Cabelo e unha.
Duas coisas que continuam vivas depois que o sujeito morre. Mesmo sob sete palmos de terra, cabelos e unhas continuam seu curso no mundo dos vivos. Continuam aptos para uma visita a qualquer alegre salão de beleza.
Cabelo e unha fingem não reconhecer a morte. Não seguem para o mundo dos mortos, permanecem no mundo dos vivos onde sempre cresceram.
As relações entre cabelo e morte estão na essência de ''História do Cabelo'', novo romance do escritor argentino Alan Pauls que a editora Cosac Naify acaba de lançar. Para compor essas relações pautadas por metáforas, o autor escreve sobre as aventuras de um sujeito obcecado por tudo aquilo que acontece no universo couro cabeludo.
Um personagem sem nome que está condenado a pensar no cabelo todo santo dia. Várias vezes ao dia. Visitar salões de beleza, imaginar um corte, lavar, pentear, deixar crescer, cortar, alisar, enrolar, aparar as pontas, mudar o corte, conhecer novos cabeleireiros e muito mais.
Para ele, tudo passa pelo cabelo. Até o momento histórico em que vive na Argentina da década de 1970. Em plena violenta ditadura militar, ele deseja conquistar um cabelo revolucionário. Dotado de um cabelo disciplinadamente burguês, se esforça em conquistar madeixas rebeldes sem resultado convincente. Até que descobre o cabeleireiro ideal, aquele que realiza o corte dos sonhos. O corte que estabelece um pacto com o tempo.
Em ''História do Cabelo'' Alan Pauls elege o cabelo não apenas como elemento de identidade individual, mas como símbolo social e instrumento político. O cabelo muito próximo da reflexão filosófica. Aquilo que poderia ser considerado uma frivolidade básica, ou uma vaidade pueril, assume a forma de uma metáfora de um momento histórico, de um processo social.
A narrativa de ''História do Cabelo'' traz um desfile de reminiscências que quase elimina os limites entre a terceira e a primeira pessoa. Constituído basicamente de parágrafos longos, pontuados por pensamentos dentro de pensamentos, o estilo de escritura de Alan Pauls está pautada em apontar algo para dizer alguma coisa sobre outra coisa.
Esse processo narrativo que, em algumas situações pode parecer confusa, revela exatamente a clareza apagada pela exatidão da lógica das aparências. Um tipo de significado que poderia ser revelado pela parte menos visível das coisas: o viés.
''História do Cabelo'' é o segundo volume da trilogia idealizada por Alan Pauls que tem como objetivo desenhar um retrato das subjetividades da década de 70 da Argentina. O primeiro volume, ''História do Pranto'', publicado pela Cosac Naify em 2008, traz as reminiscências do mesmo personagem sem nome em sua face infantil. O próximo volume que encerra a trilogia, ''História do Dinheiro'', ainda está sendo escrito pelo autor e tem a publicação agendada para o final de 2012.
Ao unir simbolicamente lágrima, cabelo e dinheiro, pontuados nas divagações de etapas diferentes da existência de um mesmo personagem, a trilogia de Alan Pauls aponta para a possibilidade do olhar não em linha reta. O olho pode fazer uma curva, mudar de foco e retornar ao ponto original com novas informações.
No final de ''História do Cabelo'', o personagem principal realiza a opção que nunca realizou ao longo de décadas de vida. Ficar sem cabelos. A metáfora é clara: a morte é completamente desprovida de cabelos. Os ossos de um crânio são fatalmente pelados. Escandalosamente carecas.
Os cabelos aparecem simbolicamente como manifestação da vida. E não é sem sentido que os recém-nascidos surgem ao mundo, em sua maioria, totalmente carecas.
Mas nunca desprovidos de unhas.
Cabelo e unha.
Unha.
Serviço
História do Cabelo
Autor - Alan Pauls
Editora - Cosac Naify
Tradução - Josely Vianna Baptista
Páginas - 168 (capa dura)
Quanto - R$ 45,00
Fragmento:
Primeiro aprende aquilo que o crânio deserto de seu pai e seus irmãos está lhe ensinando há anos, talvez numa linguagem sutil demais, ou cifrada, para que ele não tenha dificuldades de entender: que ter cabelo é uma condenação porque é ter a possibilidade de perdê-lo, é uma condenação atroz porque, assim que descobre que pode perdê-lo, quem tem cabelo sabe que deixou de ser inocente, sabe que daí até a morte, na melhor das hipóteses, ou até que seu cabelo comece a cair, na pior, está fadado a um calvário perfeitamente estéril: conjurar o perigo cuidando do cabelo. E isso na é nada. Porque a essa atrocidade perpétua se soma outra: também a evidência de que ter cabelo é ter que cortá-lo, e que cortá-lo é exatamente o contrário de perdê-lo, porque só se perde o cabelo uma vez e para sempre, de maneira definitiva, como se fica de cabelos brancos da noite para o dia em decorrência de um golpe de terror, ao passo que um corte é apenas o ponto de partida de uma série, a primeira de um infinito rastilho de repetições, porque se cada corte é único, fruto de um complexo de variáveis, o estado em que o cabelo chega ao corte, o pedido exato de quem vai cortá-lo, o cabeleireiro a quem se confia seu cabelo, o ponto em que está naquele momento a técnica do ofício de cabeleireiro, as ferramentas utilizadas no corte, o nível de estresse ou calma que impera do salão no momento do corte - todos se parecem, todos são de algum modo único, um mesmo corte e ninguém, nunca, dá nem dará a quem corta o cabelo o que ele realmente quer. Não é o mal nem o bem, é o fantasma, a besta negra, o demônio da irregularidade que se apossa de seu corpo. Aprende basicamente que não há cabeleireiro que corte duas vezes do mesmo jeito.
(Fragmento de ''História do Cabelo'', de Alan Pauls)

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