Existe o amor e existem os símbolos do amor. As flores que um homem entrega a uma mulher podem simbolizar o amor que ele sente. Da mesma maneira que uma moeda pode simbolizar o amor que um comerciante tem pela riqueza.
Flores e moedas não são amor. Mas podem conter amor, podem significá-lo. E homens e mulheres sempre foram capazes de produzir diferentes símbolos para aquele que é considerado o sentimento primordial da humanidade.
A escritora indiana Gita Mehta, em "O Monge Endinheirado, a Mulher do Bandido e Outras Histórias de um Rio Indiano", elege os símbolos do amor como os elementos necessário para tentar entender o coração humano. Lançado em 1994 pela editora Companhia das Letras, o romance acaba de receber uma nova edição em formato de bolso.
O grande personagem da obra é o Narmada, rio sagrado da Índia que ao longo de milênios vem sendo objeto de peregrinações de quatro vertentes religiosas: hinduísmo, jainismo, sikhismo e sufismo. O Narmada não é apenas um rio, é quase uma divindade. Multidões seguem em direção de suas margens para purificar-se, para refletir e meditar desde o século 22 a.C.
O narrador de "O Monge Endinheirado, a Mulher do Bandido e Outras Histórias de um Rio Indiano" (cujo título original é "River Sutra" / "Rio Sutra"), é um burocrata funcionário público cansado da agitação das cidades. Contrariando tudo e todos, assume a gerência de uma pequena pousada situada no meio do mato, às margens do rio Narmada.
Seja conversando com os hóspedes ou com os peregrinos que perambulam pela região, o sujeito sempre ouve alguma história interessante. E essa passa a ser sua prática constante, procurar pessoa que possuem histórias. Relatos de vida onde o coração humano ocupa lugar de destaque.
A obra tanto pode ser considerada como romance como volume de contos. A narrativa de Gita Mehta segue a milenar tradição literária indiana onde histórias formam as contas de um colar, com um conto puxando outro, com uma história que guarda outra dentro de si. Quando alguém puxa o fio, as contas surgem uma após outra.
Entre os relatos, está o de um professor de música que adota como pupilo um menino cego e pobre que perambula pelas ruas. O garoto possui o dom do canto, mas não encontra ninguém capaz de adotá-lo e ensinar-lhe música. Após algumas aulas, o menino se torna uma revelação, a voz mais surpreendente do país. Mas, diante de uma plateia extasiada, ele acaba perdendo a vida. Um dos ouvintes passa a acreditar que se deus ouvir o menino cantando, diante de tanta beleza, não ouvirá o canto de mais ninguém. E assim, para que outros cantores também sejam ouvidos por deus, resolve simplesmente cortar a garganta do garoto.
Em outro relato, um arqueólogo que estuda as margens do Narmada, afirma não se interessar pela natureza sagrada do rio, apenas pela sua imortalidade. Ele explica sua abordagem da seguinte maneira: "O Narmada é o que chamamos de rio degradante. Tem uma corrente muito rápida, que erode seu leito, escavando a rocha cada vez mais fundo. Contudo, nunca mudou seu curso. O que vemos hoje é o mesmo rio visto por pessoas que viveram aqui há cem mil anos. Para mim, esse registro ininterrupto da presença humana num mesmo local é imortalidade."
A figura de um playboy milionário, que se transforma num monge jainista, aparece em outra história. Dono de uma fortuna incalculável, um belo dia o rapaz percebe a falta de sentido de sua existência e abre mão de tudo para se tornar um monge, mendigo e andarilho. O relato representa aquele momento em que as grandes descobertas interiores acontecem e mudam o caminho da vida.
O rapaz, como outros vários personagens do livro, passa por um tipo de transformação que se distancia do simbolismo do amor para se aproximar do amor em si. Flores e moedas não conseguem mais representar o sentimento. Mas os símbolos que fizeram da humanidade uma humanidade continuam tão fortes quando os sentimentos que os criaram.

Serviço:
"O Monge Endinheirado, a Mulher do Bandido e Outras Histórias de um Rio Indiano"
Autor – Gita Mehta
Editora – Companhia de Bolso
Tradução – Hildegard Feist
Páginas – 208
Quanto – R$ 19,90

Ofereço minha cabeça ao barbeiro, e ele se põe a cortar meus densos cabelos. À medida que as mechas molhadas caem no chão a minha volta, os monges recitam aflições que hei de suportar quando me tornar membro de sua irmandade. "Não pertencerás a nenhuma casta." "Serás insultado." "Serás acossado pelos cães." Meu pai chora, e ouço meu irmão tossir, tentando refrear a emoção enquanto o barbeiro me raspa a cabeça. "Dependerá de estranhos para satisfazer suas necessidades mais elementares." "Eles desprezarão a fraqueza que abusa de sua caridade." "Serás muito infeliz." O barbeiro termina de raspar minha cabeça, e verifico com a mão que ele deixou os cinco fios de cabelo necessários para a cerimônia de ‘diksha’. "Terás frio." "Fome." "Calor." "Sede." "Doença." É estranho tocar a pele nua de minha cabeça. Sinto-a arrepiar-se de medo, enquanto os monges recitam sua litania de aflições, preparando-me para o futuro. Olho para meu pai, mas ele desvia o olhar. Nenhum de nós pode fugir à realidade de minha renúncia, e agora não posso lhe dizer que devia tê-lo escutado. "Sentirás dor em tua constante caminhada." "Sofrerás solidão." "Chorarás por teus filhos." "Serás privado dos cuidados de qualquer mulher, para que ela não desperte teu desejo." (De "O Monge Endinheirado, a Mulher do Bandido e Outras Histórias de um Rio Indiano", de Gita Mehta)
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