LEITURA - As malas do mundo
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de agosto de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Houve um tempo em que jornais e revistas publicavam longas reportagens. Páginas e páginas sobre determinado assunto. A forma como os textos eram escritos, bem como o enfoque utilizado, era tão importante quanto a informação em si.
No Brasil, um dos primeiros a praticar esse tipo de jornalismo, em plena década de 40, foi o sergipano Joel Silveira. A partir da década de 50, os norte-americanos entraram com os dois pés na porta do gênero, batizado de ''jornalismo literário'' ou ''novo jornalismo''. Figuras como Joseph Mitchell, Gay Talese, Hunter S. Thompson, Truman Capote e Tom Wolfe, colocaram a reportagem jornalística em pé de igualdade com a literatura.
Com o colapso da mídia impressa brasileira ocorrida no início da década de 90, esse tipo de jornalismo entrou em processo de extinção em jornais e revistas. Para não ser velado sob sete palmos de terra, migrou para as páginas dos livros.
Uma boa surpresa nesse sentido é ''O Livro Amarelo do Terminal'', que acaba de ser lançado pela editora Cosac Naify. Escrito por Vanessa Bárbara, uma jovem jornalista de 25 anos, é de uma grande reportagem sobre o cotidiano da maior rodoviária da América do Sul: o Termina de Tietê, em São Paulo. Vanessa nasceu literalmente no berço da geração internet. Chegou até a escrever até um romance, ''O Verão do Chilo'', em parceria com Emilio Fraia, utilizando as ferramentas virtuais. E nem por isso chutou para escanteio os ousados princípios das grandes reportagens do ''antigo'' jornalismo literário.
O material nasceu a partir de um trabalho de conclusão do curso de jornalismo e, aos poucos, ganhou porções maiores. Muito mais do que apresentar a história da rodoviária e os porões do funcionamento do lugar, Vanessa Barbara revela a história das pessoas que passam pelo Terminal, dos funcionários que trabalham no local, dos motoristas que transitam pelas plataformas. Curiosidades, realidades e subjetividades. Em um lugar aonde 60 mil pessoas chegam e partem todos os dias, tudo é possível.
Por ser um lugar de constante fluxo de milhares de pessoas, pelo eterno tráfego, o Terminal do Tietê assume a imagem de uma espécie de miniatura do Brasil. Do mundo. E, quem sabe, do universo humano. A partir de simples observação e da conversa com pessoas, a autora desfila uma painel de fragmentos para desenhar um panorama maior, a imagem de uma floresta urbana em constante transformação.
''O Livro Amarelo do Terminal'' possui um projeto gráfico original. Simulando as páginas amarelas de uma lista telefônica, utiliza como recurso gráfico os mais variados tipos de impresso que repousam nos bolsos dos passageiros e latas de lixo das rodoviárias.
O texto parte da uma idéia básica que anda visivelmente esquecida nos dias atuais, de que a informação está em todo e qualquer lugar, não apenas nos pontos oficiais; não apenas no discurso de um político, na entrevista de um policial, nas aulas de um professor universitário, nos cálculo de um economista ou no sermão de um padre ou pastor. Ela está em todo canto, em toda e qualquer situação. Até no chiclete que gruda no sapato. Basta focalizar os olhos e direcionar os ouvidos.
Fragmento
Um nenê de suéter verde dança pelo saguão. Na mão esquerda, segura uma bolacha de maisena. Quase saltando por cima deste, passa apressada uma mulher bem alta, que carrega uma criança, que carrega um bebê (de plástico). No chão, o nenê da maisena põe uma chupeta na boca e, com ar grave, ocupa-se em desbravar o poste da área reservada para não-fumantes. Aparentemente, uma fonte inesgotável de interesse. Ele gira em torno do poste, dando passinhos minúsculos em seu par de tênis Ortopé.
Acompanhando a cena, intrigadíssimo, um senhor de calça social e chinelo de dedo limita-se a ficar parado, bem no meio do saguão. Esperava por qualquer coisa. Não dava bola para o fato de estar no meio de um local cheio de pessoas que circulam, aos montes.
Pois bem: o nenê da maisena encontra um semelhante e ambos passam a rolar no chão, rindo e berrando alternadamente. A bolacha permanece intacta: é uma não-bolacha, despida de qualquer fim gastronômico. O objetivo parece ser segurá-la fortemente para que não caia. O público atento, na primeira fileira de cadeiras, olha de relance para os pais do menino, esperando uma intervenção qualquer.
SERVIÇO
- O Livro Amarelo do Terminal
Autor - Vanessa Barbara
Editora - Cosac Naify
Projeto Gráfico - Eliane Ramos e Maria Carolina Sampaio
Quanto - R$ 35 (260 págs)


