O nome do escritor carioca Paulo Lins ficará eternamente associado ao romance ''Cidade de Deus''. Fatal. Também pela adaptação do livro para o cinema realizada pelo diretor Fernando Meirelles que recebeu quatro indicações ao Oscar 2004. Não tem como.
''Cidade de Deus'' foi publicado em 1997. O sucesso foi tamanho que Paulo Lins entrou no lendário buraco negro dos escritores angustiados. Não conseguiu escrever mais nada ao longo dos anos. Deixou uma legião de fãs e admiradores chupando o dedo à espera de um novo romance, ou alguma continuação de ''Cidade de Deus''.
Exatamente 15 anos depois, o segundo romance do escritor chega finalmente às livrarias lançado pela editora Planeta. ''Desde Que o Samba é Samba'', aparentemente, não tem nada a ver com ''Cidade de Deus''. Trata-se de um romance histórico que retrata o bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, entre os anos de 1928 e 1929. Ali, com local e data marcada, segundo o Paulo Lins, teria nascido um dos grandes patrimônios da cultura brasileira: o samba.
Superando as aparências, ''Desde Que o Samba é Samba'', é uma espécie de gênese das favelas cariocas retratadas em ''Cidade de Deus'': a primeira geração de negros pós-escravatura vivendo na periferia do Rio de Janeiro. Uma população sobrevivendo à margem da história oficial e criando a cultura do samba e a religiosidade da Umbanda. O samba e a Umbanda teriam nascido no mesmo terreiro, na mesma época, segundo Lins.
A grande distinção, entre ''Cidade de Deus'' e ''Desde Que o Samba é Samba'' - entre a representação do passado e do presente -, está no pessimismo do primeiro romance e no otimismo do segundo. O pessimismo da pobreza e da violência das favelas dá lugar ao otimismo de uma população criando uma cultura genuína que ganhará ares de identidade nacional.
Para criar a obra, Paulo Lins se baseou numa pesquisa histórica e sociológica da época. A partir de fatos e personagens reais, criou uma trama ficcional. Das figuras reais, três se destacam: o malandro Brancura (Silvio Fernandes), gigolô, capoeirista, jogador desonesto e larápio de sambas alheios; o compositor Ismael Silva, criador de um novo jeito de fazer samba - aproveitando a invenção do surdo e do tamborim - e fundador da Deixa Falar, primeira escola de samba carioca de 1928; o cantor Francisco Alves, o primeiro a gravar (e comprar), um samba da vertente criada por Ismael Silva e sua turma.
Todo o peso ficcional cai sobre Brancura, figura sobre a qual quase nada se sabe na realidade. Para ele, o autor criou grande parte da ficção do romance. Típico malandro do arquétipo carioca, o negão Brancura ganha a vida como protetor de prostitutas do baixo meretrício e vive um amor conturbado com a mulata Valdirene, uma das putas mais concorridas da região. O drama é que Valdirene morre de paixão pelo português branquelo Sobré, um bancário que se dedica a investir dinheiro no mercado da prostituição carioca que começa receber as ''escravas brancas'' da Europa pós Primeira Guerra. Esse triângulo amoroso, repleto de sexo, embates, jogos, desavenças e brigas, é o fio ficcional condutor de ''Desde Que o Samba é Samba''.
O recorte histórico apresentado por Paulo Lins pode ser abraçado por muita gente. Igualmente pode ser contestado por outro tanto. Mas parece claro que o romance focaliza muito mais a origem do samba de escola de samba, um verdadeiro gênero específico, do que o samba como ritmo mais amplo. Uma opção de recorte bem definida.
O autor toca em pontos polêmicos e pouco apontados pela historiografia do batuque. Um deles está na apresentação da homossexualidade de Ismael Silva como algo normal. Para colocar mais lenha na fogueira, o romance relata uma cena em que o escritor paulista modernista Mário de Andrade (1893 -1945) realiza um passeio sexual pelo Rio de Janeiro ao lado de Ismael Silva. Os dois percorrem o cais do porto agarrando e sendo agarrados por estivadores e marinheiros. ''Apimentada'' seria a palavra para definir uma série de passagens de ''Desde Que o Samba é Samba''.
Independente das doses de história, batuques e pimentas, o romance resgata as raízes da lendária figura carioca do malandro, atualmente obsoleta. A representação de um tipo clássico que teve suas artimanhas apropriadas por outros grupos sociais. Malandro tipo exportação.
Colocados lado a lado, os dois romances de Paulo Lins indicam que o passado detém um otimista contagiante e o passado destila um pessimismo torturante.

Serviço:
- ''Desde Que o Samba é Samba''
Autor - Paulo Lins
Editora - Planeta
Páginas - 336
Quanto - R$ 39,90

O carnaval se aproximava, sabia que ia ter pancadaria não só da polícia, mas também desses brigões de blocos de sujos, dessa rapaziada que saía, conforme Brancura, pra brigar e bater carteira dos outros. Queria parar com esse costume de ajuntamento de batucada na frente do Café do Compadre e no Apolo no carnaval. Isso chamava corriola para atrapalhar a vida de quem só quer se divertir. É que tinha gente que pensava que ainda estava na época do entrudo. Cultivava esses hábitos dos portugueses de jogar limões de cera cheios de água com xixi e as mais diversas sujeiras nas pessoas. Ele já viu muita pancadaria começar assim. Mas o pior mesmo era quando juntava mais de cinco ou seis blocos para trocar bofetadas, rabo de arraia, meia-lua e tudo mais.
A polícia também já gostava! Ô, raça desgraçada é essa raça de polícia. Não pode ver a negada brincar em paz que já vem querendo bater. Às vezes, o bloco de sujos era só família, de vizinhos que não se metiam em confusão, mas a polícia chegava batendo até em mulher, criança e velho. Não queriam nem saber. Quando não tinha capoeira com navalha e arma der fogo, eles faziam o que queriam.

(Fragmento de ''Desde Que o Samba é Samba'' de Paulo Lins)

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