Elas vivem limpando, vivem lavando. Casas, apartamentos, mansões e o que aparecer pela frente. Invisíveis quando não estão tirando sujeira e poeira das residências, as diaristas praticamente inexistem como personagens literários. Habitam numa espécie de limbo do verbo.
No romance "O Apocalipse dos Trabalhadores" o escritor angolano Valter Hugo Mãe retira as diaristas do limbo e coloca-as como personagens poéticos, como metáforas do mundo contemporâneo. Figuras tentando sair do inferno para colocar os pés no paraíso, entre a sobrevivência e a felicidade.
Narra a trajetória de Maria da Graça, uma diarista (em lusitano, "mulher-a-dia") de 40 anos levando uma existência apertada com grana apertada. Ao seu lado está a vizinha Quitéria, também diarista. Amigas, as duas vivem trocando figurinha sobre a vida enquanto estendem roupa no varal e esfregam o chão. Para aumentar a renda curta, atuam como carpideiras em velórios de defuntos desconhecidos. Faturam alguns trocados velando madrugada adentro.
Mulher de extrema simplicidade, Maria da Graça tem um sonho recorrente: está na porta do céu após ser assassinada pelo patrão. Está na porta do paraíso, mas não pode entrar. São Pedro, o guardião do céu, impede sua entrada em todas as variações do sonho. Cada hora cria um motivo para barrar a entrada da diarista. Situações irônicas e humoradas que culminam sempre em bate-boca e barraco.
A grande aspiração de Maria da Graça é morrer de amor. Uma tarefa complicada, pois ainda não conheceu o amor. Muito menos um sentimento amoroso digno de morte. A vida não lhe conferiu instrumentos necessários para isso, só brutalidade.
Casada com um rude marinheiro que aparece em casa a cada seis meses, Maria da Graça vive um caso sexual que se transforma em caso amoroso com Sr. Ferreira, seu patrão. Diante da visão da diarista totalmente voltada à sobrevivência, o sujeito a introduz no mundo das artes - coloca discos de Mozart para ela ouvir e declama poesias de Rilke em sua orelha.
A amiga Quitéria, que passa os dias seduzindo jovens operários da construção civil, pobres imigrantes de países do leste europeu, acaba se apaixonando por um deles, Andriy. O rapaz, que passou fome em seu país de origem, vive em Portugal agonizando pela falta de notícias da família.
A descoberta do amor nas duas mulheres é o ponto de partida para o sentido de "O Apocalipse dos Trabalhadores". Imersas na batalha pela sobrevivência, levando uma rotina dura, sem ilusões de ascensão social e econômica, o amor se transforma no paraíso em seus caminhos. Diante da percepção de que estão fadadas ao inferno da miséria, o amor é descoberto como salvação. Como porta de entrada para o céu, sem São Pedro selecionando quem entra e quem não entra.
Em "O Apocalipse dos Trabalhadores" Valter Hugo Mãe apresenta o amor como redenção da miséria. Não o amor idealizado, mas aquele que é descoberto quase por acaso através de sutilizas. E a capacidade de perceber esse amor, cabe somente às mulheres. Os homens, todos os personagens masculinos do romance, são totalmente incapazes de tal tarefa.
Ao lado de todo esse amor, sem colheres de açúcar, o pano de fundo retrata um Portugal (bem como os países do leste europeu) contando os centavos para não passar fome. Um dos personagens, por exemplo, é um vira-lata pulguento chamado "portugal". Um animal abandonado que recebe cuidados de Maria da Graça. Mais uma metáfora.
Apesar de ter nascido em Angola, Valter Hugo Mãe é um dos nomes de destaque da nova literatura portuguesa. Nasceu na cidade angolana de Saurimo em 1971 e ainda na infância se instalou em Portugal, onde vive até hoje. É autor de quinze livros de poesia e cinco romances, todos lançados do Brasil além de "O Apocalipse dos Trabalhadores": "O Nosso Reino" (editora 34, 2004), "O Remorso de Baltazar Serapião" (editora 34, 2006), "A Máquina de Fazer Espanhóis" (Cosac Naify, 2010) e "O Filho de Mil Homens" (Cosac Naify, 2012).
A escrita de Hugo Mãe não faz uso de letras maiúsculas. Em nenhuma situação. Mesmo no começo de frases e em nomes próprios. Até nos títulos das obras e sua própria assinatura. Mas a característica de sua literatura que realmente merece atenção é a condução verbal de sua prosa. Uma escrita com um ritmo narrativo diferenciado.

Serviço:
"O Apocalipse dos Trabalhadores"
Autor – Valter Hugo Mãe
Editora – Cosac Naify
Páginas – 192
Quanto – R$ 39,90


Fragmento: o são pedro tinha voz da agente quental e a maria da graça estava irritada. não me incomode, estou farta de para aqui vir e você nunca me atende. isso é o quê. pagamos todos esta porcaria e tenho os votos em dia, não hão de ver-me aqui eternamente. não era seguramente uma repartição pública, ou seria. ela pensava duas vezes, claro que havia de ser público tudo aquilo, construído à custa da invenção de todas as almas. o céu obviamente, tinha que obedecer a uma democracia perfeita, preparada para absorver toda a gente e caminhar até os mais aparentemente imprestáveis. o que seria aquilo se todas as pessoas se rebelassem e exigissem um melhor tratamento. até as almas tem de ser conferido o direito ao protesto, que estar-se morto não pode ser sinal de imbecilidade, pensava ela, é claro que estar morto é ainda pensar, pensar mais, porque tudo se decide para sempre, não se pode brincar com uma coisa assim. faça-se uma greve, uma manifestação, uma porcaria qualquer que obrigue essa gente a respeitar quem para cá vem só para ser desprezada. quero ser atendida, bem atendida, com resultados que se vejam e não me faça perder mais tempo, dizia maria da graça. o são pedro respondia-lhe, vá embora, parvalhona, não tem o que fazer. vá trabalhar. e ela dizia-lhe, maricas, tens voz de mulher, seu maricas. (Fragmento de "O Apocalipse dos Trabalhadores", de Valter Hugo Mãe)
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