O título diz quase tudo: ''Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios''. Dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, o filme teve sua estreia nos cinemas na última sexta-feira e o grande assunto foi uma cena de nudez da atriz Camila Pitanga, que interpreta a personagem principal, Lavínia. Aos marmanjos descontrolados ela matou a assunto com as seguintes palavras: ''Não tirei a roupa, mostrei a alma da personagem''.
O filme é uma adaptação do romance homônimo do escritor paulista Marçal Aquino. Lançado originalmente em 2005 pela editora Companhia das Letras, trata-se de um dos melhores livros de autor. Aproveitando a estreia da versão cinematográfica a editora está recolocando a obra nas livrarias a preço promocional.
''Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios'' é uma história de amor que segue numa única direção: a ruína. Não se trata daqueles amores que conduzem os amantes à felicidade, mas aquele tipo de paixão que destrói os amantes e tudo a sua volta. A lendária paixão destruidora.
O romance é narrado por um fotógrafo chamado Cauby que se recupera de um linchamento numa pensão de uma pequena cidade de garimpeiros do interior do Pará. Todo quebrado e cego de um olho, vive os dias na varanda da pensão fazendo apenas três coisas: relembrando os acontecimentos que o deixaram no deplorável estado em que se encontra; ouvindo as histórias de amor platônico de um dos hóspedes do lugar; lendo um livro teórico sobre as relações amorosas escrito por um hipotético psicanalista chamado Schianberg. A narrativa é construída através de uma sucessão de cortes de tempo e histórias paralelas.
Cauby chegou ao lugar com o objetivo de fazer um livro retratando as prostitutas que vivem na região do garimpo. O drama começa quando ele conhece Lavínia, esposa de um pastor que procura tirar o demônio da população miserável. Uma paixão incontrolável une os dois numa libidinosa fúria implacável. Uma paixão avassaladora cujo único destino caminha ao trágico.
Lavínia é a grande personagem do romance. Uma mulher que carrega dentro de si duas personalidades, a santa e a safada. Recolhida da rua pelo marido pastor, não consegue se separar dele. Acolhida por Cauby, não consegue abandonar o amante. Um clássico conflito que ganha novas proporções demolidoras a cada passo. Louca e lúcida, Lavínia representa a mulher em eterno conflito entre dois pólos. Vítima das situações mais adversas e violentas, figura que ainda não conseguiu desenvolver sua própria identidade em estado de segurança.
Ao mesmo tempo que ''Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios'' é uma história de amor que instaura ruína, também é uma história de redenção amorosa. Parte do pressuposto de que ''nenhuma vida está completa sem um grande desastre''. A aponta para uma lógica onde só a ruína é capaz de gerar o ímpeto da construção.
Marçal Aquino, autor de ''O Amor e Outros Objetos Pontiagudos'' (Geração Editorial, 1999), ''Faroestes'' (Ciência do Acidente, 2001), ''O Invasor'', (Companhia das Letras, 2002), ''Famílias Terrivelmente Felizes'' (Cosac Naify, 2003), ''Cabeça a Prêmio'' (Cosac Naify, 2003), entre outros. Atuou como roteirista em mais de uma dezenas de filmes. No próprio ''Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios'' atuou como co-roteirista e afirma que livro e filme são coisas completamente diferentes. Duas obras diferentes.
A ideia de chegar ao fim não seria tão trágica como a normalidade apresenta. A coragem de caminhar em direção à ruína, à destruição, em nome da paixão, seria apenas a consequência de uma rebeldia da vida diante das gavetas organizadas da sociedade e suas regras de preservação.
O título diz quase tudo.

Serviço:
- Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios
Autor - Marçal Aquino
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 232
Quanto - R$ 34,00

Fragmento:
Têm sido assim meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de um ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda a mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto de devoção. Para viver num estado de excitação permanente, vedado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar.
Não sei que nome você daria a isso.
Bem, não importa muito, chame do que quiser.
Eu chamo de amor.

(Fragmento de ''Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios'', de Marçal Aquino)

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