Um carro. Duas mulheres bonitas. Um mar de estradas. Destino indefinido. Vários escritores e cineastas juntaram tudo isso numa obra. Às vezes trocando mulheres bonitas por homens feios, outras vezes trocando o carro por motocicletas. Um espécie de gênero batizado pelos norte-americanos de "road novel".
Em seu novo romance, "Todos Nós Adorávamos Caubóis", a escritora gaúcha Carol Bensimon coloca o coração no asfalto para criar uma road novel pelas quebradas do Rio Grande do Sul. Nada de estradas principais passando por grandes cidades. Apenas as piores estradas que atravessam pequenos e quase desertos vilarejos desprovidos de qualquer elemento turístico.
A obra traz a história de Cora e Julia, duas amigas que, após anos sem se falarem, decidem colocar em prática um velho sonho: percorrer de carro o sul do Brasil. Num velho carro sem nenhum glamour, elas partem por estradas periféricas que cortam pequenas cidades perdidas no tempo.
Na verdade a viagem é apenas o pano de fundo para a reconstrução de uma história de amor. Cora e Julia mantinham uma relação amorosa secreta durante a faculdade e, de uma hora para outra, o destino as espalha pelo mundo. Julia segue para o Canadá para terminar os estudos e Cora vai para a França com o mesmo objetivo.
Uma reconstrução amorosa nada fácil para duas garotas que vivem em mundos emocionais diferentes. Cora já definiu seu interesse por mulheres. Já percebeu que fica com garotos "por inércia" e com garotas "por encantamento" e não está mais disposta a esconder do mundo suas preferências. Julia, ao contrário, ainda não atingiu tal maturidade. Vive dividida entre os namorados e o amor secreto com Julia e não está disposta a mostrar ao mundo sua intimidade.
Duas garotas unidas em carícias, amores e desejos, mas habitando mundos sentimentais distintos. Esse é o elemento sutil abordado por Carol Bensimon que dá ao romance algo mais do que uma aventura pelas estradas. Aventura que se revela como desculpa para não apenas uma reconstrução amorosa, mas a construção de uma relação mais sólida, não mais juvenil e inconstante.
Ao longo da viagem a narrativa apresenta as vidas das duas personagens desde a infância, os dramas familiares e os traumas de todos os tipos. A existência de Cora e Julia é passada a limpo e as sujeiras lentamente jogadas para fora da janela. As clarezas são deixadas de lado para que as subjetividades indiquem tudo aquilo que não pode ser nomeado.
"Todos Nós Adorávamos Caubóis" é uma exposição de dramas sem explosões. A docilidade e a singeleza ocupam o lugar das rupturas exasperadas e destruidoras. O comedimento é utilizado para tirar da paixão seu caráter tempestivo e bombástico. O enfoque está em conferir um caráter calmo e compreensivo para a ideia de amor, mesmo que imerso no universo da complicação.
Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre em 1982. Pertence à nova geração de escritores brasileiros que vem recebendo atenção especial das grandes editoras. Publicou seu primeiro livro, o volume de contos "Pó de Parede" em 2008. Seu primeiro romance, "Sinuca Embaixo D’água" foi lançado pela Companhia das Letras em 2009.

Serviço:
"Todos Nós Adorávamos Caubóis"
Autor – Carol Bensimon
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 192
Quanto – R$ 37 e R$ 26 (e-book)

Naquele preciso instante, desconsidero o fato de que podem existir diferenças nas nossas expectativas ou no entusiasmo de cada uma em relação à outra, para então resumir tudo a um simples embate entre esconder e exibir. Sim, fazia sentido, eu queria mostrá-la mesmo com um grande prêmio, um troféu, se essas eram as palavras postas na minha boca, mas isso acontecia justamente porque tinha sido um bocado difícil de ganhar, e justamente porque ganhar era tudo o que eu desejara nas últimas semanas. De qualquer maneira, eu admitia que uma parte de mim se dedicava a deixar os outros confusos. Era meu lado meio adolescente rebelde que ainda não havia se apagado de todo. Outra muito maior, no entanto, estava apenas a fim de ter uma vida normal. Isso incluía demonstrações públicas de afeto. Quem poderia me culpar? Seguindo esse raciocínio, a verdadeira falha de caráter estava não em mim, mas em Julia; enquanto eu queria exibi-la (logo sentia orgulho dela), Julia preferia me esconder (logo, sentia vergonha de mim). Retraçar as razões dessa vergonha era, nesse ponto, insignificante. Tanto fazia a forma como ela fora criada, e por quanto tempo teve que frequentar a igreja aos domingos, e se seu ideal romântico se formou e permaneceu inalterado desde a primeira Barbie e o primeiro Ken. Nada disso mudava o fato de que, para todos os efeitos, ainda que ela me empurrasse para o meio das suas pernas, cravasse as unhas em mim, gritasse, deitasse a cabeça na minha barriga depois, nós continuávamos sendo tão somente boas amigas. (Fragmento de "Todos Nós Adorávamos Caubóis" de Carol Bensimon)
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