LEITURA - Brigas, humilhações, violência e um pouco de afetividade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Família é uma casa com muitos quartos, cortinas nas janelas, sofás esquisitos, esqueletos no guarda-roupa, geladeiras traiçoeiras, travesseiros conselheiros e varandas em crise. Ruídos de descarga, fraudulências noturnas, cheiro de comida e excessos de bebida.
A família de comercial de margarina definitivamente não faz parte da literatura de John Fante (1909 1983). A maravilhosa utopia familiar é surrada sem dó nem pena pelo escritor norte-americano em "A Irmandade da Uva", romance que acaba de ser lançado pela editora José Olympio. Trata-se da obra que faltava na estante dos brasileiros aficionados por Fante.
As primeiras páginas de "A Irmandade da Uva" são hilárias. O narrador, Henry, recebe um telefonema do irmão avisando que os pais vão se divorciar após mais de 50 anos de casamento. O motivo é uma baixaria familiar que envolve traição, xingamento, ofensas, espancamentos, humilhação, berros, brigas, truculência e muito mais. Um barraco que, quando aporta na delegacia, nem os policiais conseguem dar conta.
Henry, como filho mais velho, decide visitar os pais para tentar impedir o divórcio. Logo na chegada recebe a notícia de que a mãe já desistiu da separação. Para ela, religiosa católica apostólica romana, nenhum casamento pode ser desfeito. O pai, aproveitando a ocasião, solicita que Henry o ajude a provar que ainda é o melhor pedreiro da cidade.
Pai e filho partem para uma temporada nas montanhas com o desafio de construir um simples e inofensivo defumador de pedras. Na verdade uma jornada pela conciliação. Uma iniciativa que, tudo indica, está fadada ao fracasso. Fica evidente que não há possibilidade de conciliação entre pai e filho quando a relação já foi destruída ao longo dos anos. De personalidades incompatíveis, só o conflito faz sentido.
Nick, o pai, é o grande personagem do romance. Imigrante italiano, é o típico briguento, casca grossa, turrão, violento, rude, alcoólatra, explosivo, teimoso, mulherengo, intempestivo e tosco. Entre eterno cheiro de bebida e charuto, não aceita a opinião de nada e de ninguém. Em casa é odiado por todos. No bar, entre companheiros de copo e baralho, é amado por tudo.
A construção do defumador se converte em martírio. Brigas e discussões entre uma pedra e outra. Henry aproveita para relembrar sua vida e a do pai que a essa altura está à beira de um enfarto. No meio de tanta raiva e ódio, o filho começa a ter uma profunda compaixão do pai. Ódio, afetividade e comicidade, tudo ao mesmo tempo.
Uma compaixão que flerta com um humor irônico capaz de comportar todas as contradições possíveis. John Fante consegue trabalhar com sensações e sentimentos contraditórios numa mesma frase. Todas a fragilidades aparecem como feridas incuráveis acumuladas ao longo dos anos.
Não há como não ver elementos autobiográficos do autor em "A Irmandade da Uva". Filho de um pedreiro imigrante italiano e de uma mãe extremamente carola, John Fante comeu o pão que o diabo amassou para se tornar um escritor. Entre seus romances mais conhecidos estão aqueles que narram a saga do personagem Arturo Bandini, seu alter-ego: "Espere a Primavera, Bandini", "Rumo a Los Angeles", "Pergunte ao Pó" e "Sonhos de Bunker Hill".
Para pagar as contas, a partir da década de 40, Fante começou a trabalhar como roteirista de Hollywood e ficou quase três décadas sem publicar um único livro. Mesmo doente (diabético, perdeu a visão e teve as duas pernas amputadas) voltou a escrever romances até morrer em 1983. Sua última obra, "Sonhos de Bunker Hill" foi ditada à sua esposa e publicada postumamente. Quem tirou a literatura de Fante do limbo foi Charles Bukowski, que fez de tudo para que seus romances fossem reeditados.
Serviço:
"A Irmandade da Uva"
Autor John Fante
Editora José Olympio
Tradução Roberto Muggiati
Páginas 224
Quanto R$ 34,90


