O mar sempre foi habitado por mistérios que tumultuaram a alma dos homens no passado. Com o passar dos séculos, os monstros imaginários foram substituídos pelos monstros da psique. Joseph Conrad (1857 – 1924) foi um dos escritores que entrou de cabeça na tarefa de retratar esses monstros mentais que atordoavam os homens que respiravam as águas dos mares.
Joseph Conrad escreveu dezenas de histórias inundadas pela maresia, entre elas a novela "O Passageiro Secreto" (também conhecida como "O Hóspede Secreto"). Uma nova edição da obra acaba de ser lançada pela editora Cosac Naify em formato de livro-objeto.
Apesar da temática, "O Passageiro Secreto" não narra uma aventura marítima propriamente dita, mas uma narrativa de suspense carregada de elementos psicológicos. Desde as primeiras páginas, o autor instaura uma sombra nebulosa que se propaga por toda a narrativa. Algo como uma misteriosa febre do mar que invade o personagem narrador e ocupa sua mente com ações improváveis.
Tudo começa quando o capitão de um navio, num passeio noturno e solitário ao convés, encontra um náufrago. Ao resgatá-lo, percebe que o sujeito é muito parecido com ele, quase um duplo. Uma misteriosa relação se estabelece entre os dois, como se um fosse cópia do outro.
O náufrago afirma que, após matar um homem, fugiu do navio em que trabalhava jogando-se ao mar. O capitão, sem saber muito a motivação, esconde o homem em sua cabine na tentativa de salvá-lo da perseguição e condenação. Em sua defesa, o náufrago afirma que matou para salvar seu navio e toda a tripulação durante uma terrível tempestade.
A cumplicidade que nasce entre os dois homens é permeada por mistérios e vazios. A impressão causada pela narrativa é de que os dois tornam-se um só para, em seguida, voltarem a ser dois em segurança e distância. E o elemento misterioso não recai sobre forças sobrenaturais, mas sobre a força de elementos psicológicos. Tudo ambientado na atmosfera de navegação marítima do século 19.
O grande destaque da edição de "O Passageiro Secreto" está no projeto gráfico que transforma a obra em livro-objeto. As páginas possuem uma dobra diferenciada em folhas duplas onde a parte interna simula o azul do mar. A parte externa das folhas é formada por dobras ocultas na lateral externa, espaço que esconde uma sequência de desenhos. Imagens que não funcionam como ilustração, mas como uma narrativa paralela ao texto.
As soluções gráficas, desenvolvidas por Eliane Ramos e Flávia Castanheira, subvertem o padrão usual da apresentação do papel no formato de páginas em livro. O leitor tem a oportunidade de ler o texto, o projeto gráfico e livro como objeto estético.
Joseph Conrad (Józef Teodor Konrad Korzeniowski) nasceu em 1857 na Polônia, numa época em que o país vivia sob o domínio do império russo. Com 16 anos de idade, apaixonado pelo mar, abandonou a Polônia e caiu no mundo trabalhando como marinheiro. Após atuar como marinheiro em navios franceses, entrou para a marinha mercante britânica, onde permaneceu por 15 anos.
Em 1886 conseguiu a cidadania britânica e elegeu a língua inglesa como sua língua literária. Autor de duas dezenas de títulos, abarcando contos, novelas e romances, a grande maioria de suas histórias está ambientada no mundo marítimo dos navios e nos homens do mar. Entre suas obras estão "Lord Jim" (1900) "Nostromo" (1904) e "O Agente Secreto" (1907). Mas sem dúvida, sua obra mais conhecida e considerada sua obra-prima, "O Coração das Trevas", ocupa lugar de destaque. Publicada originalmente em 1899, foi transformada em filme por Francis Ford Coppola em 1979, com o título "Apocalypse Now", e alucinadamente ambientada durante a Guerra do Vietnã.
Em "O Passageiro Secreto", Joseph Conrad coloca em prática um recurso narrativo que passou a ser considerado elemento da modernidade. Quando o narrador descreve algo (e a literatura de Conrad é pautada pela descrição), tudo parece realista, com todo tipo de detalhe necessário. Mas, na verdade, aquilo que ele descreve, é sua mente olhando para aquilo que pretende descrever. A real descrição não reside sobre o objeto, mas no processo de como a mente, ou a psique, olha o objeto que pretende ler. E o grande desafio reside em ler o interior do homem. Nem sempre em seus momentos de solares, mas em alguns de seus momentos de escuridão.

Serviço:
"O Passageiro Secreto"
Autor – Joseph Conrad
Editora – Cosac Naify
Tradução – Sergio Flaksman
Ilustrações – Adrianne Gallinari
Páginas – 56
Quanto – R$ 49,90

E não por contrição, de forma alguma, mas automaticamente, por assim dizer, resolvi recolher eu mesmo a escada. Essas escadas de corda costumam ser leves e fáceis de recolher, mas meu puxão vigoroso, que devia tê-la devolvido voando ao convés, limitou-se a me desequilibrar com uma resistência totalmente inesperada. Que diabos!... A escada recusava a se mover, e meu espanto foi tal que fiquei ali paralisado, tentando explicar aquilo para mim mesmo, como faria o imbecil do meu imediato. No fim das contas, claro, debrucei-me na amurada. O acostado no navio formava um cinturão opaco de sombra acima do brilho de vidro escuro das águas do mar. Mas vi na mesma hora uma forma clara e alongada boiando muito perto da escada. Antes que pudesse adivinhar o que era, um clarão breve e atenuado de luz fosforescente, que parecia emitido pelo corpo nu de um homem, cintilou na água imóvel com o efeito esquivo e silencioso de relâmpagos de verão num céu noturno. Com um arquejo de espanto, vislumbrei um par de pés, as pernas compridas, as costas largas e lívidas imersas até o pescoço em uma luz esverdeada que lhe conferia um tom cadavérico. Uma das mãos, à flor d’água, prendia-se ao primeiro degrau da escada. O homem parecia inteiro, exceto pela cabeça. Um cadáver sem cabeça! O charuto despencou da minha boca aberta produzindo um som discreto ao cair na água e um chiado perfeitamente audível no silêncio absoluto de tudo que o céu cobria. (De "O Passageiro Secreto", de Joseph Conrad)
mockup