A cena é clássica. O sujeito está na sala de sua casa olhando pela janela. Sentado numa cadeira de rodas, tem uma das pernas engessada. Para matar o tempo em sua imobilidade entediante, espiona os vizinhos com um binóculo. Inesperadamente, vê um assassinato ocorrer diante de seus olhos.
  Alfred Hitchcock imortalizou a cena no filme ‘‘Janela Indiscreta’’ de 1954. Mas seu verdadeiro criador foi o escritor norte-americano Cornell Woolrich (1903 - 1968). O romance policial ‘‘Janela Indiscreta’’ de sua autoria serviu de base para Hitchcock realizar o filme.
  Cornell Woolrich teve várias de suas histórias policiais adaptadas para o cinema, como ‘‘A Noiva Estava de Preto’’ e ‘‘A Dama Fantasma’’. Graças à sua popularidade no gênero, rapidamente foi contratado como roteirista. Passou metade da vida trancado nos estúdios de Hollywood escrevendo roteiros cinematográficos. Acabou morrendo em 1968, solitário, entupido de álcool e milionário. Suas histórias não são complexas ou mirabolantes. São pautadas por um crime que precisa ser elucidado muito mais pela persistência do que pela perspicácia.
  Exemplo disso é ‘‘A Dama Fantasma’’, romance policial escrito por Cornell Woolrich em 1942 e lançado recentemente pela Editora Companhia das Letras. Nele o autor narra o drama de um pacato sujeito no corredor da morte, próximo de sentar na cadeira elétrica condenado por um crime que não cometeu.
  O sujeito chama-se Scott. Tudo começa quando ele tenta, a todo custo, que sua esposa assine o divórcio para se casar com a amante. Diante de suas insistentes recusas, acontece uma calorosa discussão. Atordoado, Scott sai de casa e entra no primeiro bar que encontra. Enquanto toma um trago no balcão, uma moça senta ao seu lado.
  Uma comum, sem nenhum detalhe especial. A única coisa que a destaca da multidão é o chapéu que usa. Um chapéu exótico cor de abóbora. Um chapéu que poderia ser reparado até por um astronauta a bordo de uma estação espacial.
  Scott convida a garota para um jantar e depois para assistirem a um espetáculo musical na Broadway. A moça aceita o convite, para fazer-lhe companhia. No final da noite, se despedem e Scott volta para casa. No quarto encontra a esposa morta, estrangulada com uma de suas gravatas.
  Para a polícia, Scott é o principal suspeito. Isso porque todas as testemunhas que poderiam funcionar como álibi não confirmam seu depoimento. Do garçom do bar ao dono do restaurante. Do motorista de táxi ao porteiro do teatro. Todos afirmam não ter visto Scott, muito menos na companhia de uma garota de chapéu cor de abóbora. A própria moça não consegue ser encontrada. Simplesmente vira fumaça. Sem testemunhas de defesa, o sujeito é condenado à pena de morte por assassinato.
  Vinte dias antes da execução, estimulado por um policial, Scott decide realizar a última tentativa de salvar sua pele. Resolve pedir a um velho amigo que empreenda uma investigação para encontrar a garota fantasma, a única pessoa, que com um simples depoimento, pode evitar sua morte.
  Assim, correndo contra o tempo, ao longo de vinte dias, o amigo procura por uma mulher sem nome e sem rosto pelas ruas de Nova York. Para piorar a situação, toda vez que encontra alguém que pode oferecer alguma pista da moça, a pessoa é assassinada. O único elemento palpável é justamente o chocante chapéu abóbora.
  Em ‘‘A Dama Fantasma’’ Cornell Woolrich não trabalha na construção psicológica das personagens. Sua narrativa está centrada basicamente na apresentação de fatos, situações e acontecimentos. E o culpado fatalmente veste a pele do insuspeito, aquele com cara de bom moço.
  Curiosamente uma das personagens do romance é baseada na figura de Carmen Miranda. O musical que Scott e a garota assistem na Broadway, pelas descrições, remetem a Carmen Miranda cantando ‘‘Chica Chica Bum’’ em espanhol. Ela aparece no palco mordendo os lábios de raiva, tendo um verdadeiro piti, após constatar que existe uma moça na platéia usando um chapéu igual ao seu. Um exótico chapéu abóbora.

  Caminhou cambaleando até a beirada da cama. Abaixou-se, tocou-a por cima da colcha, encontrou o ombro arredondado, sacudiu-o interrogativamente. ‘‘Marcella, você está bem...?’’
  Os homens tinham entrado atrás dele. Ele teve a vaga impressão de que tudo o que fazia estava sendo vigiado, estudado. Mas não tinha tempo para ninguém, só para ela.
  Três pares de olhos parados na porta, observando. Observando-o mexer na colcha de cetim azul. Sua mão ergueu um canto da coberta.
  Houve um momento horrendo, inacreditável, suficiente para marcar para sempre seu coração, quando ela o encarou com a boca aberta. Era um ricto de humor cadavérico, que se tornara rígido. Os cabelos caíram em cascata sobre os travesseiros, como um leque aberto.
  As mãos o atrapalharam. Ele recuou, cambaleando, dando um passo de cada vez. Houve um brilho de cetim azul e ela desapareceu para sempre. Para sempre, para nunca mais.
(Fragmento de ‘‘A Dama Fantasma’’, de Cornell Woolrich)

SERVIÇO
-‘‘A Dama Fantasma’’ de Cornell Woolrich. Editora Companhia das Letras, tradução de S. Duarte, 280 páginas, R$ 39,50.

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