LEITURA - As rosas da crueldade
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de agosto de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O mundo não é nenhum mar de rosas. Todos sabem disso. Talvez justamente por isso os jardins fiquem do lado de fora das casas. Homens e rosas não dormem sob o mesmo teto.
O escritor Dalton Trevisan, como bom observador do cotidiano, fez de sua literatura um retrato das situações desprovidas de rosas. Seu foco de interesse não está no modo como as pessoas olham as rosas, mas como jardins e espinhos olham para as pessoas.
''O Maníaco do Olho Verde'', novo livro de Trevisan lançado pela editora Record, traz uma série de contos que reforçam uma das principais características de sua literatura: a sofisticação do cru, a concisão do cruel. A realidade é revelada como uma eterna obsessão sem objetivos grandiosos, sem salto alto.
A maioria dos contos de ''O Maníaco do Olho Verde'' possuem uma mesma estrutura, textos constituídos por vozes revelando a verdade dos fatos a autoridades policiais ou jurídicas. Vozes que atuam como se estivessem diante de um sacerdote, no interior de um confessionário, procurando criar uma realidade maior, ou mesmo menor, que a própria realidade dos fatos. Vozes que executaram ou sofreram algum ato de violência.
O conto de dá título ao livro, apresenta a voz de um maníaco que não consegue controlar seus impulsos sexuais. Para satisfazê-los, abusa friamente de mulheres incautas. Em outros textos espalhados pelo livro, aparecem as vozes das vítimas do maníaco, revelando o outro lado da moeda. Essa idéia cria uma espécie de obra dentro da obra, narrativas isoladas que, quando colocadas lado a lado, se transformam numa única história.
A capacidade de concisão de Dalton Trevisan é simplesmente memorável. Não há nenhuma gordura em sua narrativa. Em alguns casos, nem mesmo pele ou carne. Em seus microcontos, por exemplo, que atingiram o ápice em obras como ''Ah, é?'' (Record, 1994) e ''Pico na Veia'' (Record, 2002), aparecem apenas os ossos. Nascido em Curitiba, em 1925, é um dos grandes nomes da literatura brasileira, detentor de uma linguagem original e instigante. Odeia ser fotografado e não concede entrevistas nem sob sete palmos de terra.
Os personagens que infestam ''O Maníaco de Olho Verde'', são transgressores do imperativo social. Desprovidos de qualquer tipo de sofisticação, são toscos como a miséria social é tosca e rude. Desprovidos de qualquer ideal de beleza, desejam apenas sobreviver na infernal chapa quente do dia-a-dia.
Dalton Trevisan sugere que um mundo cruel fatalmente gera pessoas cruéis. Um mundo onde não há mares nem rosas. Um lugar onde tudo é seco e árido. Um lugar onde a umidade só pode ser alcançada através da violência imediata. Talvez por isso os jardins fiquem do lado de fora das casas. Até mesmo fora das cidades. Homens e rosas definitivamente não dormem sob o mesmo teto.
Fragmento do conto 'O Maníaco do Olho Verde' de Dalton Trevisan
Basta ser mulher, só o que vejo. O assobio, só o que escuto. É uma doença, certo? O bruto que se empina aqui no meio das pernas. Corcoveia e relincha. De mim faz o que bem quer. Ordena, eu executo. Não consigo controlar.
Qual é uma? Qual é outra? Sou o último a saber. Pra mim todas iguais. Do rosto não lembro. Nem do dia.
Eu assumo que isso aconteceu. Sim, muitas. Não sei quantas. Um par delas. Certo, eu abuso. Mas não tomo dinheiro nem nada. Uma quis me dar o celular. Até a bicicleta nova, já pensou?
O punhal? Uma faquinha de cozinha, dessas de cabo de plástico. Certo. Vinte e seis anos, solteiro, eletricista. O arrimo de minha mãe. Se eu falho, quem cuida da pobre velha? Veja bem, ninguém pode contar o que eu faço. Mortinha de desgosto na mesma hora.
Não sei o endereço nem nada de tais moças. Eu não planejo. Só fico zoando a par da linha de trem. Bem cedinho, uma delas empurrava distraída a bicicleta azul. Pô, que cabeça a minha. Não é que havia esquecido o punhal?
SERVIÇO
- O Maníaco do Olho Verde
Autor - Dalton Trevisan
Editora - Record
Páginas - 130
Quanto - R$ 28


