LEITURA - Borboleta no ventre do pântano
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Famílias guardam histórias nos lugares mais secretos. Narrativas nas pontas dos dedos, nas extremidades do fígado, nas ressonantes cavernas do tórax, nos ácaros exilados sob as unhas dos pés, nas salinas dos olhos e outros lugares e sombras.
O escritor norte-americano William Faulkner (1857 1962) fez dessas histórias matéria-prima de sua literatura. O romance "Absalão, Absalão!" (publicado originalmente em 1936 e uma das obras mais estudada do autor), percorre esses lugares pantanosos e enevoados. Um território onde borboletas se resguardam no ventre do pântano.
Uma nova edição de "Absalão, Absalão!" acaba de chegar às livrarias lançada pela editora Cosac Naify. O próprio título da obra remete ao episódio bíblico onde Absalão, filho do rei Davi, se rebela contra o próprio pai e acaba assassinado para desgosto do rei. Faulkner traz a história de Thomas Setpen, um sujeito que se empenha em construir uma família com filhos que dêem prosseguimento às suas conquistas de riqueza e poder. Mas o que os filhos fazem é exatamente o oposto, arruínam com tudo e matam uns aos outros. Como pano de fundo, o final da Guerra Civil Americana e o final da economia escravagista no sul dos Estados Unidos.
Nas palavras do próprio Faulkner, agraciado com o prêmio Nobel de Literatura em 1949, o romance narra a história de um homem que desejava um filho como herdeiro, mas teve uma penca deles que acabaram se destruindo. O grande valor de "Absalão, Absalão!" não reside especificamente na história narrada, mas como ela é narrada. Ao lado de "O Som e a Fúria", trata-se da obra mais instigante do escritor em matéria de linguagem (vale lembrar que um dos personagens de "O Som e A Fúria", Quentin Compson, também aparece como personagem de "Absalão, Absalão!").
A narrativa é construída por várias vozes, pessoas que ouviram falar da tragédia da família Setpen. Essas vozes, em vários casos utilizando o fluxo de consciência, procuram reconstituir as lacunas da trágica história com suposições e analogias. As divergências na visão dos acontecimentos entre os próprios narradores amplia as possibilidades em múltiplas direções. Como as peças da história familiar são apresentadas quando novos elementos surgem, ou são deduzidos ou relembrados, não há uma ordem cronológica em nenhum ponto da narrativa. O tempo racional e ordenado está constantemente sob neblina.
O leitor pode experimentar a sensação de estar no interior de um labirinto narrativo dividindo com os próprios narradores a sensação de caminhar sobre um pântano repleto de buracos, lama, lacunas, incertezas, aranhas e serpentes. A ideia de verdade, seja em fatos ou acontecimentos, simplesmente não existe como a eternamente acalentada. Há a possibilidade de leituras de um tempo ilustrado pelo espaço e, principalmente, a construção simbólica de um sentido para a decadência.
As vozes presentes no romance olham para o passado e procuram encontrar não como a decadência familiar acontece, mas como ela é gestada em seu próprio útero. Encarada como maldição, a decadência do império familiar reflete outra maldição: a escravidão.
No intrincado labirinto de "Absalão, Absalão!" as histórias familiares, guardadas nos lugares mais secretos, revelam como uma nação é constituída por famílias. E as desgraças e tragédias estão nas pontas dos dedos, nas extremidades do estômago, nas escuras cavernas do coração, na sede da pélvis, nos ácaros que fazem fortuna e nas borboletas que apodrecem na lama.
Serviço:
"Absalão, Absalão!"
Autor William Faukner
Tradução Celso Mauro Paciornik e Julia Romeu
Editora Cosac Naify
Páginas 352 (capa dura)
Quanto R$ 69,90


