LEITURA - Batalha de gerações
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de abril de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Algumas obras trazem duas histórias. Uma seria aquela escrita em suas páginas, com enredo e personagens atuando no palco da ficção. Outra aquela escrita pelos leitores, com o livro passando de mão em mão, gerando atitudes e impulsionando pensamentos.
''Pais e Filhos'', romance do escritor russo Ivan Turguêniev é um desses livros. Quando foi publicado originalmente em 1862, uma série de revoltas e atentados tiveram início na cidade de São Petersburgo. Inspirados na conduta do herói do romance - um jovem chamado Bazárov -, grupos rebeldes colocaram em prática posições políticas radicais incendiando casas, estabelecimentos e instituições.
Os componentes desses grupos receberam o rótulo de ''niilistas''. Isso porque o herói de ''Pais e Filhos'' era assim chamado por suas posições diante da vida e da sociedade. Uma postura filosófica que ganhou força no século 19, o niilismo apresentava um ceticismo brutal em relação aos valores tradicionais, morais ou sociais. A negação incisiva do absoluto era considerada uma chave para a abertura das portas da experiência do real. Fiódor Dostoiévski, tratou do niilismo numa famosa e clássica frase: ''Se Deus não existe, tudo é permitido.''
''Pais e Filhos'' - que acaba de receber sua primeira edição brasileira com tradução realizada diretamente da língua russa através da Cosac & Naify Edições - narra a história de dois jovens amigos recém formados, Bazórov e Arkádi, que empreendem viagens pelo interior da Rússia com o objetivo de visitar suas respectivas famílias.
Em suas estadias familiares, acirradas discussões são travadas graças às idéias de Bazórov, também abraçadas por Arkádi. Para ele, as relações humanas e sociais estão todas desgastadas e devem ser negadas. Praticar o nada e esperar pelo nada seria a melhor postura diante do fracasso de qualquer tipo de tentativa.
As discussões são verdadeiras batalhas de idéias onde conflito de gerações, de classes sociais e de emoções são os elementos principais. Bazórov, defende a idéia de que sua jovem geração não deve viver de acordo com os princípios da geração de seus pais. E que as condutas devem ser radicalizadas para que a vida seja plena em liberdade.
Para uma leitura mais abrangente de ''Pais e Filhos'' é preciso levar em conta o contexto em que o romance é ambientado. Turguêniev fala exatamente de um período da história russa em que o czarismo outorgou o fim da servidão dos camponeses - que deixaram de ser propriedade dos donos de terra para se tornarem empregados. Um período de conflitos e de significativas mudanças de papéis sociais.
Ivan Tuguêniev (1818 - 1883), escritor era um atento observador desse processo e o estendeu para um âmbito próximo do existencial. Nascido no seio de uma família aristocrática, para passou grande parte de sua vida viajando por países da Europa. Apesar de sua aristocracia, foi um dos grandes amigos do anarquista Michael Bakunin - ajudando-o inclusive a fugir da Rússia num momento político perigoso. Acolhido pelo meio literário europeu tornou-se um dos grandes nomes da literatura russa do século 19 ao lado de Tolstói e Dostoiévski.
É interessante notar como o escritor manteve a coerência de idéias do herói de ''Pais e Filhos''. Até seu amigo, Arkádi, quando se apaixona, abandona as idéias niilista para constituir família. Bazórov, mantém-se fiel a suas posturas pautadas pelo inconformismo, pela não reprodução de condutas desgastadas.
Mesmo mantendo sua dignidade niilista, encontra um final trágico. Onde toda a força que esperava se estender através dos anos, vivendo de maneira íntegra as posturas que elegia como verdadeiras, é barrada pela sede insaciável. Um final que revela que os verdadeiros rebeldes nunca encontram água o suficiente para matar a sede.
Serviço:
- ''Pais e Filhos'' de Ivan Turguêniev, Cosac & Naify Edições, tradução e prefácio de Rubens Figueiredo, ensaios de Henry James e Ivan Turguêniev, 362 páginas, capa dura, R$ 42,00.


