LEITURA - As máscaras do 'sucesso'
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Marcos Losnak <br>Especial para Folha2 
Grande parte da tentativa dos escritores em criar a obra perfeita culminou em frustração. A literatura seria, nesse ponto de vista, fruto direto do fracasso. Tudo que os leitores têm nas mãos não passa da decepção de escritores paranóicos em busca do livro perfeito.
A literatura e o fracasso teriam nascido um para o outro. Uma espécie de amantes eternos segundo escritor espanhol Henrique Vila-Matas em seu novo romance, ''Ar de Dylan'', lançado pela editora Cosac Naify. Para fugir desse circulo vicioso, a liberdade da imperfeição seria o caminho plausível.
''Ar de Dylan'' é o nono romance de Vila-Matas publicado no Brasil e segue fielmente o estilo que caracteriza toda sua obra: fazer literatura da literatura. A matéria prima de suas narrativas é a própria literatura - escritores, textos e livros, sejam eles reais ou imaginados. Nascido em 1955, é autor de uma obra extremamente particular dentro do gênero romance. As histórias que narra são verdadeiros ensaios sobre literatura. O personagem principal de sua ficção é, sempre e recorrente, a própria literatura.
O narrador de ''Ar de Dylan'' é um escritor veterano de meia-idade que recebe o inusitado convite para participar de um congresso sobre o fracasso. No evento assiste à palestra de um jovem (chamado Vilnius) que coloca em prática o próprio tema do congresso: se propõe a proferir a palestra mais chata do mundo. O objetivo é fazer com que todos os ouvintes abandonem a sala, coroando de fracasso sua fala. O jovem quase atinge o sucesso de seu intento, ou seja, o fracasso. Quase porque o escritor veterano é o único que permanece ouvindo sua fala.
Desse encontro, nasce uma amizade repleta de pontos de confluência e movimentos. O escritor veterano está emprenhado em abandonar a literatura, não escrever mais nenhuma palavra, não pronunciar mais nenhuma palavra. Converter-se num homem ágrafo e mudo. O jovem está empenhado em se libertar da sombra do pai, também escritor, que acaba de falecer. O pai teria invadido sua memória para exigir vingança pela sua morte. O jovem apenas deseja tornar-se uma pessoa com pensamentos próprios, pautado pela liberdade de escolhas.
A partir dessa trama inicial, Henrique Vila-Matas extrapola para direções inimagináveis. Tudo permeado pelas ideias de figuras como Bob Dylan, Fernando Pessoa e Marcel Duchamp, entre outros. A trama de fundo acompanha o mesmo drama de ''Hamlet'', texto do dramaturgo inglês William Shakespeare.
O jovem Vilnius dedica seu tempo em tentar saber uma frase (''Quando escurece, precisamos sempre de alguém.'') é de sua autoria ou do escritor Scott Fitzgerald. Quando descobre que a autoria não pertence nenhum dos dois, mas um bêbado desconhecido, cria um princípio existencial que consiste em simplesmente não fazer nada. O objetivo seria passar os dias literalmente sem fazer nada de nada. Uma vida dedicada à vagabundagem total e irrestrita. Apenas ter uma única ideia por dia e jamais colocá-la em prática. O principal lema seria: ''Não fazemos nada, mas somos indispensáveis.''
''Ar de Dylan'' se revela o romance mais irônico e bem-humorado de Vila-Matas. Toda sua literatura marcadamente cerebral permanece intacta, mas há uma série de frestas para a imperfeição, para o relaxamento diante da obra amarrada em todos os pontos da malha narrativa. Como na ideia proposta, a perfeição é deixada de lado em nome da liberdade que só o fracasso proporciona.
Mas há um argumento maior na narrativa de Vila-Matas, o desenho do procedimento de duas gerações distintas. Uma, mais velha, acredita que, apesar dos fracassos, o mundo ainda pode ser transformado. Outra, mais jovem, crê que, diante de tantos fracassos da humanidade, o mundo não pode ser transformado. Qualquer transformação estará fadada a um novo fracasso. E o mundo contemporâneo (bem como a arte e a literatura) seria justamente a junção dessas duas crenças: a idealização do sucesso e a realidade do fracasso.
Fragmento:
Alguns entram muito tarde no teatro da vida, mas quando o fazem parece que entram sem freios e vão direto até o final. Foi o meu caso. E hoje posso afirmar isso com toda segurança. A encenação começou na manhã em que minha mulher me entregou uma carta que havia acabado de chegar da Suíça, um convite para participar de um congresso literário sobre o fracasso.
Não era, claro, o tipo de convite que os escritores recebem com frequência e, no entanto, poucas coisas parecem tão intimamente ligadas como o fracasso e a literatura. Talvez por isso li a carta como se soubesse desde sempre que um dia a receberia. Não movi nem um músculo do rosto. Reagi o convite com elegância e senso de fatalidade, como se estivesse no canto de um imenso cenário. E fiquei com uma única dúvida nas horas seguintes: vestira a máscara de fracassado ou levar minha vida normal de fracassado.
(Fragmento de ''Ar de Dylan'' de Henrique Vila-Matas)
Serviço:
''Ar de Dylan''
Autor - Henrique Vila-Matas
Editora - Cosac Naify
Tradução - José Rubens Siqueira
Páginas - 320
Quanto - R$ 59


