LEITURA - As fantásticas faces da realidade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de março de 2015
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
A literatura do escritor goiano José J. Veiga (1915 1999) sempre foi classificada como fantástica. Ao lado do mineiro Murilo Rubião (1916 1991), seus livros ocupam lugar de destaque na história da literatura brasileira na gavetinha do realismo fantástico ou realismo mágico.
O curioso é que José J. Veiga, ao longo da vida, repetiu dezenas de vezes que sua literatura não tinha nada de fantástico, muito menos de mágico. Em suas palavras literais: "Minha literatura é uma literatura realista: nem fantástica, nem mágica". O que era visto como insólito em suas histórias, para ele era apenas uma das faces da realidade.
Veiga é mais um dos casos de importantes autores brasileiros esquecidos pelo mercado editorial. Há quase duas décadas seus livros estão disponíveis apenas em sebos. Agora a editora Companhia das Letras começa a relançar sua obra. Os dois primeiro volumes reeditados, "A Hora dos Ruminantes" e "Os Cavalinhos de Platiplanto", já estão nas livrarias. "Sombras dos Reis Barbudos" deve chegar às livrarias em setembro, e "De Jogos e Festas", em dezembro.
O romance "A Hora dos Ruminantes" pode ser considerado um clássico da literatura brasileira. Publicado originalmente em 1966, geralmente é considerado uma fábula sobre o regime militar instaurado no país com o Golpe de Estado de 1964. Uma consideração limitada que começou a ser questionada nos últimos anos. Numa leitura contemporânea, a obra de José J. Veiga pode estar muito mais próxima da atmosfera literária de Franz Kafka (1883 1924) do que do realismo fantástico de Gabriel García Márquez (1927 2014) ou de uma fábula sobre a ditadura militar.
"A Hora dos Ruminantes" narra um estranho episódio ocorrido em Manarairema, um pequeno vilarejo imaginário do interior do Brasil. De maneira inesperada, certo dia surge um acampamento próximo da cidade. Os habitantes do acampamento estão imersos num mistério que o pessoal simples do vilarejo deseja curiosamente desvendar. A falta de comunicação entre os recém chegados e os habitante do lugar instaura um clima nebuloso, fértil para o florescimento da imaginação. O que fica claro, desde o início, é que há uma prepotência, um poder, que o acampamento pretende exercer sobre o vilarejo.
No meio dessa alegoria sobre a prepotência, coisas estranhas e fantásticas começam a acontecer no vilarejo. Primeiro cachorros invadem a cidade, um mar de cães ocupa ruas e casas. Em seguida bois invadem tudo, congestionando todos os espaços. Numa espécie de peste bíblica (chuva de cachorro e chuva de vaca), os animais ocupam a cidade confinando os habitantes em suas casas. Tudo acontece sem nenhuma explicação ou lógica, e as pessoas precisam se adaptar aos novos acontecimentos.
No meio do insólito e do jogo de poder, José J. Veiga realiza um instigante retrato da figura do matuto tipicamente brasileiro. Aquele sujeito simples do meio rural, sempre fiel aos seus princípios e desconfiado das novidades. Aquele sujeito que vive da mão para a boca, mas não está disposto a abaixar a cabeça por algumas moedas ou parcos argumentos.
Na narrativa de "A Hora dos Ruminantes" não há governante, não há policial, não há religioso, não há juiz. Os personagens são todos pessoas simples embrenhadas numa existência básica longe das grandes esferas de poder. E quando o poder bate em suas portas, com todo seu sinistro mistério, elas simplesmente fecham as portas.
"Os Cavalinhos de Platiplanto", que reúne 12 contos, foi o primeiro livro publicado por José J. Veiga. Lançado em originalmente em 1959, segundo a lenda, só foi editado graças à intervenção do escritor Guimarães Rosa. Em alguns contos a utopia da infância é desenhada para ser, logo em seguida, entregue aos massacrantes músculos da realidade. Em outros, a transformação da vida em nome da falácia do desenvolvimento ganha asas de borboleta para conseguir alguma clareza.
José J. Veiga nasceu em 1915, na cidade de Corumbá de Goiás. Ainda jovem, fixou residência no Rio de Janeiro, onde fez a faculdade de direito. Nunca exerceu a advocacia, escolhendo o jornalismo como profissão. Atuou em vários jornais cariocas e na BBC de Londres. Ao longo de duas décadas foi redator e tradutor da edição brasileira da Readers Digest. Autor de 14 obras, publicou seu primeiro livro aos 45 anos de idade.
Serviço:
"A Hora dos Ruminantes"
Autor José J. Veiga
Editora Companhia das Letras
Prefácio Antonio Arnoni Prado
Páginas 158 (capa dura)
Quanto R$ 34,90
"Os Cavalinhos do Platiplanto"
Autor José J. Veiga
Editora Companhia das Letras
Prefácio Silviano Santiago
Páginas 156 (capa dura)
Quanto R$ 34,90


