O centenário do escritor belga-argentino Julio Cortázar (1914-1984), comemorado hoje, é um dos destaques da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, cuja programação inclui lançamentos de algumas de suas obras, entre elas uma reedição de "Bestiário", título publicado originalmente em 1951 e considerado um dos mais importantes do autor.
Cortázar despontou nos anos 60 durante o boom do realismo mágico e da literatura hispano-americana, quando o mundo descobriu a riqueza narrativa de autores como Gabriel Garcia Marquez, Mario Vargas Llosa, Juan Rulfo, Carlos Fuentes e Ernesto Sábato. Época de polarizações ideológicas, ele adotou posições de esquerda declarando-se simpático à revolução cubana.
Posteriormente, apoiou o presidente socialista Salvador Allende contra o golpe militar e foi entusiasta dos guerrilheiros sandinistas na Nicaraguá. Nascido na Bélgica, Cortázar passou a infância e adolescência em Buenos Aires, mudando-se para Paris em 1951. Na capital francesa, trabalhou na Unesco e dedicou-se à literatura até seus últimos dias de vida.

MÚSICO FRUSTRADO
Louco por jazz, dizia que era um músico frustrado. Tentou tocar saxofone e trompete, mas desistiu de levar o aprendizado adiante. "Se há alguma coisa que eu teria gostado de fazer era ser um músico suficientemente competente para dominar a técnica de um instrumento de jazz e poder improvisar como um Charlie Parker", revela no livro "Conversa com Cortázar", de autoria de Ernesto González Bermejo e publicado no Brasil em 2002.
"Acontece que não tenho talento. Se alguém começar a estudar um instrumento no mesmo dia que eu, em dez dias estará à minha frente. Fico logo para trás. Então, achei um pouco absurdo insistir em um caminho que, evidentemente, não era o meu. Melhor escutar os que tocam bem e continuar escrevendo. Mas é uma nostalgia permanente para mim", salienta.
Embora o volume de contos "Bestiário" sobressaia pela inovação, o autor é lembrado principalmente pelo romance "O Jogo da Amarelinha", que lançou em 1963 e o elevou ao estrelato das letras. A obra foge da narrativa convencional, propondo ao leitor diferentes maneiras de iniciar sua leitura, que pode começar tanto no capítulo 73 quanto seguir a ordem linear.
As páginas, pontuadas de humor, trazem o protagonista Horácio Oliveira caminhando entre a loucura e a degradação. Brincando com as formas, o livro tornou-se uma referência do vanguardismo cult, citado à exaustão, mas pouco lido. Na citada obra "Conversa com Cortázar", ele sintetiza o lugar dessa linhagem de narrativas na literatura contemporânea: "Tenho a impressão de que temos usado nos tempos que correm a palavra 'romance' por uma questão de método, justamente por esse racionalismo ocidental. Mas na realidade os produtos, os livros que lemos todos os dias, já têm uma grande plasticidade, uma abertura muito grande para todas as direções. Há romances que são poemas. Há poemas que são romances. Há romances que são colagens. Eu continuo acreditando que o romance é um grande baú, é a possibilidade de expressar uma multiplicidade de conteúdos com uma liberdade enorme. Na realidade, o romance não tem leis, a não ser a de impedir que a lei da gravidade entre em ação e o livro caia das mãos do leitor".
Cortázar morreu de leucemia em 12 de fevereiro de 1984.

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