O ano era 1980. O Brasil vivia os primeiros passos da abertura política, após o fim da ditadura militar. A literatura brasileira, caminhando com as próprias pernas, refletia a abertura cultural que começava a ganhar visibilidade, dando a volta por cima das cicatrizes políticas e sociais.
Naquele ano, a antiga Editora Brasiliense deu o pontapé inicial numa coleção de livros que, com ousadia, sintetizava a produção da época. A coleção, chamada ''Cantadas Literárias'', lançou obras que fizeram a cabeça de toda uma geração.
No ano seguinte, em 1981, chegava às livrarias o segundo título da coleção, ''Tanto Faz'', romance do escritor paulista Reinaldo Moraes. Narrava a história de um brasileiro que ganha um bolsa de estudo em Paris. Chegando à França, deixa os estudos de lado e passa a levar uma vida com ares ''beatnik''. Leva os dias acordando tarde, enchendo a cara, dando baixarias em festas, dormindo com todas as mulheres possíveis, assistindo a filmes e tentando escrever um livro.
''Tanto Faz'' tornou-se o livro de bolso dos leitores jovens que desejavam uma literatura mais próxima da vida. Com uma linguagem livre, desencanada, e totalmente pautada pela oralidade, Reinaldo Moraes deslocava o foco da literatura em vigor. Deixava de evidenciar o caráter social e político, imerso em sisudez, para dar voz ao próprio corpo, ao prazer amplo e à individualidade, tudo com um bom humor contagiante.
Após o sucesso de ''Tanto Faz'', Reinaldo publicou seu segundo romance, ''Abacaxi'' (Editora L&PM, 1885). A obra não tinha a pegada do anterior e acabou alcançando pouca repercussão. Depois disso o escritor sumiu do mapa. Não publicou nenhum livro.
Agora, depois de vinte anos de silêncio, Reinaldo Moraes volta às livrarias com o volume de contos e novelas ''Umidade'', publicado pela Editora Companhia das Letras. Escritos ao longo dos últimos cinco anos, nos textos preservam uma das principais característica do autor: o bom humor que flerta com as ironia e que, algumas situações, pode chegar a flertar com o sarcasmo.
No conto ''Sildenafil'', marido e mulher, deitados na cama, lêem a bula do medicamento Viagra. Com o texto construído apenas com diálogos, enquanto o marido se interessa apenas pelos efeitos colaterais, que ele estará sujeito, a esposa joga todas suas cartas para evidencias os efeitos positivos do remédio, que ela estará sujeita.
Na novela ''Umidade'', que dá título ao livro, Reinaldo narra a história de um executivo bem-sucedido que empenha a vida para ter ao seu lado a mulher mais gostosa da cidade. Interessado na beleza do corpo da moça, aceita a condição imposta por ela: sexo só depois do casamento. Alucinado, se sujeita ao namoro, ao noivado e ao casamento. O impasse começa quando o sexo não acontece na noite de núpcias, nem depois nos dias seguintes.
Em ''Privada'', curiosamente Reinaldo ''empresta'', para sua história, um personagem de outro autor: o dramaturgo londrinense Mário Bortolotto. Cardan, personagem do romance ''Bagana na Chuva'' de Bortolotto surge como Sedan na novela de Moraes. Trata-se de um jovem aspirante a escritor que deixa Londrina para viver em São Paulo acompanhando um grupo de teatro. Quem narra a história é a namorada de Sedan, que acaba de levar um pé na bunda. Ela apresenta as aventuras vividas ao lado do amado enquanto usa o banheiro de um bar depois de beber dúzias de cerveja.
Se existe um elemento de ligação entra os textos de ''Umidade'', esse elemento pode ser o desejo. Na maioria das histórias, o desejo é uma máquina que não para de funcionar. E isso faz da vida uma montanha russa. Como, do mesmo modo, o desejo é uma máquina que para de funcionar. E isso também faz da vida uma montanha russa. Reinaldo Morais simplesmente ri de ambos os casos.

Serviço:
- Livro ''Umidade - Histórias'', de Reinaldo Moraes. Editora Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 36,50.

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