LEITURA - Campos de sangue
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de janeiro de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Um olho no sangue, outro na lua. Um olho na crueldade da guerra, outro na paisagem onde o sangue escorre. Esses dois tipos de olhares se cruzam constantemente na literatura do escritor russo Isaac Bábel (1894-1940). Especialmente em ''O Exército de Cavalaria'', livro de contos considerado sua obra-prima.
Publicado originalmente em 1926, a obra já recebeu três traduções brasileiras ao longo das décadas, uma delas realizada pelo escritor baiano Jorge Amado. Nenhuma executada diretamente do original em russo. Todas receberam o título de ''O Exército Vermelho'', seguindo edições de outros países numa direta alusão ao nome das tropas militares nascidas durante a Revolução Russa.
A Editora Cosac Naify acaba de lançar a primeira edição brasileira da obra com tradução realizada diretamente do original russo. Procurando resgatar um título mais próximo do criado por Isaac Bábel, ''Konármia'', o livro foi rebatizado com nome de ''O Exército de Cavalaria''. Na língua russa a palavra ''kon'' é utilizada para designar ''cavalo'' e ''ármia'' usada para designar ''exército''.
''O Exército de Cavalaria'' é um livro de contos peculiar. Os 36 textos que integram a obra abordam um tema único, o conflito entre o exército russo, formado grande parte por cossacos, e o exército polonês. Uma batalha repleta de convulsões sociais e conquistas territoriais sangrentas.
''O Exército de Cavalaria'' tanto pode ser lido como um volume e contos quanto como um romance fragmentado. Isso porque além o tema ser sempre recorrente, alguns personagens passeiam em vários contos. Até mesmo o narrador se revela, na maioria das vezes, o mesmo ao longo dos textos. Issac Bábel retrata pessoas que fazem parte da guerra de maneira direta e indireta. Àquelas que ocupam o papel de sujeito da violência e àquelas que ocupam o papel de vítimas, bem como as dissimuladas entre um ponto e outro. O escritor também insere na narrativa uma percepção da realidade através da confluência dos sentidos de maneira cognitiva.
Bábel esteve na linha de frente do batalhão de cossacos que lutava pela causa bolchevista na guerra entre Rússia e Polônia ocorrida em 1920. Durante os conflitos registrou em seu diário pessoal todos os acontecimento e situações que presenciou durante as batalhas. A partir dessas anotações, retrato direto da realidade, escreveu os textos de ''O Exército de Cavalaria'' realizando uma espécie de ''leitura literária'' das anotações do diário.
Graças ao resultado atingido, a obra é apontada como um dos primeiros livros onde, de maneira declarada e constante, o autor invade a voz do narrador. O escritor russo simples eliminou a fronteira que separava claramente a fronteira entre autor e narrador. Posteriormente muitos outros autores levaram esse procedimento às últimas consequências.
Issac Bábel nasceu em 1894 numa família judia de comerciantes. Estudou administração, mas acabou atuando como tradutor, intérprete e jornalista. Publicou seus primeiros escritos graças ao apoio do escritor Maksim Gorki. Após a revolução, abraçou os ideais bolchevistas e atuou como correspondente de guerra a serviço do exército russo. Com o passar dos anos, insatisfeito com os rumos tomados pelos governantes, passou a ser considerado um pessoa indesejável. Colocado na geladeira pelos homens de Stalin, seus textos foram tirados de circulação e em seguida foi preso. Após permanecer quase um ano na cadeia, foi executado por fuzilamento sem um julgamento adequado. Sua literatura voltou a circular em seu país apenas nos últimos anos.
Em ''O Exército de Cavalaria'' Babel colocou em prática um projeto aparentemente paradoxal: descrever elementos da natureza, ou da paisagem, ao mesmo tempo em que apresenta as crueldades provocadas pelos homens durante conflitos. Colocou, lado a lado, a beleza e a violência.
Serviço:
- Livro ''O Exército de Cavalaria'' de Isaac Bábel. Editora Cosac Naify, tradução e apresentação de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade, posfácio de Boris Schnaiderman e Otto Maria Carpeaux, 256 páginas, capa dura, R$ 55,00.
Fragmento do conto Zámostie que integra O Exército da Cavalaria, de Isaac Bábel
Chovia. Vento e escuridão encobriam a terra empapada. Inchadas de tinta, as nuvens apagavam as estrelas. Os cavalos, estafados, resfolegavam e pateavam nas trevas. Nada havia para lhes dar. Atei a brida do cavalo no meu pé, embrulhei-me no capote e deitei numa cova cheia dágua. A terra encharcada envolveu-me num tranqüilizante abraço de túmulo. O cavalo puxou a brida e arrastou-me pelo pé. Tinha encontrado uma moita de capim e começara a tosá-la. Então dormi e sonhei com um telheiro forrado de feno. Acima dele zunia o ouro poeirento da debulha. Espigas de trigo voavam pelo céu, o dia de julho ia beirando o anoitecer, as brenhas do crepúsculo tombavam sobre o vilarejo.
Estava estendido no meu silencioso leito, e a carícia do feno na minha nuca me fazia enlouquecer. Então as portas do palheiro abriram-se com um rangido. Uma mulher com vestido de baile aproximou-se. Tirou um seio das rendas negras do corpete e me ofereceu com todo cuidado, como uma ama-de-leite. Pousou seu peito sobre o meu. Uma tepidez enlanguescedora abalava-me os alicerces da alma, e gotas de suor vivo e corrediço, começaram a fervem entre o nosso peito.
Então, a mulher afastou-se de mim e caiu de joelhos.
Jesus disse ela , recebei a alma do Vosso falecido servo...
Ela colocou duas moedas de cinco copeques sobre minhas pálpebras e encheu a cavidade da minha boca de feno perfumado. Em vão, um gemido tentava escapar pela abertura de meus maxilares cerrados, as pupilas apagadas reviram lentamente sob os cobres, eu não conseguia separar as mãos e... acordei.
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