LEITURA - Atmosferas poéticas
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de abril de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Se temos voz é para vazar sentimentos.
Parado é que o tempo cresce.
Viver é fácil: até os mortos conseguem.
A vida é um beijo doce em boca amarga.
A cinza voa, mas o fogo é que tem asa.
A lágrima plagia o oceano.
Não me basta ter um sonho. Eu quero ser um sonho.
Os fatos só são verdadeiros depois de serem inventados.
Cada coisa tem direito a ser uma palavra.
Frases como essas estão por todos os cantos de O Último Voo do Flamingo, novo romance do escritor moçambicano Mia Couto. A obra coloca a realidade e o universo fabular num mesmo plano, surpreendendo o leitor de maneira poética. Lançada pela Companhia das Letras, a edição mantém a ortografia portuguesa vigente em Moçambique.
A literatura de Mia Couto pode ser descrita, genericamente, como junção da atmosfera de autores como Guimarães Rosa e Gabriel Garcia Márquez. Tanto em seus romances como contos, o trabalho com a linguagem é marcante, envolvem tanto a recriação da oralidade cultural do sertão africano quanto a criação de palavras buscando um sentido mais rico. Associado a isso, em suas narrativas, o fantástico invade o real a ponto de deixá-lo atordoado de destino.
Em O Último Voo do Flamingo, Mia Couto narra os estranhos acontecimentos ocorridos numa pequena cidade do interior de Moçambique chamada Tizangara. No local, após a guerra de independência, soldados das Nações Unidas começam a explodir e virar fumaça sem nenhuma explicação.
Para Tizangara, é enviado um representante das forças de paz da ONU, com objetivo de esclarecer os acontecimentos. E um jovem do lugar é nomeado tradutor, para ajudá-lo nas investigações. Esse jovem, que precisa se livrar das lembranças como um assassino se livra do corpo da vítima, é o narrador do romance.
Os elementos realistas de O Último Voo do Flamingo terminam aí.Tudo mais é desenhado ao sabor de fábulas fantásticas que remetem a uma visão mítica da realidade. E a discussão, que num primeiro momento se apresentava localizada e particular, assume uma projeção universal continental da própria condição humana. A imagem dos soldados explodindo misteriosamente, por exemplo, é uma metáfora da existência de minas terrestres espalhadas pelo território do país.
Mia Couto nasceu em Beira, Moçambique, em 1955, filho de imigrantes portugueses. Biólogo de formação, trabalhou durante vários anos como jornalista. Estreou na literatura em 1983, com o livro de poemas Raiz de Orvalho.
Uma das características da literatura de Mia Couto está no fato de não abordar de maneira pedante sobre o antagonismo as questões raciais africanas oriundas do colonialismo europeu. Em suas história, o que interessa é a mítica do homem, não da cor de sua pele. Optando por um enfoque universal, sempre trabalhando com referências culturais de sua região, é um peculiar contador de histórias.
A vida é assim: peixe vivo, mas que só vive no correr da água. Quem quer prender esse peixe tem que o matar. Só assim o possui em mão. Falo do tempo, falo da água. Os filhos se parecem com água andante, o irrecuperável curso do tempo. Um rio tem data de nascimento? Em que dia exacto nos nascem os filhos?
Conselho de minha mão foram sempre silêncios. Suas falas tinham sotaque de nuvens.
- A vida é que é a mais contagiosa dizia.
Eu lhe pedia explicação do nosso destino, ancorados na pobreza.
- Veja você, meu filho, já apanhou mania dos brancos! Inclinava a cabeça como se a cabeça fugisse do pensamento e me avisava: Você que entender o mundo que é coisa que nunca se entende.
Em tom mais grave, me alertava:
A idéia lhe poise como garça: só com uma perna. Que é para não pesar no coração.
Ora, mãe...
Porque o coração, meu filho, o coração tem sempre outro pensamento.
Falas dela, mais perto da boca que do miolo. Certa vez, ela me puxou a sentar. Seus ares eram graves. E disse:
Ontem tive nem sei se foi um pensamento.
Pensou o quê?
Foi assim pouco mais ou menos: eu precisava não viver para lhe conseguir ver. Me está entender?
(Fragmento de O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto, escrito de acordo com ortografia vigente em Moçambique)
SERVIÇO
Livro O Último Voo do Flamingo, de Mia Couto, Editora Companhia das Letras, 230 páginas, R$ 36,00.


