Os homens sempre possuem vaidades em relação ao tempo. Desejam permanecer, desejam perpetuar. Querem deixar marcas no mundo, sonham com o eterno.
Acontece que o tempo possui suas próprias vaidades. Não deseja perpetuar quase nada. Almeja mudanças constantes e despreza a ideia de algo definitivo.
Em seu primeiro romance, "A Arte de Construir Ruínas", Adriano Garib demonstra como as vaidades do tempo são bem maiores que o próprio homem. E a sensação de vazio que aparece ao longo dos anos nada mais é do que um reflexo da eterna busca de superação das ruínas humanas.
"A Arte de Construir Ruínas", lançado pela editora Poligrafia, é um romance profundamente contemporâneo. Trabalha com a diversidade de vozes, formas narrativas variadas, estrutura fragmentária, faz uso de tempos múltiplos e descontínuos, aposta no vazio como complementos do enredo e faz do mal-entendido um elemento construtivo. A temática é inserida dentro da própria linguagem. A narrativa do autor se apresenta incorporada pela própria ideia de ruína.
O romance traz a história de Ângelo, um rapaz que abandona a família no interior para residir na capital. Grande admirador de ruínas, perambula pelas ruas caçando velhas construções reduzidas a destroços. Procurando conferir algum sentido à própria existência, passa a criar uma grande obra, que consiste em uma instalação que representa o conceito de ruína.
A obra, que Ângelo leva anos construindo no fundo do quintal de sua casa, é uma grande massa de elementos estéticos que, pelo desgaste da decomposição, revela as vaidades do tempo. Uma obra que não comporta espectadores, que nunca deve ser vista por ninguém – a ideia da arte a caminho da total invisibilidade.
Ângelo pode se apresentar como protagonista de "A Arte de Construir Ruínas", mas a narrativa também apresenta a história de outros três personagens que, cada um a seu modo, estabelecem algum tipo de contato com Ângelo pelas mãos do acaso. Tina é a proprietária de um café que Ângelo frequenta. Zilda é a dona da pensão na qual Ângelo residiu quando chegou à cidade. Francisco é um feirante dono de uma banca onde Ângelo compra tomates regularmente.
Cabe ao personagem Francisco a tarefa de contextualizar a existência de Ângelo, sua obra e suas implicações - o leitor pode chegar a supor que o próprio Ângelo é uma criação da narrativa de Francisco. Trata-se de um homem que literalmente nasceu na Lua. Seus pais eram astronautas da Nasa que viviam em uma estação espacial próxima da Lua. Após um acidente, o casal permanece anos e anos à deriva, esperando salvamento. Quando o resgate finalmente chega, encontra como único sobrevivente um bebê de seis meses. A criança torna-se uma espécie de atração de circo ao ser adotado por um casal de ingleses na Terra. Para proteger a criança, a Justiça intervêm e dá a guarda da criança à uma humilde família brasileira.
Em "A Arte de Construir Ruínas" tudo é apresentado através de vazios e fragmentos. Diálogos banais do cotidiano aparecem lado a lado de elaboradas reflexões. Há um vazio latente em cada personagem. E as reflexões recaem sobre o entendimento do vazio, não em sua superação.
Ruína pode ser entendida como algo que perdeu sua totalidade, que fracassou diante de um ideal de completude. Nesse caso, é justamente aquilo que falta que confere sentido à ruína. E esse sentimento de falta, de vazio, é o sentimento que permeia as histórias entrelaçadas em "A Arte de Construir Ruínas".
Adriano Garib nasceu no interior de São Paulo e viveu em Londrina ao longo das décadas de 1980 e 1990, onde atuou como ator no Grupo Delta e Armazém Companhia de Teatro. Autor de dezenas de peças teatrais, publicou parte de sua produção em "Teatro de Adriano Garib" (Atrito Arte, 2001). Residindo há anos no Rio de Janeiro, atuou em filmes como "Meu Nome Não é Johnny", "Tropa de Elite 2" e "Getúlio", e em novelas como "Duas Caras" e "Salve Jorge". Atualmente integra o elenco protagonista da série "Magnífica 70".
Por ser repleto de vazios, "A Arte de Construir Ruínas" é um romance em que o leitor tem a possibilidade de preenchê-los. As lacunas da narrativa representam as lacunas que uma ruína é capaz de despertar naquele que se coloca diante dela e a admira. Como um destino que não está lá, mas pode ser vislumbrado. Como um coração numa caverna escura.

Serviço:
"A Arte de Construir Ruínas"
Autor – Adriano Garib
Editora – Poligrafia
Páginas – 212
Quanto – R$ 50

A catedral está derretendo, pingando. Uma figura declara que a catedral é um monumento ao inacabado. Foi projetada por um arquiteto que teve a suprema pretensão de edificar uma ruína. Ele disse à sua equipe: vamos construir isso; alguém objetou: impossível; ele respondeu: exatamente; outro disse: não entendo; ele esclareceu: o objetivo é não concluir; disseram: você está louco; ele apenas sorriu e disse: mãos à obra. Apesar do espanto, todos se dedicaram de corpo e alma à construção da catedral. Anos e anos de trabalho ininterrupto e silencioso, muito suor, lágrimas e sangue. Quando o que parecia improvável começa a ganhar contornos, o arquiteto diz: parem. Todos se olham incrédulos. Aí está a nossa ruína, diz. E vai embora. (Fragmento de "A Arte de Construir Ruínas", de Adriano Garib)
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