Rodrigo Garcia Lopes: "O humor de Marcial é demolidor, cáustico, malandro, e simplesmente grosseiro ou nojento. Com ele não existe meio termo"
Rodrigo Garcia Lopes: "O humor de Marcial é demolidor, cáustico, malandro, e simplesmente grosseiro ou nojento. Com ele não existe meio termo" | Foto: Elisabete Ghisleni/ Divulgação



Uma língua inflamada e picante habitava os lábios de Marco Valério Marcial. No primeiro século d.C., no seio do Império Romano, escrevia poemas satíricos, ácidos e injuriosos com provocações de teor sexual. Uma espécie de boca de inferno de Roma.
A editora Ateliê acaba de lançar a primeira antologia brasileira da literatura de Marcial. Organizado e traduzido pelo poeta londrinense Rodrigo Garcia Lopes, o volume "Epigramas" reúne 219 poemas em edição bilíngue.
Marcial (Marcus Valerius Martialis) nasceu em Bílbilis (região da atual Catalunha, Espanha), província do Império Romano, entre os anos 38 e 40 do primeiro século d.C. Faleceu em 104 d.C. Sob as asas de políticos abastados, viveu recitando poemas em festas, banquetes e eventos do Império. Foi, por exemplo, o poeta incumbido de escrever sobre a inauguração do Coliseu de Roma.
A edição de "Epigramas" entra de cabeça na vertente de tratar o livro como objeto estético, como obra gráfica além de obra literária. O projeto gráfico realizado por Gustavo Piqueira potencializa as relações entre "caderno" e "capítulo". O resultado é um livro totalmente manipulável pelas mãos do leitor.
No trabalho de tradução, Rodrigo Garcia Lopes levou em conta a missão de repoetizar em português os versos escritos em latim, mantendo o frescor, o caráter imediato, a concisão e o humor: "Marcial é engraçadíssimo, é um dos grandes satiristas de todos os tempos, e um grande poeta. Espero que o leitor se divirta tanto quanto eu ao traduzi-lo."
A seguir, Garcia Lopes fala sobre a literatura de Marcial.

Marco Valério Marcial era extremamente moderno ao prenunciar aspectos de  sociedade do espetáculo
Marco Valério Marcial era extremamente moderno ao prenunciar aspectos de sociedade do espetáculo | Foto: Busto de bronze de Marco Valério Marcial, do escultor catalão Juan Cruz Melero/



O que é epigrama?
O sentido original de epigrama é de inscrição. Um pequeno texto em prosa ou verso que era gravado em lápides, estátuas, objetos, etc. Sua origem é grega, remonta ao período arcaico entre os séculos 8 e 6 a.C. Quando Marcial aparece na cena romana, no século 1, ele reinventa e estabelece o epigrama moderno tal qual conhecemos hoje, tornando-se um modelo para inúmeros autores importantes através dos tempos: um poema curto, geralmente satírico e de final picante, com uma corrosiva crítica social e de costumes.

Por que você acha que Marcial escolheu o gênero epigrama para criar toda sua obra?
Por uma questão de temperamento, acho. E por uma posição estética: creio que era desafiador se dedicar exclusivamente a um gênero que ninguém levava muito a sério, considerado menor, marginal, e transformá-lo em grande arte. E Marcial conseguiu. Ele estava situando o epigrama, estrategicamente, dentro de uma tradição satírica e assumidamente marginal, na contramão da dita poesia elevada, de dicção austera, grandiloquente e carregada de mitos, como a epopeia e a tragédia.

Os textos de Marcial são, ao mesmo tempo, engraçados e impiedosos. Marcial foi um poeta-comediante?
Os poemas satíricos ocupam grande parte de sua obra. Mas ele também tem muitos epigramas elegíacos, celebratórios do imperador, eróticos, filosóficos, epitáfios, votivos, etc. O humor de Marcial é demolidor, ferino, cáustico, malandro, e também simplesmente grosseiro ou nojento. Com ele não existe meio termo. Marcial nunca é imparcial. O que acho interessante perceber é que a maior parte de seus recursos humorísticos ainda são usados pelos comediantes de stand-up, sobretudo os que se especializam em piadas de uma ou duas linhas ("one liner comedians"), praticado em nossos dias.

É possível traçar paralelos entre os poemas de Marcial, escritos 2 mil anos atrás, e o mundo atual?
O fato de ter poemas considerados "impublicáveis" até hoje e ainda causar reação tanto tempo depois, mostra sua atualidade. O que tem interessado os estudiosos de Marcial é que, simultaneamente em que é um poeta de seu tempo, pelas características de sua escrita, em muitos aspectos ele antecipa ou levanta questões que ainda fazem parte do nosso tempo. Em tempos de twitter, whatsapp e comunicação instantânea, muitas vezes irrelevante, Marcial tem muito a nos dizer. Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, do consumismo, da superficialidade, do exibicionismo, da cultura da imagem, do culto ao corpo, do bombardeamento da mídia, do fakenews, do culto às celebridades e da fama instantânea. Vários aspectos de sua obra também se inserem no contexto atual de intolerância e censura.

Em seus versos, Marcial propaga uma conduta crítica, provocadora e demolidora dos homens do poder. Ao mesmo tempo sobreviveu trabalhando para imperadores. Como essa contradição aparece em sua poesia?
Marcial é contraditório em muitos aspectos, complexo, humano, e sua poesia exemplifica isso. Ele é capaz, num epigrama, de ser terno e emocionante, e no seguinte chulo e inconveniente. É o mestre do insulto cômico. Ele também é um puxa-saco, e parece saber disso. Durante sua carreira ele escreveu 90 poemas apoiando o imperador Domiciano, pedindo favores, e muitos críticos futuros não o perdoariam por isso. Ele gosta de chocar, de causar uma impressão, seja qual for. Não podemos nos esquecer que ele é um comediante, um satirista. Marcial estabelece essa recepção contraditória para sua poesia como no estilo "falem mal, mas falem de mim".

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - Boca do inferno de Roma
| Foto: Reprodução



Serviço:
"Epigramas"
Autor – Marco Aurélio Marcial
Editora – Ateliê Editorial
Tradução, notas e posfácio – Rodrigo Garcia Lopes
Páginas – 224 (edição bilíngue)
Quanto – R$ 82

[left]Fragmentos:


XLIII

Enterrou no campo, Fíleros, suas sete mulheres.
Isso é o que eu chamo de terra produtiva.


LXXVII

Exige que eu te dê de graça meus livrinhos, Tuca.
Não vai dar: você quer algo pra vender, não pra ler.


XLVII

Quando a turma da toga grita "Bravo!", Pompônio,
Não é pro seu discurso, e sim pro seu jantar.


XIII

Os ricos, Auto, lucram até com a raiva:
Odiar sai bem mais barato que dar.


LXXXI

Pobre hoje, Elimiano, amanhã também.
A riqueza só é dada a quem já tem.

(Fragmentos de "Epigramas", de Marco Aurélio Marcial)[/left]

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