LEITURA - Cérebros sujos de sangue
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de março de 2010
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O bem e o mal, sob sol ou chuva, habitam o mesmo território. Estão dentro do próprio homem. Existem aquelas pessoas que dominam as forças do mal, que fecham as portas para ele. Existem aquelas pessoas que não possuem tal domínio, aquelas que abrem as portas e concedem um espaço ilimitado ao mal.
Para tornar mais complexo o assunto, ainda existem aquelas pessoas que, mesmo abrindo as portas, não sujam as mãos de sangue. Homens que possuem a capacidade de exercer um tipo de influência e dominação poderosa. Figuras capazes de despertar o mal em outras pessoas. Capazes de subtrair, de outros, a possibilidade de dominar o mal dentro de si, a capacidade de fecharem as portas.
Esse é a temática de ''O Aliciador'', romance de Donato Carrisi, roteirista italiano especializado em criminologia. Lançado pela editora Record, o livro se tornou best-seller na Europa misturando o gênero policial, suspense e o universo dos seriais killers na bacia do entretenimento.
Em ''O Aliciador'' tudo começa quando a polícia encontra seis braços no bosque da cidade. O detalhe é que são seis braços direitos de crianças num momento em que há cinco crianças desaparecidas na região. Para resolver o crime, uma equipe de detetives arregaça as mangas contando com dois profissionais especiais, Goran, um teórico em criminologia, e Mila, uma especialista em sequestro infantil.
Em pouco tempo os investigadores percebem que estão procurando um criminoso pouco comum, um serial killer de inteligência impar, um estrategista exemplar. Um criminoso que está propondo um jogo em que os policiais dificilmente colocarão as mãos nas regras. As tensões e as proporções psíquicas do passado tornam-se um leque de chagas.
A cada dia o assassino desova um corpo das cinco crianças em determinado lugar numa espécie de teatro de pistas desconexas. O único ponto de convergência está no fato de que, em cada um desses lugares, a polícia descobre vários criminosos ocultos. Para cada corpo encontrado, geograficamente descobre-se um pedófilo, um estuprador, um assassino, um serial killer, enfim, todo tipo de gente que não foi capaz de fechar as portas do mal dentro de si e passou a se alimentar do sofrimento alheio.
Nesse caminho, através de fabulosos e fantásticos exames científicos, os detetives descobrem que um dos seis braços encontrados pertence a uma das crianças que ainda permanece viva nas mãos do monstro. Então o jogo se revela. O assassino é um inteligente estrategista que está disposto a ridicularizar a polícia. Que deixa claro que sempre está um passo a frente de qualquer tipo de investigação.
Para colocar mais lenha na fogueira, um dos corpos das crianças assassinadas é encontrado no quartel general dos investigadores. O jogo revela algo mais íntimo: algum detetive envolvido no caso possui alguma conduta anormal e desconhecida. Uma conduta secreta conhecida apenas pelo sanguinário estrategista killer.
''O Aliciador'' pode ser considerado uma compilação de todos os chavões do gênero de uma maneira arquitetada. Donato Carrisi trabalha com um leque de teorias psicológicas sobre os processo mentais dos serial killers, uma cultura difundida mundo afora pelos psiquiatras norte-americanos.
''O Aliciador'' apresenta uma coleção de buracos. Pautada pela ciência criminal, pelo verossímil, consegue ironicamente avançar sobre o inverossímil sem grandes pudores. Por outro lado, aponta que o mal não estaria apenas nos assassinos, mas nas mãos naqueles que procuram controlar os assassinos. Uma abordagem já incorporada à montanha de romances do gênero.
Resumindo o argumento proposto, para combater qualquer monstro assassino é necessário pensar como ele. Mais do que isso, é preciso ter sido vítima ou sujeito da violência em algum histórico psicológico. Ou seja, aquele que possui a capacidade de conter um assassino possui, passado, alguma experiência de violência dentro de si.
Traumas que precisam ser resolvidos de uma maneira silenciosa, contraditória, e até mesmo desconexa. Se algum dia a porta do mal foi aberta, seja como vítima ou como sujeito, em algum outro momento ela precisa ser fechada. Ou escancarada: ''um homem tem pontos fracos e pode ser capturado, um monstro não.''
Em ''O Aliciador'', Carrisi insere um argumento antigo e que ainda permanece polêmico. Os crimes inteligentes, banhados demuito sangue, não se enquadram nas leis jurídicas. As leis parecem estar sempre atrasadas ou inoperantes diante do mal. E esse impasse reside em algo muito simples: o bem é regido algum tipo de ética e o mal é regido por algum tipo de desejo.
Esse tipo de abordagem da natureza humana é que faz do gênero policial, ou das notícias de crimes dos jornais, algo sedutor. Diante de um cadáver todos se transformam em curiosos. A morte violenta e injusta é o tipo de drama dotado de uma de sedução irresistível. O romance de Carrisi investe nesse campo com uma estrutura de referências contemporâneas. Estão presente três narrativas paralelas. Duas são utilizada apenas como pontuação, cartas de um diretor de presídio que desconfia da exatidão matemática de um dos detentos, e o delírio de uma garota sequestrada por um psicopata. Três elementos que se confluem no final do romance. Cada um com suas devidas portas. Abertas, fechadas, ou levemente entreabertas no escuro.
SERVIÇO
■ O Aliciador
Autor - Donato Carrisi
Editora - Record
Tradução - Eliana Aguiar
Quanto - R$ 49,90 (434 págs.)
Parte-se do princípio de que o serial killer não nasceu assim, mas acumulou experiências e estímulos passivamente, numa espécie de incubação da personalidade homicida, que mais tarde deságua em violência.
A ôfantasia" é o primeiro estágio desse processo.
- Antes de ser buscado na realidade, o objeto do desejo é longamente fantasiado - disse Goran. - Sabemos que o mundo interior de um serial killer é um enredo de estímulos e tensões, mas quando essa interioridade não é mais capaz de contê-los, a passagem para a ação é inevitável. A vida interior, da imaginação, acaba suplantando a vida real. É quando o assassino começa a modelar a realidade que o cerca segundo sua própria fantasia. (...) É verdade que a aspiração última de um serial killer é ser preso. Mas não é porque é incapaz de se controlar, e sim porque com a captura, ele finalmente consegue vir à luz. Sobretudo quando tem uma personalidade narcisista: quer ser reconhecido pela grandeza de sua obra. E enquanto sua identidade for um mistério, não pode obter o que deseja.
(Fragmento de O Aliciador de Donato Carrisi)


