O escritor mineiro Luiz Ruffato, após o falecimento da mãe, encontrou uma caixa cheia de cartas antigas escondida no guarda-roupa. Ela secretamente havia guardado, ao longo da vida, toda a correspondência recebida.
A grande maioria das cartas havia sido escrita por seu irmão mais velho, Célio, morto num acidente de carro em 1978. Célio havia deixado a família, no interior de Minas Gerais, com 18 anos de idade. Após concluir o curso de mecânica no Senai, partiu para a cidade de São Paulo para trabalhar na indústria automobilística do Grande ABC.
A partir dessas cartas escritas pelo irmão para a mãe, Luiz Ruffato criou "De Mim Já Nem Se Lembra", seu novo romance que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras. Na verdade trata-se de uma segunda edição "revista, ampliada e definitiva", segundo o autor. A primeira edição, publicada pela editora Moderna em 2007, era mais enxuta e tinha quase um caráter paradidático.
Como romance epistolar, "De Mim Já Nem Se Lembra", é formado basicamente pelas cartas escritas por Célio para a mãe entre 1971 a 1978. Há apenas uma introdução em que Ruffato relata como encontrou as cartas, e um posfácio onde relembra os 30 anos da morte do irmão, um grande trauma para a família.
Toda a história é narrada pelas cartas. A história de um sujeito que cresceu na roça e foi para a cidade com a família seguindo o fenômeno do êxodo rural. Vivendo numa pequena cidade do interior, consegue concluir um curso técnico e emigra, como muitos outros, para o grande centro industrial de São Paulo para trabalhar como operário.
Com extrema simplicidade e uma boa dose de ingenuidade, seu relato retrata as transformações sociais, culturais e históricas do Brasil da década de 1970. Entre suas vivências, está o sentimento de não pertencimento (ou de desterritorialização) que abate os operários que deixam a família e a cidade natal para arriscar uma vida melhor nos grandes centros industriais.
Após uma viagem de visita à família, Célio relata da seguinte maneira essa sensação: "Cheguei bem. A viagem de volta é sempre ruim, porque os anos passam e vejo que é cada vez mais difícil pensar em voltar a morar aí em Cataguases. Andei mais pela cidade, vi alguns amigos, encontrei outros que também estão morando aqui em São Paulo e a sensação que fica é de que nunca mais vou voltar. Isso é muito triste, porque aqui não é o meu lugar. Mas sinto que aí já não é o meu lugar. Ou seja, não sou de lugar nenhum. E isso dói dentro da gente."
As desilusões surgem uma após a outra. Mas há possibilidade de ganhar algum dinheiro para enviar para a família respirar aliviada. Nesse processo, a compreensão de sua realidade se transforma, aos poucos as cartas demonstram o fim da ingenuidade.
O contexto da ditadura militar da época é relatado a partir de um fato do cotidiano: "Outro dia, aconteceu um negócio esquisito com um rapaz que mora aqui na pensão, o Norivaldo, um sujeitinho falante, desses meio entrão, sabe? Parece que ele estava andando na rua, o pessoal da cavalaria que tem aqui perto passou, ele fez pouco dos soldados, um deles desceu, mandou ele beijar o cavalo, ele falou que não ia beijar coisa nenhuma, eles carregaram ele para a delegacia e deram uma surra danada nele. Parece que o negócio foi feio, porque ele apareceu na pensão todo machucado, eu não vi, me contaram, ele pegou a bolsa e sumiu. Ninguém mais ouviu falar dele. A gente tem que tomar cuidado com o que fala aqui."
O que pouca gente sabe é que cartas de "De Mim Já Nem Se Lembra" nunca existiram no mundo real. Tudo mentirinha. Não exatamente mentira, mas ficção. Luiz Ruffato realmente perdeu a mãe, viveu com a família em Cataguases, teve um irmão chamado Célio, etc. Mas tudo o resto trata-se de ficção. Pela estrutura do romance e por seu encaminhamento, o leitor é induzido a acreditar tratar-se de algo real, nada ficcional.
Esse é justamente o objetivo de Luiz Ruffato, tornar a ficção quase real. Ou embaralhar as coisas, eliminar as fronteiras. E colocar em prática sua grande proposta, a de retratar o trabalhador braseiro, uma figura que raramente é considerada personagem da literatura contemporânea brasileira.
Nascido em 1961, Ruffato é um dos nomes de destaque da ficção nacional, autor de uma dezena de romances, possui obras publicadas em 12 países. Seu romance mais significativo, "Eles Eram Muitos Cavalos" (Boitempo, 2001 / Companhia das Letras, 2013) invariavelmente frequenta as listas das mais importantes obras da literatura brasileira contemporânea.

Serviço:
"De Mim Já Nem Se Lembra"
Autor – Luiz Ruffato
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 142
Quanto – R$ 34,90 e R$ 23,90 (e-book)

Lamento termos convivido tão pouco. Eu tinha 10 anos quando você tomou o rumo de Diadema, assim como centenas de outros recém-formados no Senai. Uma legião de adolescentes de espinha na cara, que nunca haviam ultrapassado os morros que cercam Cataguases, enchia os ônibus alugados por firmas de São Paulo, abandonando desconsoláveis mães e namoradas, que, contraditoriamente, ansiando pelo sucesso da iniciativa, suspiravam por uma volta que nuca ocorreria. Retornar era fracassar, e aqueles jovens, que de seu nada possuíam, definitivamente não poderiam frustrar seus sonhos. No começo, ainda visitavam os familiares com certa regularidade, mas, pouco a poucos, os laços com a cidadezinha sem perspectivas iam se esgarçando: muitos levavam embora irmãos, pais, amigos, outros envolviam-se em novas relações de amizade ou amorosas, diluindo a frequência com que apareciam em Cataguases nos feriados prolongados ou nas festas de fim de ano. Dividíamo-nos, por essa época, em "os que já haviam ido embora" e "os que ainda não tinham idade para isso"... (De "De Mim Já Nem Se Lembra", de Luiz Ruffato)
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