LEITURA - As sombras da guerra
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de setembro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O escritor francês Louis-Ferdinand Céline (1894 - 1961) é uma figura polêmica dentro da literatura. Antes de publicar seu primeiro romance, ''Viagem ao Fim da Noite'', em 1932, era um desconhecido médico que ganhava a vida atendendo operários anônimos num subúrbio de Paris. Depois tornou-se o autor francês mais comentado da época.
Em pouco tempo o livro vendeu milhares de exemplares. Arrancou aplausos de intelectuais que viam sem sua obra o pensamento de um homem revolucionário, de esquerda. Uma legião de escritores passaram a considerá-lo o grande renovador da narrativa francesa, que vivia confinada a estilos caretas e acadêmicos.
Na sequência, durante a ocupação da França pelas tropas nazistas na Segunda Guerra Mundial, Louis-Ferdinand Céline publicou três panfletos anti-semitas, em que defendia idéias claramente racistas, que ganharam grande popularidade. Assim, o ''revolucionário'' da literatura tornou-se um autor ''reacionário'' e foi sumariamente carimbado com ''maldito''. Os originais de seu segundo romance, ''Morte a Crédito'', passou a ser recusado por sucessivas editoras.
Sem trabalho e jurado de morte pelas forças da Resistência em 1944, Céline decide partir para a Dinamarca, onde possui dinheiro de direitos autorais, na companhia da esposa e do gato de estimação. Passando pela Alemanha, é preso e obrigado a trabalhar como médico em Sgmaringen, uma ®MDBO¯®MDNM¯pequena cidade destruída pela guerra. Ali, os alemães confinam uma multidão de franceses colabores do nazismo que, perseguidos e jurados de morte, precisaram abandonar a França.
No meio desse caos, Céline começa a escrever seu terceiro romance, ''De Castelo em Castelo'', que a Editora Companhia das Letras acaba de publicar. Trata-se de um relato autobiográfico, memorialístico, onde o escritor expõe suas intermináveis injúrias corrosivas. Atirando para todos lados com os olhos vermelhos de indignação, coloca toda a humanidade num mesmo saco com a intenção de jogá-lo no rio mais profundo possível.
Em alguns trechos do texto, o narrador (o próprio Céline) enfrenta altas febres remanescentes de uma antiga febre amarela. O interessante é que a narrativa executada sob o efeito do delírio da febre, bem como aquela realizada em estado normal, é a mesma. Ou seja, o autor joga com o própria noção de indistinção entre razão e delírio. Não estabelece limites ou diferenças entre um estado e outro. Isso porque a própria realidade que está vivendo é humanamente absurda em qualquer situação. Em outras palavras, a guerra e suas sombras.
A grande preciosidade de Céline, presente em ''De Castelo em Castelo'' e em toda sua obra, está em ter criado uma linguagem própria, revolucionária, geradora de escândalo na época. Levou ao gênero romance a oralidade do dia-a-dia, gírias, expressões idiomáticas, elipses, neologismos e até incorreções. Tudo aquilo que fosse necessário para colocar a oralidade em primeiro plano. Além disso, sua narrativa está pautada na subversão dos padrões de pontuação. Céline elimina o ponto final e inunda o texto com pontos de exclamação e reticências produzindo o efeito de facas cortando insistentemente a narrativa, sem que ela perca a unidade.
Essa linguagem foi acolhida com entusiasmo por muitos romancistas. Diz a lenda, por exemplo, que o escritor norte-americano Henry Miller, após ler Céline, ficou atordoado e reescreveu completamente um dos seus grandes romance, ''Trópico de Câncer''. Na realidade, a inserção dos recursos da oralidade na tradição escrita era vista com sérias reservas, e os autores não se atreviam romper as normas linguísticas acalentadas pela crítica acadêmica. Céline teria incentivado tal possibilidade mesmo defendendo, paradoxalmente, posições políticas reacionárias.
''De Castelo em Castelo'' é o tipo de obra que deve ser lida levando-se em consideração o contexto histórico em que foi escrita e o qual retrata. A grande quantidade de referências de pessoas, personalidades, fatos e situações específica do contexto histórico da ocupação alemã e da resistência francesa na Segunda Guerra Mundial pode dificultar uma leitura mais abrangente. Mas isso é devidamente superado com a inserção de uma espécie de glossário no final do livro.
Para o leitor que nunca passou os olhos em Céline (cujo verdadeiro nome era Louis-Ferdinand Destouches), é recomendável deixar inicialmente de lado ''De Castelo em Castelo'', bem como ''Norte'' (Editora Nova Fronteira, 1985) e ''Morte a Crédito'' (Nova Fronteira, 1982) e devorar primeiro ''Viagem ao Fim da Noite'' (Companhia das Letras, 1994), sua grande e mais abrangente obra. Capaz de colar todas as sombras da humanidade num único homem.
Serviço:
''De Castelo em Castelo'', de Louis-Ferdinand Céline, Editora Companhia das Letras, tradução e apêndice de Rosa Freire d'Águiar, 438 páginas, R$ 52,00.


