O absurdo pode ser encontrado em qualquer lugar. Na geladeira da cozinha, na fila do correio, na prateleira do supermercado, atrás da porta do banheiro, no ponto de ônibus da esquina, dentro do pote de açúcar. Em seu novo livro, ''Ódio Sustenido'', o escritor paulista Nelson de Oliveira transforma em literatura uma ampla gama de absurdos cotidianos.
Lançado pela editora Língua Geral, o livro reúne 13 contos banhados de situações onde a ironia e o humor atuam como elementos principais. Nelson de Oliveira realiza pequenos recortes em amplas histórias e faz desses recortes narrativas completas que sugerem contextos mais amplos. O livro recebeu esta semana o Prêmio Clarice Lispector 2007, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional à melhor coletânea de contos publicada no ano.
Autor de obras como ''Naquela Época Tínhamos um Gato'' (1998), ''Subsolo Infinito'' (2000), ''O Filho do Crucificado'' (2001) e ''A Maldição do Macho'' (2003), também organizou duas emblemáticas antologias: ''Geração 90: Manuscritos de Computador'' e ''Geração 90: Os Transgressores''. Dois volumes que geraram uma acirrada polêmica e se tornaram referência da nova literatura brasileira produzida no final do século 20.
A seguir, Nelson de Oliveira fala sobre seu novo livro de contos.
Os contos de ''Ódio Sustenido'' focalizam o lado absurdo da realidade cotidiana. Você considera que a realidade se tornou tão absurda quanto a própria ficção?
A realidade, pra mim, geralmente é tão absurda e irreal que chega a ser cômica. É a partir dessa percepção que eu gosto de construir minhas narrativas sobre o alucinado mundo contemporâneo. Por razões diversas, minha realidade sempre provoca o sorriso e o riso. Essa coletânea traz treze contos marcados pelo humor e pelo nonsense, sobre política, carnaval, periferia, ciberespaço, André Breton, preconceito, ódio e amor. Todos esses contos, em maior ou menor grau, representam de maneira jocosa a sociedade em que vivemos. Os grandes estudiosos desse tema, entre eles Freud, dizem que o humor é o remédio mais eficaz que a nossa consciência encontrou contra a depressão que a certeza da morte sempre produz.

Em alguns textos do livro você incorpora a linguagem como parte da forma narrativa. Qual seu interesse nessa prática?
Meus contos procuram os leitores bem-humorados, os leitores que apreciam os mais irreverentes torneios de linguagem. Na minha literatura, a linguagem é o alfa e o ômega. O conto ''O Fantasma da Máqiuna'', por exemplo, mostra, por meio da contaminação léxica, a realidade virtual de dois amantes que se encontram e se perdem no ciberespaço. Eu também uso muito as figuras de linguagem geralmente empregadas em poemas, como a anáfora e a aliteração. O conto ''Treze Razões Para Não ir Para a Avenida'' é um bom exemplo disso.

Como escritor, você trabalha com narrativas curtas e narrativas longas, contos e romances. Que fator determina sua escolha entre uma forma e outra?
Essa escolha ocorre de maneira intuitiva, quase aleatória. Eu vivo tendo idéias para novas narrativas. Minha mente não pára um segundo sequer. Toda semana surgem na minha cabeça três, quatro novas histórias querendo ser escritas, mas é claro que eu não tenho tempo pra me dedicar a todas elas. Então eu procuro ser muito seletivo. Só aceito escrever as idéias mais intensas, mais carregadas de afeto e imagens poéticas. Se determinada idéia vai dar origem a um conto ou a um romance, eu só saberei quando começar a escrever. Somente depois de fazer essa escolha - narrativa curta ou narrativa longa - é que também poderão ser definidas a técnica ficcional, a abordagem literária e a minha disciplina na frente do computador.

Já se passaram vários anos desde a polêmica sobre a ''Geração 90''. Qual a visão você tem hoje sobre a obra e toda a polêmica gerada por ela?
Por conta das duas antologias que organizei, reunindo o melhor da prosa brasileira surgida na virada do século, até hoje eu sou convidado para debates e mesas-redondas que tratam desse tema. Recentemente estive em Buenos Aires participando, ao lado de brasileiros e argentinos, de uma mesa intitulada ''A Palavra 'Geração' Ainda Incomoda?'' Eu continuo usando a etiqueta Geração 90 (assim mesmo, sem as aspas), porque o conceito de geração literária é muito importante no meu sistema crítico. Mas é claro que respeito os escritores e os críticos que preferem passar sem ele, porque eu acredito que no campo da cultura não deve haver uma única verdade absoluta. O conto ''Na Fila do Correio'' fala dessa necessidade de pluralidade conceitual e reflexiva. No campo da cultura várias verdades antagônicas devem coexistir, para que haja riqueza intelectual.

Você acaba de receber o Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, por ''Ódio Sustenido''. É sempre bom receber um prêmio?
Esse tipo de reconhecimento, junto com as resenhas e os ensaios críticos publicados na imprensa, além dos comentários que os leitores me enviam por e-mail, é muito importante pra mim. Eu vivo num país em que 75% da população é de analfabetos plenos e analfabetos funcionais. Eu não tenho vinte mil, dez mil leitores, porque minha literatura pede leitores sofisticados, familiarizados com a ironia e o nonsense. Por isso os prêmios e os comentários positivos na imprensa e fora dela são tão importantes para que eu continue escrevendo.

Fragmento do conto 'Páscoa Vermelha' que integra o livro 'Ódio Sustenido' de Nelson de Oliveira
(...) Confusão da grossa.
O Natal escapou por debaixo da lona e o Dia das Mães não disse nada.
- Onde é que estavam os seguranças?! - gene o gerente.
- No pôquer com os palhaços, na jaula dos leões - delata o Carnaval.
Simplesmente ergueu a lona e caiu no mundo, o sagrado sacripanta. Fugiu do picadeiro enquanto todos prestavam atenção na Páscoa, que engolia sapo e pagava mico no trapézio.
Agora quem é que vai vender pipoca? Amendoim torrado? Bexiga? O filho-da-puta era bom de barganha, empurrava até binóculo pra cego, violino pra maneta.
Quem é que vai faturar, manter o circo vivo? Que vai ser de todos os Dias? O dos Pais, o dos Namorados, o de Finados?
Com a fuga do Natal os negócios vão parar no fundo do poço.
Vamos ter que cortar pela metade o preço do ingresso, a ração do Ano Novo, a quantidade de tortas na cara do estimado público.
(...) Por isso, senhora e senhores, esse Natal que aí está, esse Natal que os governantes querem nos impingir, esse Natal suado, exausto e em frangalhos que acaba de chegar, ouçam bem, esse Natal é falso.
- Como assim, falso?, baba o gerente do circo.
- É paraguaio. Pelo menos é o que está no jornal, alerta o Dia de Corpus Christi.
Esse Natal que ora se apresenta é na verdade a Páscoa comunista: a Páscoa vestida de vermelho.
Alerta à comunidade: no vermelho saco que ela traz nas vermelhas costas não há nada, só o Dia das Mães, o dos Pais, o dos Namorados, o do Trabalho, o de Finados e os outros dias vermelhos de sangue e ódio enrustido, todos de arma em punho, para o caso da vermelha Páscoa se arrepender de mais este pecado rubro e resolver entregar a farsa.
Viram só? Não acreditem em tudo o que vocês compram.


SERVIÇO
- ''Ódio Sustenido'' de Nelson de Oliveira, Editora Língua Geral (www.linguageral.com.br), 88 páginas, R$ 27.

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