidamente separados, depois soldados um a outro. Envolvendo tudo surgem várias camadas, alguma interessantes, outras tediosas. Em alguns casos, camadas carregadas de significado, em outras, nonsense puro e simples.
"A Espuma dos Dias" narra a trajetória de uma grupo de jovens amigos tentando aproveitar a vida. Em destaque está Colin, um verdadeiro dândi que vaga pelo mundo experimentando os prazeres da vida. Nunca pegou do pesado. Possui um cofre repleto de dinheiro e passa os dias ouvindo jazz, comendo, bebendo, zanzando, curtindo.
Mesmo interessado em determinada moça, se apaixona por outra, a sensual Chloé. Logo após se casarem, Chloé adquire uma doença inusitada: uma planta começa a crescer em seu pulmão direito. Se por acaso a planta der flor, seus dias estão contados. O tratamento médico consiste em respirar aroma de outras flores durante todo o tempo. Uma espécie de homeopatia de pétalas.
Colin, com o coração apertado, gasta toda sua fortuna em tratamentos médicos malucos e milionários. Em pouco tempo, está falido e precisa procurar emprego pela primeira vez na vida. Na labuta consegue apenas empregos completamente kafkianos.
O mais simbólico deles consiste em trabalhar como adubo numa fábrica de fuzis. Sua função consiste em colocar sementes de armas numa cova e depois deitar nu sobre a terra para que o calor do corpo faça florescer os fuzis. As sementes são capazes de germinar apenas com calor humano.
Na narrativa delirante de Boris Vian há coisas como um camundongo íntimo de todos personagens e que acompanha toda a história. Um cozinheiro que faz as combinações mais malucas na cozinha. Uma arma que extrai o coração da vítima em vez de perfurá-lo com balas ou lâminas. Ou seja, fantasias completamente livre de amarras.
Há também um personagem viciado em livros, Chick, o melhor amigo de Colin. Fã inveterado de um escritor chamado Jean-Sol Partre (numa descarada ironia com Jean-Paul Sartre), o jovem precisa comprar todas as possíveis edições de seus livros. Com o tempo, Chick torna-se um viciado em qualquer coisa que se refere ao ídolo: um autógrafo, uma ponta de cigarro, uma velha cueca, um fiapo de perdigoto, qualquer coisa.
Os personagens criados por Boris Vian em "A Espuma dos Dias" podem ser chamados de figuras. São jovens apostando na vida leve e solta. Inocente, são incapazes de provocar o mal a quem quer que seja. Mesmo assim, a realidade surge como contraponto à inocência, como outro tipo de loucura.
Boris Vian nasceu em 1920, na infância foi acometido por duas febres, a reumática e a tifoide. Mesmo com sequelas no coração, levou uma vida das mais agitadas. Formado em engenharia civil, foi trompetista de jazz, dramaturgo, ator, cantor, tradutor e escritor. Escreveu romances, contos, poemas, crônicas e críticas de jazz. Morreu em 1959, aos 39 anos, de ataque cardíaco numa sala de exibição, enquanto assistia à estreia da adaptação cinematográfica de seu primeiro romance.
Serviço:
"A Espuma dos Dias"
Autor Boris Vian
Editora Cosac Naify
Tradução Paulo Werneck
Páginas 256
Quanto R$ 29


