Família é uma casa com muitos quartos, cortinas nas janelas, sofás esquisitos, esqueletos no guarda-roupa, geladeiras traiçoeiras, travesseiros conselheiros e varandas em crise. Ruídos de descarga, fraudulências noturnas, cheiro de comida e excessos de bebida.
A família de comercial de margarina definitivamente não faz parte da literatura de John Fante (1909 – 1983). A maravilhosa utopia familiar é surrada sem dó nem pena pelo escritor norte-americano em "A Irmandade da Uva", romance que acaba de ser lançado pela editora José Olympio. Trata-se da obra que faltava na estante dos brasileiros aficionados por Fante.
As primeiras páginas de "A Irmandade da Uva" são hilárias. O narrador, Henry, recebe um telefonema do irmão avisando que os pais vão se divorciar após mais de 50 anos de casamento. O motivo é uma baixaria familiar que envolve traição, xingamento, ofensas, espancamentos, humilhação, berros, brigas, truculência e muito mais. Um barraco que, quando aporta na delegacia, nem os policiais conseguem dar conta.
Henry, como filho mais velho, decide visitar os pais para tentar impedir o divórcio. Logo na chegada recebe a notícia de que a mãe já desistiu da separação. Para ela, religiosa católica apostólica romana, nenhum casamento pode ser desfeito. O pai, aproveitando a ocasião, solicita que Henry o ajude a provar que ainda é o melhor pedreiro da cidade.
Pai e filho partem para uma temporada nas montanhas com o desafio de construir um simples e inofensivo defumador de pedras. Na verdade uma jornada pela conciliação. Uma iniciativa que, tudo indica, está fadada ao fracasso. Fica evidente que não há possibilidade de conciliação entre pai e filho quando a relação já foi destruída ao longo dos anos. De personalidades incompatíveis, só o conflito faz sentido.
Nick, o pai, é o grande personagem do romance. Imigrante italiano, é o típico briguento, casca grossa, turrão, violento, rude, alcoólatra, explosivo, teimoso, mulherengo, intempestivo e tosco. Entre eterno cheiro de bebida e charuto, não aceita a opinião de nada e de ninguém. Em casa é odiado por todos. No bar, entre companheiros de copo e baralho, é amado por tudo.
A construção do defumador se converte em martírio. Brigas e discussões entre uma pedra e outra. Henry aproveita para relembrar sua vida e a do pai que a essa altura está à beira de um enfarto. No meio de tanta raiva e ódio, o filho começa a ter uma profunda compaixão do pai. Ódio, afetividade e comicidade, tudo ao mesmo tempo.
Uma compaixão que flerta com um humor irônico capaz de comportar todas as contradições possíveis. John Fante consegue trabalhar com sensações e sentimentos contraditórios numa mesma frase. Todas a fragilidades aparecem como feridas incuráveis acumuladas ao longo dos anos.
Não há como não ver elementos autobiográficos do autor em "A Irmandade da Uva". Filho de um pedreiro imigrante italiano e de uma mãe extremamente carola, John Fante comeu o pão que o diabo amassou para se tornar um escritor. Entre seus romances mais conhecidos estão aqueles que narram a saga do personagem Arturo Bandini, seu alter-ego: "Espere a Primavera, Bandini", "Rumo a Los Angeles", "Pergunte ao Pó" e "Sonhos de Bunker Hill".
Para pagar as contas, a partir da década de 40, Fante começou a trabalhar como roteirista de Hollywood e ficou quase três décadas sem publicar um único livro. Mesmo doente (diabético, perdeu a visão e teve as duas pernas amputadas) voltou a escrever romances até morrer em 1983. Sua última obra, "Sonhos de Bunker Hill" foi ditada à sua esposa e publicada postumamente. Quem tirou a literatura de Fante do limbo foi Charles Bukowski, que fez de tudo para que seus romances fossem reeditados.

Serviço:
"A Irmandade da Uva"
Autor – John Fante
Editora – José Olympio
Tradução – Roberto Muggiati
Páginas – 224
Quanto – R$ 34,90

Meu pai teria sido um homem mais feliz sem uma família. Não fossem seus quatro filhos, teria se divorciado e partido havia muito tempo para outras cidades. Seus filhos eram os cravos que o crucificavam à minha mãe. Sem filhos, estaria livre como um passarinho. Não gostava de nós em particular e com toda certeza não nos amava nem um pouco. Éramos apenas crianças comuns, simples e indistintas, e ele esperava mais. Éramos tarefas a serem cumpridas, não uma rica colheita, nem aspargos, figos ou tâmaras, mas papa menos fina, batatas, milho e feijões, e ele ficou preso àquele fardo, xingando e chutando torrões do solo até que as colheitas amadurecessem. Ninguém cruzava com ele sem uma batalha. Desgostava de quase tudo, particularmente da mulher, dos filhos, dos vizinhos, da sua igreja, do padre, da sua cidade, do seu estado, do seu país e do país do qual havia imigrado. Não dava a menor importância ao mundo também, ou ao sol e às estrelas, ou ao universo, ao céu ou ao inferno. Mas gostava de mulheres. (Fragmento de "A Irmandade da Uva" de John Fante)
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