LEITURA - Cartas de um passado invisível
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de abril de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
O escritor mineiro Luiz Ruffato, após o falecimento da mãe, encontrou uma caixa cheia de cartas antigas escondida no guarda-roupa. Ela secretamente havia guardado, ao longo da vida, toda a correspondência recebida.
A grande maioria das cartas havia sido escrita por seu irmão mais velho, Célio, morto num acidente de carro em 1978. Célio havia deixado a família, no interior de Minas Gerais, com 18 anos de idade. Após concluir o curso de mecânica no Senai, partiu para a cidade de São Paulo para trabalhar na indústria automobilística do Grande ABC.
A partir dessas cartas escritas pelo irmão para a mãe, Luiz Ruffato criou "De Mim Já Nem Se Lembra", seu novo romance que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras. Na verdade trata-se de uma segunda edição "revista, ampliada e definitiva", segundo o autor. A primeira edição, publicada pela editora Moderna em 2007, era mais enxuta e tinha quase um caráter paradidático.
Como romance epistolar, "De Mim Já Nem Se Lembra", é formado basicamente pelas cartas escritas por Célio para a mãe entre 1971 a 1978. Há apenas uma introdução em que Ruffato relata como encontrou as cartas, e um posfácio onde relembra os 30 anos da morte do irmão, um grande trauma para a família.
Toda a história é narrada pelas cartas. A história de um sujeito que cresceu na roça e foi para a cidade com a família seguindo o fenômeno do êxodo rural. Vivendo numa pequena cidade do interior, consegue concluir um curso técnico e emigra, como muitos outros, para o grande centro industrial de São Paulo para trabalhar como operário.
Com extrema simplicidade e uma boa dose de ingenuidade, seu relato retrata as transformações sociais, culturais e históricas do Brasil da década de 1970. Entre suas vivências, está o sentimento de não pertencimento (ou de desterritorialização) que abate os operários que deixam a família e a cidade natal para arriscar uma vida melhor nos grandes centros industriais.
Após uma viagem de visita à família, Célio relata da seguinte maneira essa sensação: "Cheguei bem. A viagem de volta é sempre ruim, porque os anos passam e vejo que é cada vez mais difícil pensar em voltar a morar aí em Cataguases. Andei mais pela cidade, vi alguns amigos, encontrei outros que também estão morando aqui em São Paulo e a sensação que fica é de que nunca mais vou voltar. Isso é muito triste, porque aqui não é o meu lugar. Mas sinto que aí já não é o meu lugar. Ou seja, não sou de lugar nenhum. E isso dói dentro da gente."
As desilusões surgem uma após a outra. Mas há possibilidade de ganhar algum dinheiro para enviar para a família respirar aliviada. Nesse processo, a compreensão de sua realidade se transforma, aos poucos as cartas demonstram o fim da ingenuidade.
O contexto da ditadura militar da época é relatado a partir de um fato do cotidiano: "Outro dia, aconteceu um negócio esquisito com um rapaz que mora aqui na pensão, o Norivaldo, um sujeitinho falante, desses meio entrão, sabe? Parece que ele estava andando na rua, o pessoal da cavalaria que tem aqui perto passou, ele fez pouco dos soldados, um deles desceu, mandou ele beijar o cavalo, ele falou que não ia beijar coisa nenhuma, eles carregaram ele para a delegacia e deram uma surra danada nele. Parece que o negócio foi feio, porque ele apareceu na pensão todo machucado, eu não vi, me contaram, ele pegou a bolsa e sumiu. Ninguém mais ouviu falar dele. A gente tem que tomar cuidado com o que fala aqui."
O que pouca gente sabe é que cartas de "De Mim Já Nem Se Lembra" nunca existiram no mundo real. Tudo mentirinha. Não exatamente mentira, mas ficção. Luiz Ruffato realmente perdeu a mãe, viveu com a família em Cataguases, teve um irmão chamado Célio, etc. Mas tudo o resto trata-se de ficção. Pela estrutura do romance e por seu encaminhamento, o leitor é induzido a acreditar tratar-se de algo real, nada ficcional.
Esse é justamente o objetivo de Luiz Ruffato, tornar a ficção quase real. Ou embaralhar as coisas, eliminar as fronteiras. E colocar em prática sua grande proposta, a de retratar o trabalhador braseiro, uma figura que raramente é considerada personagem da literatura contemporânea brasileira.
Nascido em 1961, Ruffato é um dos nomes de destaque da ficção nacional, autor de uma dezena de romances, possui obras publicadas em 12 países. Seu romance mais significativo, "Eles Eram Muitos Cavalos" (Boitempo, 2001 / Companhia das Letras, 2013) invariavelmente frequenta as listas das mais importantes obras da literatura brasileira contemporânea.
Serviço:
"De Mim Já Nem Se Lembra"
Autor Luiz Ruffato
Editora Companhia das Letras
Páginas 142
Quanto R$ 34,90 e R$ 23,90 (e-book)


