Em alguns casos, quando o vencedor do Nobel de Literatura é anunciado, o leitor brasileiro experimenta uma sensação de vazio. Nunca ouviu falar do escritor vencedor. O leitor fica sabendo de sua existência a partir do anúncio do prêmio. E não encontra uma única obra do sujeito publicada no país.
O Nobel de Literatura de 2012 foi um desses casos. O vencedor anunciado, o chinês Mo Yan, era um ilustre desconhecido do leitor brasileiro. Nenhum livro disponível em livrarias ou sebos. Seu primeiro livro publicado no Brasil, "Mudança", chega somente agora às livrarias, lançado pela editoria Cosac Naify.
Publicado originalmente em 2010, "Mudança" é uma breve novela que mistura ficção e elementos autobiográficos de Mo Yan. Foi escrito sob encomenda de um editor indiano que desejava um texto sobre as grandes transformações ocorridas na China ao longo das três últimas décadas.
Mo Yan resolveu narrar a história de um colega de escola, He Zhiwu. Um rapaz que, após ser mandado embora da sala de aula pelo conteúdo de uma redação, abandona a escola, a família e a cidade parar ganhar a vida. Através da trajetória do personagem, o autor oferece elementos das transformações ocorridas na China a partir da década de 1970.
He Zhiwu e o narrador, que vivem numa pequena província de humildes agricultores, nutrem algumas paixões em comum. Uma delas é Lu Wenli, a garota mais bonita da escola - que esnoba devidamente ambos. A outra é um velho caminhão Gaz 51 de fabricação soviética, o único automóvel da região que cruza a pequena cidade a toda velocidade atropelando cachorros, porcos e galinhas. O sonho de prosperidade dos dois é um só: ser motorista de caminhão se casar com a linda e utópica Lu Wenli.
Ao caírem fora da escola, os dois seguem caminhos distintos. He Zhiwu cruza o país se dedicando a todos os tipos de trambiques. O narrador, igualmente sem grandes opções de futuro, entra para o exército chinês. Ao longo das transformações do país, um segue o caminho não oficial e torna-se milionário, outro segue o caminho oficial e torna-se escritor.
Em "Mudança", Mo Yan joga com o antagonismo da trajetória do comunismo-capitalismo chinês com bom humor, mas sem contundência. As interpretações não são evidentes, permanecem latentes no interior da narrativa enquanto ficção. A obra não traz as principais características da literatura do escritor segundo os críticos europeus: uma espécie de realismo mágico temperado com as milenares lendas chinesas.
Nascido como Guan Moye em 1955 na província de Shandong numa família de agricultores, adotou o pseudônimo de Mo Yan (literalmente "não fale" em chinês) desde seu primeiro texto publicado. Em relação à política de seu país, sempre manteve uma postura dúbia. Entre o clássico morde e assopra. É considerado o grande escritor oficial da China atual. Ao mesmo tempo, teve um de seus romances confiscado e proibido em seu país pelo cunho sexual da obra. Chegou a fazer uma retratação pública pela autoria do livro ("Big Breasts and Wide Hips"). Ironicamente é seu romance mais pirateado em território chinês.
Mo Yan parece ser um artista que não cria segundo as normas do Estado chinês, mas também não é um acirrado crítico do governo. Faz o jogo de rebelde em algumas situações e de conformado em outras. Um jogo que faz com que seus livros sejam lidos tanto na China quanto em dezenas de outros países. É considerado o escritor chinês mais traduzido das últimas décadas.
"Mudança" não é uma novela que contém grandes revelações. Uma história nem fria, nem quente. Devidamente morno como um chá deixado sobre a mesa entre uma conversa e outra. O destaque fica por conta do final da história. Numa única frase, Mo Yan encerra a narrativa com um golpe. Um golpe que salta do banho-maria e sai pela janela.

Serviço:
"Mudança"
Autor – Mo Yan
Editora – Cosac Naify
Tradução – Amilton Reis
Páginas – 128
Quanto – R$ 29,90

Fomos primeiro à praça e entramos na fila para tirar uma foto no Portão da Paz Celestial. Depois entramos na fila do Mausoléu do Presidente Mao para prestar nossas reverências. Enquanto contemplava o presidente deitado em seu sarcófago de vidro, lembrei de quando chegara a notícia de sua morte dois anos antes. A sensação fora de que o mundo desmoronava e o chão se abria sob nossos pés. Acordamos para o fato de que não há imortalidade neste mundo. Nem em sonho imaginávamos que o presidente Mao morreria um dia, mas acontecera. Acreditamos, naquele momento, que a morte dele seria o fim da China. Dois anos mais tarde, o país não apenas sobrevivera como melhorava a cada dia. As universidades voltaram a fazer exames e admissão, proprietários de terras e camponeses ricos deixaram de ser estigmatizados, agricultores passaram a ter mais grãos em casa e até os bois das equipes de produção engordaram. Mesmo uma pessoa como eu já podia tirar uma foto na Praça da Paz Celestial e ver de perto o corpo embalsamado do presidente. Numa loja de departamentos de Xidan comprei três bolsas pretas de couro sintético, uma para mim e duas para meus companheiros de armas. Comprei também um lenço cor-de-rosa para minha noiva. Ela me fora apresentada por um parente distante quando eu trabalhava na fábrica de processamento de algodão. Eu titubeava por um momento e ele se zangara: "Deixe de bobagem! Tem um porco cevado fuçando na sua porta e você acha que é um vira-lata arranhando a soleira!". (Fragmento de "Mudança" de Mo Yan)
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