Famílias guardam histórias nos lugares mais secretos. Narrativas nas pontas dos dedos, nas extremidades do fígado, nas ressonantes cavernas do tórax, nos ácaros exilados sob as unhas dos pés, nas salinas dos olhos e outros lugares e sombras.
O escritor norte-americano William Faulkner (1857 – 1962) fez dessas histórias matéria-prima de sua literatura. O romance "Absalão, Absalão!" (publicado originalmente em 1936 e uma das obras mais estudada do autor), percorre esses lugares pantanosos e enevoados. Um território onde borboletas se resguardam no ventre do pântano.
Uma nova edição de "Absalão, Absalão!" acaba de chegar às livrarias lançada pela editora Cosac Naify. O próprio título da obra remete ao episódio bíblico onde Absalão, filho do rei Davi, se rebela contra o próprio pai e acaba assassinado para desgosto do rei. Faulkner traz a história de Thomas Setpen, um sujeito que se empenha em construir uma família com filhos que dêem prosseguimento às suas conquistas de riqueza e poder. Mas o que os filhos fazem é exatamente o oposto, arruínam com tudo e matam uns aos outros. Como pano de fundo, o final da Guerra Civil Americana e o final da economia escravagista no sul dos Estados Unidos.
Nas palavras do próprio Faulkner, agraciado com o prêmio Nobel de Literatura em 1949, o romance narra a história de um homem que desejava um filho como herdeiro, mas teve uma penca deles que acabaram se destruindo. O grande valor de "Absalão, Absalão!" não reside especificamente na história narrada, mas como ela é narrada. Ao lado de "O Som e a Fúria", trata-se da obra mais instigante do escritor em matéria de linguagem (vale lembrar que um dos personagens de "O Som e A Fúria", Quentin Compson, também aparece como personagem de "Absalão, Absalão!").
A narrativa é construída por várias vozes, pessoas que ouviram falar da tragédia da família Setpen. Essas vozes, em vários casos utilizando o fluxo de consciência, procuram reconstituir as lacunas da trágica história com suposições e analogias. As divergências na visão dos acontecimentos entre os próprios narradores amplia as possibilidades em múltiplas direções. Como as peças da história familiar são apresentadas quando novos elementos surgem, ou são deduzidos ou relembrados, não há uma ordem cronológica em nenhum ponto da narrativa. O tempo racional e ordenado está constantemente sob neblina.
O leitor pode experimentar a sensação de estar no interior de um labirinto narrativo dividindo com os próprios narradores a sensação de caminhar sobre um pântano repleto de buracos, lama, lacunas, incertezas, aranhas e serpentes. A ideia de verdade, seja em fatos ou acontecimentos, simplesmente não existe como a eternamente acalentada. Há a possibilidade de leituras de um tempo ilustrado pelo espaço e, principalmente, a construção simbólica de um sentido para a decadência.
As vozes presentes no romance olham para o passado e procuram encontrar não como a decadência familiar acontece, mas como ela é gestada em seu próprio útero. Encarada como maldição, a decadência do império familiar reflete outra maldição: a escravidão.
No intrincado labirinto de "Absalão, Absalão!" as histórias familiares, guardadas nos lugares mais secretos, revelam como uma nação é constituída por famílias. E as desgraças e tragédias estão nas pontas dos dedos, nas extremidades do estômago, nas escuras cavernas do coração, na sede da pélvis, nos ácaros que fazem fortuna e nas borboletas que apodrecem na lama.

Serviço:
"Absalão, Absalão!"
Autor – William Faukner
Tradução – Celso Mauro Paciornik e Julia Romeu
Editora – Cosac Naify
Páginas – 352 (capa dura)
Quanto – R$ 69,90

Era uma parte de sua herança após vinte anos respirando o mesmo ar e ouvindo seu pai falar daquele homem: uma parte da herança da cidade após oitenta anos no mesmo ar que o próprio homem tinha respirando naquela tarde de junho de 1833 quando entrou cavalgando na cidade pela primeira vez vindo de um passado indefinido e adquiriu sua terra ninguém soube como e construiu sua casa, sua mansão, aparentemente do nada, e casou-se com Ellen e gerou seus dois filhos – o filho que enviuvou a filha que ainda não tinha sido noiva – e assim percorreu o curso que lhe cabia até o violento fim. Quentin cresceu com aquilo; os meros nomes eram intercambiável e quase inumeráveis. Sua infância estava repleta deles; seu corpo mesmo era um salão vazio ecoando sonoros nomes derrotados; ele não era um ser, uma entidade, era uma comunidade. Era um acampamento militar repleto de fantasmas teimosos que olhavam para trás e que ainda estavam se recuperando, quarenta e três anos depois, da febre que curara a doença, despertando da febre sem nem ao menos saber que havia sido contra a febre que haviam lutado e não contra a doença, olhando com recalcitrante teimosia para trás, para além da febre e para a doença com verdadeira nostalgia, enfraquecidos pela febre mas livres da doença e nem mesmo conscientes de que a liberdade vinha da impotência. ("Absalão, Absalão!", de William Faulkner)
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