Na semana passada foi anunciado o nome de Raduan Nassar como vencedor do Prêmio Camões 2016, considerado o maior prêmio literário da língua portuguesa. Aos 81 anos, escritor brasileiro recebe o reconhecimento uma obra que, embora pequena, representa uma referência na literatura brasileira.
Raduan Nassar representa um autor peculiar dentro das letras brasileiras. Publicou, basicamente, dois únicos livros: o romance "Lavoura Arcaica" (1975) e a novela "Um Copo de Cólera" (1978). Depois simplesmente desistiu da literatura, não escreveu mais nada. Passou a criar coelhos e galinhas. Tornou-se fazendeiro e mandou a literatura catar coquinho. Há 40 anos não escreve uma única linha.
O único volume que apareceu depois, somente em 1996, foi a coletânea "Menina a Caminho", que reunia contos escritos pelo autor entre as décadas de 1960 e 1970 publicados originalmente em jornais e revistas. Textos que representam apenas o processo de desenvolvimento da escrita e da linguagem de Raduan Nassar.
Sua literatura passou a ser conhecida e estudada a partir da década de 1980, com as sucessivas reedições de "Lavoura Arcaica" e "Um Copo de Cólera". Os livros também receberam suas devidas adaptações para o cinema: "Um Copo de Cólera" (1999) com direção de Aluizio Abranches e "Lavoura Arcaica" (2001) dirigido por Luiz Fernando Carvalho.
Raduan Nassar nasceu em 1935, na cidade de Pindorama, interior de São Paulo, filho de imigrantes libaneses. Na adolescência a família se transferiu para a capital, onde ele cursou as faculdades de Direito e Filosofia. Após mergulhar no universo da literatura e publicar seus dois e principais livros, mudou-se para o município de Cotia, onde passou a criar coelhos e posteriormente galinhas. Nas raras entrevistas que concedeu após abandonar a literatura, afirmou que a criação de galinhas era uma atividade mais interessante do que a atividade literária.
Em 1982 comprou a fazenda Lagoa do Sino, no município de Buri, interior de São Paulo, onde passou a residir e dedicar-se integralmente à agricultura e pecuária. Em 2010 doou toda a fazenda para a Universidade Federal de São Carlos que transformou o local num campus avançado de ensino e pesquisa.
Das suas obras de Raduan Nassar, "Lavoura Arcaica" se revela a mais emblemática. O romance realiza uma contundente versão da parábola bíblica do filho pródigo invertendo a lógica das coisas. Traz o relato de André, um jovem nascido e criado no seio de uma família rural que resolve abandonar tudo e viver na cidade.
A narrativa começa quando o irmão mais velho de André o resgata de uma pensão imunda da cidade grande. O objetivo é levá-lo de volta à fazenda, trazê-lo de volta ao seio familiar. Nesse caminho de retorno, o narrador procura acertar as contas com o passado e com família. Entre as vertigens do desassossego, a máquina mental de lavar roupa suja assume a forma de engrenagem de derrubar máscaras. Aquilo que seria a grande festa pelo retorno do filho pródigo, converte-se no caos na derrubada de máscaras e de estruturas de poder familiares.
Não é apenas o intrincado enredo que faz de "Lavoura Arcaica" um clássico da literatura brasileira. A linguagem desenvolvida por Raduan Nassar é maior que o próprio enredo. A estrutura narrativa pode ser descrita como um monstro que engole o leitor e faz com que ele sinta todo o processo de digestão acompanhando gazes, enzimas e ácidos.
"Um Copo de Cólera" traz a maior briga de casal, entre amor e ódio, da literatura brasileira. São mais de 60 páginas em único parágrafo, com a utilização apenas de vírgulas, de acusações entre homem e mulher a partir de um fato inesperado e bobo após uma noite de amor e sexo. O autor consegue colocar dentro dessa briga de amor, narrada pela ótima masculina, todo o contexto sexual, comportamental, político, ético, moral, social do Brasil da década de 1970. Trata-se do desenho catártico de duas pessoas que estão completamente unidas em determinado momento e, logo em seguida, completamente distantes. Da comunhão ao abismo em cinco minutos.
Raduan Nassar pode ter abandoando a literatura de maneira consciente e deliberada, mas os dois livros que deixou valem uma vida. A prosa poética como conhecemos hoje na literatura brasileira, teve seus fundamentos em sua literatura. A capacidade de verter bílis em palavras e admitir que só utiliza a razão quem nela é capaz de incorporar suas paixões.

Serviço:
"Lavoura Arcaica"
Autor – Raduan Nassar
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 200
Quanto – R$ 42,90 e R$ 28,00 (e-book)

"Um Copo de Cólera"
Autor – Raduan Nassar
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 88
Quanto – R$ 34,90 e R$ 20,50 (e-book)

"Menina a Caminho"
Autor – Raduan Nassar
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 96
Quanto – R$ 32,90 e R$ 28,00 (e-book)

(...) "Não tinha ainda abandonado a nossa casa, Pedro, mas os olhos da mãe já suspeitavam minha partida" eu disse ao meu irmão, passado o primeiro alvoroço que sua presença tinha provocado naquele quarto de pensão; "quando fui procurar por ela, eu quis dizer a senhora se despede de mim agora sem me conhecer, e me ocorreu que eu pudesse também dizer não aconteceu mais do que eu ter sido aninhado na palha do teu útero por nove meses e ter recebido por muitos anos o toque doce das tuas mãos e da tua boca; eu quis dizer é por isso que deixo a casa, por isso é que parto, quantas coisas, Pedro, eu não poderia dizer pra mãe, mas meus olhos naquele momento não podiam recusar as palmas prudentes de velhos artesãos, me apontando pedras, me apontando paisagens esquisitas, calcinadas, me modelando calos, modelando solas nos meus pés de barro; claro que eu poderia dizer muitas coisas pra mãe, mas achei inútil dizer qualquer coisa, não faz sentido, eu pensei, largar nestas pobres mãos cobertas de farinha a haste de um cravo exasperado, não faz sentido, eu pensei duas vezes, manchar seu avental, cortar o cordão esquartejando um sol sanguíneo de meio dia, não faz sentido, eu pensei três vezes, rasgar lençóis e pétalas, queimar cabelos e outras folhas, encher minha boca drasticamente construída com cinzas devassadas da família, por isso em vez de dizer a senhora não me conhece, achei melhor, sem me desviar do traço de calcário, mesmo sem água, de boca seca e salgada, achei melhor me guardar trancado diante dela, como alguém que não tivesse nada, e na verdade eu não tinha nada pra dizer a ela; e ela queria dizer alguma coisa, e eu pensei a mãe tem alguma coisa pra dizer que vou talvez escutar, alguma coisa pra dizer que deve quem sabe ser guardada com cuidado, mas tudo o que pude ouvir sem que ela dissesse nada, foram as trincas na louça antiga do seu ventre, ouvi dos seus olhos um dilacerado grito de mãe no parto, senti seu fruto secando com meu hálito quente, mas eu não podia fazer nada, eu podia quem sabe dizer alguma coisa, meus olhos estavam escuros, mesmo assim não era impossível eu dizer, por exemplo. Eu e a senhora começamos a demolir a casa, seria agora o momento de atirar com todos os pratos e moscas pela janela o nosso velho guarda-comida raspar a madeira, agitar os alicerces, pôr em vibração as paredes nervosas, fazendo tombar com nosso vento as telhas e as nossas penas em alvoroço como se caíssem folhas; não era impossível eu dizer pra ela vamos aparar, mãe, com nossas mãos terníssimas, os laivos de sangue das nossas pedras, vamos pôr grito neste rito, não basta o lamento quebrado da matraca lá na capela; não era impossível, mas eu já te disse, Pedro, meus olhos estavam mais escuros do que jamais alguma vez estiveram, como podia eu empunhar o martelo e o serrote e reconstruir o silêncio da casa e seus corredores? Mas entenda, Pedro, com meus olhos sempre noturnos, eu, o filho arredio provocando as suspeitas e os temores na família inteira, não era com estradas que eu sonhava, jamais me passava pela cabeça abandonar a casa, jamais tinha pensado antes correr longas distâncias em busca de festas prós meus sentidos; (...) (Fragmento de "Lavoura Arcaica", de Raduan Nassar)
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