LEITURA - As flores de linguagem
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Velocidade e complexidade. Essas duas características da atualidade estão contaminando a poesia de modo nunca visto. Para Rodrigo Garcia Lopes, o poeta escreve hoje dentro de um contexto extremamente acelerado de tempo-espaço, algo novo na história da literatura.
Após quase dez anos sem publicar um volume de poesia, o poeta londrinense Rodrigo Garcia Lopes volta às livrarias com um novo volume de versos. "Estúdio Realidade", lançado pela editora 7 Letras, coloca os dois pés na contemporaneidade para encarar a poesia como uma reserva ecológica da sensibilidade humana.
Dividido em quatro seções, "Estúdio Realidade" parte do conceito de que a poesia pode reconstruir a realidade através da palavra. Como instrumento, faz uso de uma diversidade de estilos, formas, ritmos e dicções.
Autor de outros cinco volumes de poesia, "Solarium" (1994), "Visibilia" (1996), "Polivox" (2001) e "Nômada" (2004), a seguir Rodrigo Garcia Lopes fala sobre seu novo livro.
"Estúdio Realidade" parte do conceito da retomada da realidade pela poesia. Como é isso?
A palavra realidade já é problemática em si, não é? Do ponto de vista da poesia, a linguagem é a nossa realidade enquanto seres humanos. A operação poética reconstrói a realidade através da palavra. Por outro lado, a realidade num poema nunca é dada de graça, ela só pode ser conquistada. Pelo autor e pelo leitor.
O livro possui uma rica diversidade de gêneros poéticos, além de múltiplos estilos, formas, ritmos e dicções. Sua poesia é um retrato do grande fluxo de informações e referências do mundo atual?
É uma das minhas preocupações, sim, fazer uma poesia como alternativa à ditadura das imagens e o barateamento da linguagem da sociedade atual. Acima de tudo, ser um poeta do meu tempo. Acho que a percepção é um elemento chave na poesia que escrevo.
Os poemas de "Estúdio Realidade" apontam para a realidade como um estúdio semelhante ao de pintura, música ou cinema. Você aposta no mundo real como construção do imaginário?
Gosto de pensar no poema como o resultado do atrito entre consciência e mundo, fruto dessa tensão. A ideia, também do poeta como um tradutor, um decifrador das mensagens enviadas do estúdio realidade. O título do livro também sinaliza a poesia enquanto artifício, com o poder de questionar essa realidade, bem como o de construir e inventar outras. Se não acreditasse que a poesia pode provocar uma re-sensibilização, não estaria há tantos anos insistindo nela.
Os poemas trafegam entre vários elementos típicos da contemporaneidade como intercontextualidade, polifonia, desterritorialização, etc. O mundo contemporâneo, cada vez mais veloz e complexo, tornou-se o grande tema de sua poesia?
Não tem como negar o impacto da globalização e da tecnologia na sensibilidade contemporânea, bem como a situação do sujeito nesse contexto em que ele está cada vez sendo mais mediado pelos meios de comunicação de massa. Até mesmo para repensarmos nossa relação com a natureza. O poeta escreve hoje dentro de um contexto onde houve uma aceleração espaço-tempo inédita em nossa história. Gosto de ver o poema como um campo aberto de possibilidades discursivas.
Meses atrás você lançou o CD "Canções do Estúdio Realidade" e agora o livro "Estúdio Realidade". Existe uma conexão entre os dois trabalhos?
Os dois foram finalizados mais ao menos na mesma época, e o nome veio do blog que mantenho desde 2007. O termo, por sua vez, é do escritor norte-americano William Burroughs. Eu me aproprio do termo como uma espécie de metáfora do mundo louco e complexo em que a gente vive.
Numa das seções do livro você faz uso do universo das investigações de detetives, elementos típicos do romance policial. Há alguma relação entre o gênero policial e a poesia?
Para mim, sim. Tem muito de investigação na poesia que escrevo. Pouca gente se lembra que Edgar Alan Poe, em seu ensaio "Filosofia da Composição", onde ele anuncia o que seriam as características básicas do gênero do romance policial, usa como exemplo a construção de seu poema "O Corvo" para ilustrar seu método de construção de trás pra frente. Isto é característico da história de detetive clássica. Nos poemas faço paralelos entre a operação poética e a investigação policial.
Qual a poesia possível nos dias atuais?
Uma que seja relevante para nosso tempo, que tenha a capacidade de dialogar com o agora, de estar sintonizada com o mundo globalizado que nos rodeia, sendo capaz de re-significar o mundo à nossa volta. Uma que seja relevante para os dias de hoje, que resgate a percepção, a faculdade de imaginação, que faça do ordinário algo maravilhoso e vice-versa.
E qual a poesia necessária?
A poesia nunca foi tão necessária. É a reserva ecológica da sensibilidade humana. É música da linguagem verbal. Uma forma de conhecimento. Um instrumento de percepção. Um passaporte para outros modos de ser, e estar no mundo.
Serviço:
"Estúdio Realidade"
Autor Rodrigo Garcia Lopes
Editora 7 Letras
Páginas 136
Quanto R$ 36


